sábado, março 04, 2023

Manifesto do Homem Primitivo

Quanto aos instrumentos de que dispõe o «homem primitivo», seria imprudente ver na sua rusticidade a incapacidade deste para conceber meios de acção de envergadura contra a natureza. Tudo na «cultura primitiva» traduz no homem mais a preocupação, não de destruir e de transformar a natureza, mas, pelo contrário, de a restaurar na sua plenitude primordial e de nela se integrar profundamente. Esta é sem qualquer dúvida a razão por que se encontra na aldeia «primitiva» elemento culturais que são cem vezes inferiores ao pensamento de uma criança. Nada aqui foi construído para durar uma eternidade: todos os anos, pelo bom tempo, as cabanas são cobertas com novos tectos de colmo. Os caminhos desaparecem também sob a vegetação alta do Inverno para reaparecerem na estação seca. Os campos cultivados mal se distinguem do resto da natureza; abandonados os terrenos de pousio, rápida e totalmente se confundem com o mato.

Fodé Diawara, “Manifesto do Homem Primitivo”

domingo, fevereiro 12, 2023

mudos & surdos - das línguas estranhas

 


Quando não se entendem as línguas estranhas, as que falam são mudos, e os que ouvem são surdos (I, 309)

“Sermões e Discursos Vários – Índices das Coisas Mais Notáveis e dos Lugares Bíblicos, Índice Universal” Padre António Vieira

sexta-feira, janeiro 20, 2023

carta de Castelao a Teixeira de Pascoaes, 1934

O Miño non é unha fronteira e temos que voar, com os páxaros, por riba dos carabineiros e dos guardiñas.

carta de Castelao a Teixeira de Pascoaes, 1934



sábado, janeiro 01, 2022

dos aeroportos

O comissário teve tempo para inspeccionar Schiphol e teria ainda mais tempo para inspeccionar Orly, ele que detestava aeroportos. Não tinham humanidade nenhuma. As estações de caminho de ferro eram civilizadas; os aeroportos, não. O ser humano era arrebanhado e importunado, carimbado e rotulado, esprimido através dos subterrâneos como pasta de dentes através de uma bisnaga e, finalmente, encapsulado num abjecto e caríssimo tùnelzinho, a fim de um computador calcular, até ao último miligrama, o lucro a obter. A falta de dignidade era tanta que um indivíduo até aceitaria as condições de um matadouro mais humano e suave, onde lhe dessem um copinho de gin antes de o submeterem à eutanásia. O pior de tudo era a ficção de que os aeroportos se esforçavam por proporcionar os requintes de luxo a quem os utilizava.

Os aeroportos davam-lhe sempre o desejo de estar em Cuba.

Nicolas Freeling, “Herança de Um Inferno”



domingo, dezembro 26, 2021

da Peste - respirar é viver!

 


Assim lhe aconteceu a São Roque: enfermou, e enfermou de peste. E entre as misérias, que fazem tão terrível, tão temido, e tão aborrecido o mal de peste, duas são as que a mim me causam maior horror. A primeira, ser a peste um mal, que do elemento da vida nos faz o instrumento da morte. O elemento da vida é o ar, com que respiramos, a peste é esse mesmo ar corrupto, e inficionado: e que haja um homem de beber o veneno na respiração? Que a respiração, que é o elemento, e alimento da vida, se lhe haja de converter em instrumento da morte? Grande rigor! Expirar é morrer, respirar é viver: e que morra um homem expirando, isso é morte; mas morrer respirando? Que me mate o que me havia de dar vida? Bravo tormento!

Padre António Vieira, “Sermão de São Roque” – Pregado na Capela Real, ano de 1649, havendo Peste no Reino do Algarve

terça-feira, junho 29, 2021

Arte de Amar em Ovídio


Acredita no que te digo: não deve apressar-se o prazer de Vénus,

mas sim, discretamente, fazer por retardá-lo e demorá-lo.

Quando descobrires o ponto onde a mulher se excita ao ser tocada,

não seja o pudor a impedir-te de o tocar;

verás os seus olhos a brilhar de fogo cintilante,

como, tantas vezes, o sol reflecte a luz na superfície da água;

far-se-ão ouvir queixumes, far-se-á ouvir um encantador sussurro

e doces gemidos e palavras apropriadas ao prazer.

Mas não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,

nem seja mais rápido o ritmo dela que o teu;

avançai para a meta ao mesmo tempo, então, será pleno o prazer,

quando, a par e par, fazerem, vencidos, a mulher e o homem.

Ovídio, “Arte de Amar”

segunda-feira, junho 21, 2021

Cabo Verde não é África!

 

Quando chega no aviom à África que lhe venderam na passagem aérea, tam cara, o primeiro impulso do européu é pedir a folha de reclamaçom: “Desculpe mas isto aqui nom é África. Eu tirei um bilhete para África. Pode-me dizer para onde fica?”. No bar da coqueta terminal aérea pode ver o Sumol, o Português Suave, os ovos moles de Tentúgal, a cerveja Sagres, e no ecrãn da TV, o jogo do Sporting contra o Porto. Tudo o que tem rótulo apela-nos com familiaridade e provoca o espelhismo de que chegamos a unha jangada na que se prolonga Europa. É a segunda máscara de Cabo Verde. A de que nom é um lugar novo, a de que te tivérom numha caixa troupeleando unhas horas para simular a viagem e estás no mesmo lugar, no velho mundo. A beber cerveja e a comer tremoços.

Quico Cadaval, prefácio de “O Resto é Céu” de silvia penas

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Portugal e Galiza, Castelao

Até há pouco tempo as relações de Portugal e a Galiza reduziam-se a visitas académicas de tunos e professores. A Universidade castelhana que o estado Hespanhol sustenta em Santiago de Compostela, bem podia entender-se com a Universidade de Coimbra - «esse terrível foco desnacionalizador, por cruel ironia situado no meio da mais estranha paisagem quinhentista» [Teixeira de Pascoaes, “O Espírito Lusitano”] –, sem comprometerem o artifício cultural e político em que vivíamos. Os visitantes universitários de além-Minho esmeravam-se em falar-nos num castelhano risível, e jamais deixaram um só livro em português posto à venda nas nossas livrarias. Consideravam natural que os Galegos só pudéssemos comprar obras portuguesas traduzidas infamemente para castelhano, porque não sabiam que podíamos lê-las no idioma de origem. Lembro-me que no ano de 1906 fui eu a Coimbra numa Tuna académica e os estudantes lusitanos assanhavam-se quando eu lhes falava em galego, como se com isso lhes lembrasse qualquer origem bastarda. Não lhes importava que juntos connosco, numa unidade superior às contingências políticas, tivéssemos criado monumentos literários que são marcos da civilização ocidental, numa língua que eles depuraram e agigantaram, mas que nós soubemos manter em pristina enxebreza e no estado eminentemente popular daquela literatura. Para eles a Galiza estava no Norte, embrulhada em nevoeiros e em chuvas... e os estudantes portugueses eram doidos pelas zarzuelas madrilenas e sonhavam com amores sevilhanos... E contai com que na altura primavam em Coimbra os ideais republicanos.

Castelao, “Sempre em Galiza”

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Diferença entre pintura e escultura

 


Nunca pintou?

Que horror!

Horror porquê?

A grande diferença entre pintura e escultura é que a primeira é uma falsificação da realidade e a segunda a busca da realidade. Enquanto a pintura falseia uma imagem, a escultura recria uma nova realidade. De tal modo que se todo o criador é um rival de Deus Nosso Senhor, o escultor ainda o é mais. Por isso se escreve no Velho Testamento: não farás imagens talhadas em pedra...

João Cutileiro, entrevista a José Carlos de Vasconcelos, JL 402, de 20 de Março de 1990

sábado, janeiro 16, 2021

Exemplo da Natureza

(...) um exemplo da natureza (de que também Deus é o Autor) excelentemente notado por Santo Isidoro Pelusiota. “Não vedes” (diz ele) “o ordem, a harmonia, e o compasso, com que a natureza distribui os tempos aos frutos da terra, e os mesmos frutos aos tempos? O Janeiro, e o Fevereiro, deu-os às sementeiras, e às raízes; o Março, e o Abril às flores; o Maio , e o Junho aos frutos temporãos; o Julho, e o Agosto à sega, e ao trigo; o Setembro, e o Outubro às vindimas; e o Novembro, e o Dezembro aos frutos serôdios, e mais duros. E porque repartiu assim a natureza os meses, uns frios, outros temperados, outros calmosos, e não quis que os frutos crescessem, amadurecessem, e viessem sazonados, todos juntamente?” Nam si cuncta confestim ad vigorem suum pervenirent, profecto agricolae industria ab temporis brevitatem in angustias veniret. [“Já que, se tudo amadurecesse ao mesmo tempo, decerto o trabalho do lavrador, pela estreiteza do tempo, ficaria em grande aperto”.] “A razão é” (responde o Santo) “porque se os frutos viessem todos juntos, afogar-se-ia a indústria dos lavradores, e impedindo-se uns aos outros, seria maior a perda, que a colheita”.

Padre António Vieira, “Com o Santíssimo Sacramento Exposto” [“Sermões do Rosário, Maria Rosa Mística I”]



sexta-feira, dezembro 18, 2020

Vila Real - da destruição...

Vila Real é uma cidade construída sobre um promontório entre os rios Corgo e Cabril, com a presença das serras do Marão e do Alvão bem visíveis no seu horizonte a oeste. A cidade lidou mal com a voracidade dos tempos pós revolução de abril de 1974. O seu centro histórico foi praticamente todo destruído, restando apenas alguns edifícios religiosos. A cidade medieval desapareceu, mas mantém-se a singularidade geográfica do lugar.

Duarte Belo e João Abreu, “Viagem Maior” (dezembro de 2020)

terça-feira, março 24, 2020

Cão, animal de estimação...

Era o seu animal de estimação. E, na verdade, como não ter estima por quem obedece imediatamente aos nossos gritos e se curva com presteza às nossas repreensões e ameaças? Como não ter amor por quem podemos amarrar pelo pescoço e prender numa coleira e arrastar onde o quisermos, à força de puxões e pancadas educativas? Alguém que podemos trancar num minúsculo banheiro durante a noite e obrigar que fique em silêncio. Como não trazer no coração uma criatura a quem podemos, caso isso nos incomode, cortar uma parte do rabo e das orelhas, injectar hormônios, castrar, secar os testículos, ou retirar o ovário ou o útero inteiro, e com toda a razão nos julgarmos, por isso mesmo, merecedores de elogios e de gratidão por toda a vida? Como não prezar como um verdadeiro ser humano alguém que depois de tudo isso nos adora cegamente, geme de alegria atrás da porta quando ouve nossa chave tilintar e corre contente para lamber nossos pés quando chegamos da rua?
Rubens Figueiredo, “Barco a Seco” 

sábado, março 21, 2020

Sermão do Bom Ladrão


Suponho finalmente que os ladrões, de que falo, não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza, e vileza de sua fortuna condenou a este género de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandi est culpa, cum quis furatus fuerit: farutur enim ut esurientem impleat animam | Não é grande a culpa quando o ladrão furta para se saciar [Pr 6, 30]. O ladrão que furta para comer não vai, nem leva ao Inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões de maior calibre, e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome, e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno: Non est intelligendum fures esse solum bursarrum incisores, vel latrocinantes in balneis; sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut gentium, hoc quidem furtim tollunt, hoc vero vi, et publice exigunt. “Não são só ladrões”, diz o Santo, “os que cortam bolsas, ou espreitam os que vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões, que mais própria, e dignamente merecem este título são aqueles a quem os Reis encomendam os exércitos, e legiões, ou o governo das Províncias, ou a administração das Cidades, as quais já com manha, já com força roubam, e despojam os povos”. Outros ladrões roubam um homem, estes roubam Cidades, e Reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, sem perigo; os outros, se furtam, são enforcados; estes furtam, e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma tropa de varas, e Ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos”. Ditosa Grécia, que tinha tal Pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um Cônsul, ou Ditador por ter roubado uma Província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um chamado Seronato disse com discreta contraposição Sidónio Apolinar: Non cessat simul furta, vel punire, vel facere. “Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer”. Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.
Padre António Vieira, “Sermão do Bom Ladrão”, ano 1655

quarta-feira, março 18, 2020

São Vicente por Germano Almeida


E acabou por ensaiar uma análise cuja tese principal era a seguinte: São Vicente é uma ilha de povoamento recente, feito com recurso aos naturais das outras ilhas que as secas, a falta de trabalho e outras misérias forçaram à migração. Ora essas criaturas abandonam ilhas de fortes tradições próprias e já com enraizadas formas de estar no mundo, para de repente se lançarem num espaço não só agreste como também relativamente hostil e onde, para sobreviver, são obrigadas a miscigenar diferentes culturas regionais com o consequente prejuízo de nenhuma delas ser suficientemente maioritária para se impor. E é esta circunstância, mais a ausência de uma ancestral ligação a esta terra, que faz do homem de São Vicente um ser leviano e fluido, sem a salutar verticalidade e firmeza do natural de Santo Antão ou Santiago onde os valores sociais regionais se mantiveram intangíveis. E é sem dúvida interessante verificar a perda da robustez, quer física, quer espiritual, desses povos específicos quando postos em contacto estreito com São Vicente. Porque de indivíduos calados, pensados, cuidadosos no uso das palavras, transformam-se em palavrosos fala-baratos em constante necessidade de afirmação pessoal. Mas como se tudo isso não fosse suficiente, a população que habita esta ilha viu-se, logo no início do processo da formação daquilo que poderia vir a ser uma sui generis cultura regional, submetida e influenciada por uma outra cultura, a inglesa, não só poderosa como rígida e dominadora e que por isso mesmo passou a ser ponto de referência essencial para todo o residente desta ilha, sem prejuízo, bem entendido, da constante passagem de outras formas culturais estrangeiras menos notórias mas nem por isso menos marcantes. E a consequência de tudo isto é a verdade do homem de São Vicente ser o mais inautêntico de Cabo Verde.
Germano Almeida, “O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo”


quarta-feira, janeiro 29, 2020

cartas a Miguel Torga


Caro Autor. Para acudir a muitos alunos do curso secundário, e a bem do malfadado ensino do português, peço-lhe o grande favor de duas linhas nas quais, em letra bem redonda, afirme a condição humana da Madalena dos seus Bichos, negando que ela seja uma cabra ou uma burra, como pretendem umas senhoras mestras de tão impenetrável ignorância, que só se darão por vencidas se (cito) ‘o próprio Torga disser que ela é mulher’.
curto bilhete de Eduardo Jorge Frias Soeiro, professor, Portimão – “Cartas para Miguel Torga” organização de Carlos Mendes de Sousa

domingo, janeiro 26, 2020

Lisboa, por Miguel de Cervantes


- Alvíssaras, senhores, alvíssaras peço e alvíssaras mereço! Terra! Terra! Embora melhor eu deveria dizer: céu!, céu!, porque sem dúvida estamos no sítio da famosa Lisboa.
(...) Aqui, nesta cidade, verás como são carrascos da doença muitos hospitais que a destroem, e o que neles perde a vida, envolto na eficácia de infinitas indulgências, ganha a do céu. Aqui o amor e a honestidade dão as mãos, e passeiam juntos, a cortesia não deixa que dela se aproxime a arrogância, e a bravura não consente que se aproxime dela a cobardia. Todos os seus moradores são agradáveis, são corteses, são generosos e são enamorados, porque são inteligentes. A cidade é a maior da Europa e a de maiores negócios; nela se descarregam as riquezas do Oriente, que daí são repartidas pelo universo; o seu porto é espaçoso, não só de naves que se possam reduzir a um número, mas de selvas móveis de árvores que os das naves formam; a formosura das mulheres admira e enamora; a galhardia dos homens causa espanto, como eles dizem; finalmente, esta é a terra que dá ao céu um santo e abundantíssimo tributo.
Miguel de Cervantes, “Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda” (1580-1615)

domingo, novembro 03, 2019

Terrível palavra é um Non



Terrível palavra é um Non. Não tem direito, nem avesso: por qualquer lado que o tomeis, sempre soa, e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é Non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela, porque o não mordesse; disse-lhe Deus que a tomasse ao revés, e logo perdeu a figura, a ferocidade, e a peçonha. O Non não é assim: por qualquer parte que o tomeis, sempre é serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio, que deixou a natureza a todos os males. Não há corretivo, que o modere, nem arte, que o abrande, nem lisonja, que o adoce. Por mais que confeiteis um Não, sempre amarga; por mais que o enfeiteis, sempre é feio; por mais que o doureis, sempre é ferro. Em nenhuma solfa o podeis pôr, que não seja mal soante, áspero, e duro.
Padre António Vieira, “Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma” – Pregado na Capela Real, Ano de 1670

domingo, março 24, 2019

da construção...

Alguém que se preze e esteja no uso atilado das suas faculdades mentais, andará porventura aos bordos pelas ruas da cidade, sairá de casa em trajes menores para ir tratar dos seus negócios, dirigirá insultos às pessoas desconhecidas por quem for passando? Esperemos que não. E, no entanto, há casas que parecem empenhadas em nos mostrar o destrambelho das suas disposições; fachadas que agridem os nossos olhos com o disparate das formas e das cores; macaquices à laia de ornamentações; janelas que são esgares; portas de expressão tão alvar que, quando abertas, só esperamos que delas saia alguma asneira... e tudo isto se tolera, e ninguém vai preso – nem donos, nem construtores. Bem sabemos que a tolice e a ignorância são úteis até certo ponto; por elas as virtudes opostas melhor se realçam; o mal está em que as obras que deviam exercer influência educativa no sentimento do público, sejam entregues ao livre arbítrio de tais espíritos de negação!
Raul Lino, “Casas Portuguesas – alguns apontamento sobre o arquitectar das casas simples” (1933)


domingo, fevereiro 10, 2019

caracterizadamente português


- É o Sr. Manuel Tomé, o traço de união entre Democracia e o Mosteiro.
Atentando nele e ouvindo-lhe, por momentos, a filosofia alinhavada nas brochuras baratas, vi que era um arremedo de alguns enchedores de gazetas que sacrificam à terceira refeição o banho diário.
Em dez minutos discorreu sobre política, economia, moral, vida moral.
(...) o tipo Manuel Tomé é caracterizadamente português. Veja o seu desdobramento no parlamento, no comício, na escola, na crónica literária... em toda a parte. É a democracia soez pintada de cinismo, a pompear requintes tirocinados em sociedades de ínfimos.
Visconde de Vila-Moura, “Nova Safo”

terça-feira, janeiro 01, 2019

sobre a Arte de escrever

Foram precisos anos de luta, de trabalho duro e de pesquisa, para aprender a fazer um só e simples gesto, e sei o suficiente sobre a Arte de escrever para me aperceber de que necessitaria, de novo, de outros tantos anos de esforço tenaz e concentrado para escrever uma só frase simples e bela. Quantas vezes afirmei que, embora um homem possa aventurar-se por terras do Equador e travar recontros tremendos com tigres e leões, se porventura tentar narrá-los por escrito, não conseguirá fazê-lo, enquanto um outro, que nunca saiu da varanda de sua casa, é capaz de descrever a matança de tigres na selva e fazê-lo de tal modo que os seus leitores não duvidem que na verdade ele andou por esses sítio e com ele partilhem os seus medos e angústias, sintam o cheiro dos leões e ouçam o temeroso aproximar da cobra cascavel. Nada parece ter existência real senão na imaginação e todas as coisas maravilhosas que me aconteceram e vivi podem vir a perder o seu sabor pela simples razão de eu não possuir a pena de um Cervantes ou mesmo de um Casanova.
Isadora Ducan, “A Minha Vida”