domingo, dezembro 07, 2014

Cresci a beijar livros e pão



Cresci a beijar livros e pão.
Lá em casa, sempre que alguém derrubava um livro, ou deixava cair um chapati ou uma «fatia», a palavra que usávamos para um triângulo de pão fermentado com manteiga, o objecto caído tinha não só de ser apanhado mas também beijado, num mea culpa pelo desastre e me sinal de respeito. Eu era tão descuidado e mãos-de-manteiga como qualquer criança e, portanto, nos meus anos de infância, beijei grande número de fatias e tive também a minha conta de livros.
Nos lares devotos da Índia, as pessoas tinham por hábito – e ainda têm – beijar os livros sagrados. Mas nós beijávamos tudo. Beijávamos dicionários e atlas. Beijávamos livros da Enid Blyton e banda-desenhada do Super-Homem. Se algum dia tivesse deixado cair a lista telefónica, provavelmente também a teria beijado.
Tudo isto aconteceu antes mesmo de ter beijado uma rapariga. Aliás, até seria quase verdade, ou em todo o caso suficientemente verdadeiro para um escritor de ficção, dizer que, mal comecei a beijar raparigas, as minhas actividades relativas a pão e livros perderam alguma da excitação que lhes era própria. Mas uma pessoa nunca esquece os seus primeiros amores.
Salman Rushdie, “Mas Já Nada É Sagrado?”, Granta Portugal n.º 2

terça-feira, dezembro 02, 2014

Ver a morte de olhos abertos



Deixei-me guiar pelo meu instinto criativo. Quis entrar pela morte dentro de olhos bem abertos, ver tudo. Vivi qualquer coisa semelhante quando estive na Guerra Colonial. Um dia fomos acudir a uma emboscada e sabíamos que era habitual haver outra emboscada para a coluna de socorro. Demorámos mais de uma hora a lá chegar e pelo caminho iniciei uma contagem decrescente interior para a morte. Pensava: a minha emboscada pode chegar na próxima curva, no outeiro seguinte, ao fundo da estrada. E questionava-me como é que iria morrer. Foi um exercício penoso. Lembro-me de ter concluído que podia morrer mas que não queria que os tiros me acertassem nos olhos. Queria ver a morte de olhos abertos. A emboscada não aconteceu mas a vontade continua.
João de Melo, em entrevista a Luís Ricardo Duarte, JL n.º 1150

quinta-feira, agosto 21, 2014

Catolicismo vermelho

Quanto a mim, odeio e com belo ódios esses povos acalvinados. Lutero é a sombra desse século. O catolicismo era vermelho; o protestantismo é pior por ser incolor, é neutro e anda na História vestido de droguete cinzento como uma farroupilha. Suprimiu os vitrais das igrejas, não é preciso dizer mais nada, e subiu até ao queixo a blusa das mulheres; isto aboliu os seios das santas e tudo o que punha flores nos olhos... Os vitrais flamejantes das rainhas com veste de pedrarias, e da nudez dos arcanjos, era um pouco de céu vivo nas ogivas. O colo nu das mulheres a sair para fora das blusas era um pouco de amor, e portanto um pouco mais de paraíso na parda monotonia dos dias.
Jean Lorrain, “O Senhor de Bougrelon” 

quarta-feira, agosto 13, 2014

Quero crer...


Todos pensávamos até há pouco tempo que o progresso técnico e o avanço da ciência podiam resolver todos os problemas, podiam ajudar a produção agrícola, iam melhorar a sua potencialidade proteica e vitamínica, contribuindo de forma decisiva para resolver o flagelo da fome no mundo. A miséria e os gritantes desníveis sociais poderiam ser minorados pela inovação tecnológica, pela ciência produzida nos nossos laboratórios, pela agricultura moderna. E, infelizmente, tudo está a acontecer precisamente ao contrário.
A quantidade de produtos tem de facto aumentado, pelo menos aparentemente, mas a qualidade tem vindo a diminuir, com a exagerada utilização de fertilizantes e todo o género de bioquímicos que, lenta mas inexoravelmente, vão degradando os alimentos, provocando e activando enfermidades antes desconhecidas, empobrecendo os solos e inquinando as águas. Isto sucede no chamado mundo rico, porque nos países excluídos do progresso moderno a exploração desenfreada das multinacionais tem-lhes levado a fome e a miséria mais desumanas. É uma situação insustentável que mesmo nos países abastados, em rápido processo de engorda, pode levar a profundas convulsões sociais e sobretudo a uma inadiável revolução agrícola. Seja agricultura verde, seja biológica, algo tem de acontecer em tempo útil, enquanto o solo arável não tiver sido completamente destruído pelos químicos poluentes e pela urbanização selvagem. Porque é da terra que temos de continuar a comer.
A terra, num futuro mais próximo do que imaginamos, terá de sofrer profunda conversão. Na recuperação dos sistemas de rega, no plantio de áreas hortícolas, no incentivo da policultura, na redistribuição da propriedade e, sobretudo, no controlo e na posse social da terra.
Todo este processo, imparável a médio termo, vai necessitar outra vez de camponeses, de alguém que saiba ainda trabalhar os campos. A terra, pela sua raridade cada vez mais preciosa, tende necessariamente a tornar-se, não só propriedade colectiva, como, sobretudo, um património cultural, como um bem social a preservar.
A agricultura capitalista, no seu afã exclusivo de lucro fácil, começa a mostrar a sua incapacidade de abastecer o seu próprio mercado e sobretudo de controlar a qualidade. E a qualidade alimentar começa a ser a pedra de toque de uma sociedade cada vez mais consciente e que neste sector não perdoa a ganância desenfreada dos agentes comprometidos nas mais graves manipulações químicas ou genéticas.
E, no entanto, actualmente todo o sistema de comercialização continua a avaliar os géneros alimentares pelo seu exclusivo peso-valor. Porém, muito brevemente, será decisivo o controlo de qualidade, em que serão excluídos os pesticidas, antibióticos, hormonas e todos os venenos químicos que hoje são incorporados ao alimentos que consumimos diariamente.
Embora tímida, em vários pontos da Europa, e também entre nós, em simultâneo com a concentração em bairros urbanos periféricos dos camponeses do interior rural, é já sensível uma sensação de clausura, um desejo de fuga da selva urbana em que se transformaram as antigas cidades onde ainda há poucos anos era sensível e dominante a escala humana. Os actuai e desproporcionados monstros urbanos têm vindo a matar a sua própria razão de ser. A antiga cidade, a polis mediterrânica – Lisboa e tantas outras – têm vindo a assistir à destruição inexorável da sua cintura agrícola. As suas hortas e pomares, tão celebrados – de loures, de Frielas, da Amadora – estão agora debaixo de prédios e ruas asfaltadas, soterradas por lixeiras e esgotos. Os problemas não vêm apenas da construção, do cimento, e sim do que tudo isso implica, como poluição da terra e das águas. Dentro de poucos anos, toda essa gente em expansão desordenada não vai poder aqui sobreviver. As belas cidades antigas, com os cascos históricos que serviam de pólo aglutinador e de referência cultural, que foram a matriz da nossa civilização, estão a ser abandonados, num estado deplorável de degradação arquitectónica e social. Os bairros-dormitório dos arrabaldes, sem alma e sem qualquer identidade, abrigo privilegiado da marginalidade e da violência, proliferam como cogumelos, entregues em exclusivo aos interesses da especulação imobiliária.
Por outro lado, as zonas rurais do interior estão a ser sistematicamente despojadas dos seus apoios cívicos e administrativos: as escolas fecham por terem poucos alunos, os postos de correio desaparecem, os meios de transporte colectivos são eliminados, os serviços sociais são centralizados, e até costumes culturais e alimentares, fortemente enraizados, são esquecidos ou proibidos porque, simplesmente, não se coadunam com os gostos e hábitos das anafadas sociedades anglo-saxónicas. Tudo isto são incentivos ao abandono das zonas rurais e à superconcentração urbana.
Quero crer, porém, que as zonas rurais do interior, onde ainda resta terra limpa e água não poluída, serão um crescente atractivo e que, numa só geração, irão beneficiar de uma importante recuperação demográfica. Este movimento para o interior, se hoje é ainda incipiente, muitas vezes apenas alimentado pelo turismo ou por um certo romantismo de regresso à natureza, vai com certeza transformar-se num percurso vital de populações, sobretudo jovens, que procuram sobreviver. A água e a terra, como bens cada vez mais preciosos, a própria sociabilidade solidária, continuam a ser indispensáveis para a alimentação do corpo e saúde mental do ser humano, que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não é muito diferente do barbudo pré-histórico.
Cláudio Torres, “O Alentejo Agrícola – um pouco de história”

quarta-feira, abril 30, 2014

A voz da floresta africana



Quando alguém entra numa floresta africana caminhando entre a vegetação, parece ser cercado por um silêncio misterioso mas, se tiver paciência de sentar-se sobre um tronco a descansar e a escutar, então a voz da floresta far-lhe-á ouvir a sua voz, as suas harmonias e as suas mensagens através da boca dos animais, das aves e dos antepassados.
Pe. Salvatore Cammilleri, “A Identidade Cultural do Povo Balanta”

domingo, março 09, 2014

Sobre a literatura Maria-vai-com-as-outras...



Arquei com o papel em branco como lavrador com a jeira de terra que tem de vessar, gradar, atafolhar, fazer produtiva mercê do sementio, e retrocedi aos caos, primeira fase do meu artigo como do mundo organizado. Penei, suei, rangi os dentes, mas fui avançando. A certa altura, depois de uma passagem laboriosa, de pena suspensa ao alto a considerar com um ar miserando a minha inópia mental, senti a cadela da fome a derriçar-me nas entranhas. Era a primeira vez que dava sinal, mas dali em diante não me consentiu mais tréguas. Embora, naquele dia, trabalhando por várias torturas, pude avistar a cumeada alta e agreste do ofício de escritor! Nunca passará da cepa torta o profissional que tome as palavras pelo seu valor bursátil, isto é, pela sua significação léxica. As palavras são dotadas de tantas qualidades quantas as intrínsecas ao desfrute dos nossos cinco sentidos. Possuem cor, timbre, um timbre diferente da sua prosódia, aroma e certamente densidade. O verdadeiro escritor, quando trabalha sobre o papel branco, procede ao seu emprego em correspondência com estes tópicos. Simultaneamente, trata-as como notas musicais para que não desafinem; como elementos fazendo parte duma escala cromática, para que uma página não seja uma laude de Outono, mortiça e gregoriana. Se descrever a neve, que as palavras voem e revoem no ar, iriadas como as flores da macieira, e se uma sécia ou um papo-seco perfumados, que não seja preciso falar no ylang-ylang para lhe aspirar a droga.
Entre as palavras há simpatias e repulsões instintivas como em todos os seres vivos. L’épithète doit être la maîtresse du substantif, jamais sa femme légitime, escrevia Alphonse Daudet. Cuidado com o relacionamento de uns termos com outros. De facto, têm a sua sensibilidade e cada qual uma política. O pior inimigo da palavra escrita é o lugar-comum, o possidónio, o refervido, resultantes do hábito, da vicieira de falar, do Maria-vai-com-as-outras. Dispô-la num tauxiado imprevisto mas lógico, com ressonância determinada e o seu mundo à espalda, eis o problema. Quanto a ideias, temos conversado. O homem é uma máquina de pensamento, mas a secreção mental sob o ponto de vista literário é tanto melhor quanto menos se pareça com a do seu semelhante. O afrondoso, o díspar, o herético não destoam no haver dum escritor original ou simplesmente digno. O oiro é sempre o mais distinto e o mais raro. Já o pensamento de todos e de cada um é moeda de cobre que não dá para coisa nenhuma. Era com dobrões que em Roma se comprava a salvação.
Aquilino Ribeiro, “Lápides Partidas”

terça-feira, março 04, 2014

Esquivas delicadas do corpo...

“Gosto muito de boxe”, disse eu. Então, Iraklis disse-me que o campeão Malangomas de Caria, modesto homem nascido na Ásia Menor nos tempos de Cristo, ficou famoso por não golpear nem receber golpes dos seus adversários devido às suas esquivas delicadas do corpo (lembrei-me de Muhammed Ali, um ícone da minha geração) que enfureciam os seus adversários e os levavam a desistir.
Jacinto Rêgo de Almeida, “Desporto de alta competição”, JL n.º 1129 Janeiro 2014

sábado, fevereiro 15, 2014

A fecundidade que há na escassez

As nossas escolas são feitas para a aprendizagem da palavra, do discurso, do conceito, do saber fazer. E faltam-nos mestres do silêncio, escolas que permitam aprender a não fazer, a pausa, a interrupção, os caminhos silenciosos, a contenção. Ou seja, a aprendizagem da arte do silêncio, a fecundidade que há na escassez, o vigor que existe na sede. Mas toda a nossa sociedade caminha noutro sentido.
José Tolentino Mendonça, em entrevista a Maria Leonor Nunes, JL n.º 1127 Dezembro 2013

domingo, fevereiro 02, 2014

Ao sol



Antes de 1914, as mulheres protegiam-se do sol para não se parecerem com as camponesas; agora fazem-se assar como pêssegos carecas para não se parecerem com as operárias.
Michel Germont, “Uma Morte Perfeita”

sábado, janeiro 18, 2014

Adão & Eva

Toda a moral que a humanidade erigiu durante séculos, com árduo esforço de severos filósofos e clérigos, apenas visa conceder mais sofisticação e verniz à ideia de que a mulher e a sua vagina estão ao serviço do homem. Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável. Ok, talvez a história bíblica não seja bem assim, mas não parece que o homem a tenha entendido de outra maneira.
Rui Ângelo Araújo, “Os Idiotas”

domingo, janeiro 12, 2014

toka-tchur

Não sendo tão quente quanto alguns noutros lugares de Angola, Saurimo é um lugar quente, desertificado, plano, de terra batida, e impõe uma exigência muito grande para ali se ficar. Essa mesma experiência de tudo conspirar existe ali, e o misticismo levado ao extremo. Eles acham que ninguém morre por natureza, que se morre por inveja, por mau-olhado. Mesmo quem vive até aos 102 anos, no momento em que morre não é de velhice, morre porque alguém lhe rogou uma praga, o desprezou, lhe desejou a morte. Parece horrível mas é muito bonito. Eles acham que se conseguirem eliminar as invejas, as cobiças, se conseguirem criar uma sociedade puramente justa, vão conseguir ensinar a natureza a deixar-nos ser eternos, porque deixou de haver razão para que as pessoas morram. Ficaremos velhos e mais velhos porque ninguém nos quererá mal. Esta esperança define-os, é uma forma de acreditar que o mundo vai ser melhor.
Valter Hugo Mãe, em entrevista a Ana Sousa Dias, Ler – Livros & Leitores, n.º 128, Outubro 2013

quinta-feira, janeiro 02, 2014

...enxames de diabinhos largar pelas janelas, arrepelando-se e batendo as nádegas, furibundos



O senhor padre Ambrósio, meu bom mestre, revestido de pluvial a lhama de prata e franja de oiro, com o Tiago do Eido de caldeirinha à mão esquerda, brandindo a hissope por sobre as cabeças submissas, passeou o recinto em cruz. Ao tempo que os seus lábios proferiam a antífona asperges me, o movimento do braço, repartindo a água com a cadência ordenada de um semeador, afugentava dos corpos e das almas os espíritos malignos, os génios do mal e toda a classe de potências do reino das sombras. E era ao cabo daquela prática que os olhos ditosos de D. Ludovina, beata que floria os altares e comungava todas as sextas-feiras, viam enxames de diabinhos largar pelas janelas, arrepelando-se e batendo as nádegas, furibundos.
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”

sábado, dezembro 28, 2013

Islão & Política



Deus quis que o islão fosse uma religião mas os homens quiseram fazer dele uma política. A religião é geral, universal, totalizante. A política é parcial, tribal. Restringir a religião à política é confiná-la a um domínio estreito, a uma colectividade, região e momento preciso. A religião eleva o homem para o que ele pode dar de melhor, a política tende a despertar os instintos mais vis. Fazer política em nome da religião é transformar esta última em guerras intermináveis e em divisões partidárias sem fim, é reduzir os objectivos às posições procuradas e aos ganhos esperados. Por estas razões, a politização do religioso ou a sacralização do político só podem ser factos de espíritos mal intencionados e perversos, a não ser que sejam ignorantes. Uma e outra acabam por fundamentar na religião o oportunismo e a cobiça, por encontrar justificações corânicas para a injustiça, por rodear a delinquência de uma aura de fé, e por fazer passar por um acto de guerra santa o sangue injustamente derramado”.
Muhhamad Said al-Ashmawy, “L’Islamisme contre l’Islam”

quarta-feira, agosto 28, 2013

... o livreiro publica a leitura


A escrita, o livro, a leitura: um mundo! Vasto e complexo mundo! Quem encontrarei disponível para me acompanhar num breve olhar sobre ele?
Mundo habitado. O olhar encontra imediatamente os escritores e os leitores. Depois, entre a escrita e o livro, está o editor com o seu trabalho emérito. Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro «publica» a leitura.
Resendes Ventura, “Papel A Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores”

terça-feira, junho 25, 2013

Carteiristas UE


Não há, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Há hoje um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um acordo tácito, permitem que cada um por seu turno se adiante – e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto do seu cerrado. (...) A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas: Bewareofpick-pokets! (Cautela com os salteadores!)
Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra (1905)

quinta-feira, maio 30, 2013

Amanhar, sulfatar, camear, desbagoar, cavar...

A Primavera não concedia tréguas. Era preciso amanhar a terra, sulfatar, camear, desbagoar e cavar à volta de cada cepa a fossa que reteria a água das últimas chuvadas; podia não cair nem mais uma gota de água até Setembro.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”

quinta-feira, maio 16, 2013

Cabral sabia...




Cabral sabia. E insistiu, previu, preveniu: «libertação nacional, luta contra o colonialismo, construção da paz e progresso, independência – tudo isso são coisas vazias e sem significado para o povo se não se traduzem por uma real melhoria das condições de vida.» (“Destruir a economia do inimigo e construir a nossa própria economia”)
António E. Duarte, “A Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa”

domingo, maio 05, 2013

Enfermo


 - Ainda a doença é uma bondade de Deus, Filipe. No nosso ser acordam as pequeninas almas a que não se presta atenção quando se está de boa animalidade. Podia eu alguma vez julgar que até no voo das gaivotas está desenhado o hieróglifo da Divina Graça!? Ao enfermo, porque não tem que fazer, sobra-lhe tempo para dar volta à casa. À casa interior, bem entendido. Que coisas, mal arrumadas umas, imprevistas outras, que ocas e teias de aranha pelas paredes, se não descobrem!? O homem sadio é o que menos se conhece, pois nunca se deu ao trabalho de olhar para dentro de si. O nosso seio, irmão, é uma cisterna lôbrega e só depois de se acostumar a vista à penumbra, se arregalarem bem os olhos, é que se consegue enxergar alguma coisa. O que eu fui encontrar nos meus subterrâneos.
Aquilino Ribeiro, “Humildade Gloriosa”

domingo, abril 28, 2013

Douro sublimado


S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977 – O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».
Miguel Torga, "Diário XII"

sexta-feira, abril 19, 2013

A intenção


Àparte outras coisas mais simpáticas, o casamento é a transformação de um sentimento privado numa obrigação pública. Este ou esta amar aquela ou aquele por todo o sempre com a exclusão de todos os outros e de todas as outras. Quem alguma vez tenha amado sabe perfeitamente que é isso que apetece, que o amor é eterno e único durante algum tempo. E depois logo se vê. Mas essa é a melhor justificação que pode haver para o casamento. A intenção.
Hélder Macedo, “Solteiros e casados”, “JL” n.º 1106

quinta-feira, março 07, 2013

Língua imperial

Só as linguas dos povos, que criam imperio, teem direito ao futuro, e, portanto, ao presente nacional. Nós portuguezes, somos um povo pequeno, mas somos um povo imperial, cuja lingua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não simplesmente a vivemos
Fernando Pessoa, “Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro”

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ontem e hoje


Sustado no meio do seu desenvolvimento, Portugal nunca pôde na administração pública compensar a receita com a despesa, nem economicamente estabelecer o equilíbrio entre a produção e o consumo, de forma a tornar-se um organismo, satisfazendo-se todas as exigências da vida social. Por isso, sucedem-se amiúde as catástrofes que a população expia em silêncio; por isso, os melhores tempos são sempre duma prosperidade aparente, porque dependem de condições fortuitas, fora da sua acção.
Alberto Sampaio, “Ontem e Hoje”, 1892

domingo, fevereiro 10, 2013

Homens superiores!


Eu compreendo o pessimismo de certos homens superiores e o seu desdém pela opinião das maiorias. Compreendo a misantropia de certas criaturas dotadas de superioridade intelectual ou moral. (...) As maiorias são a mediocridade, o tipo médio de uma dada época. O homem superior sendo o esboço, o embrião, a síntese individual, de uma época futura, não pode furtar-se de quando em quando pelo menos, a um sentimento de desprezo pelos homens, pela massa comum da humanidade, pelas maiorias em suma. A razão das maiorias é uma força conservadora, a razão dos homens superiores é uma força criadora. (...)
O direito dos homens superiores, das minorias criadoras, inteligentes e cultas, é proclamar a verdade. O direito das maiorias é discuti-la e valorizá-la pela resistência. (...)
No futuro triunfam sempre as minorias; a minoria progressiva nas sociedades que avançam e vivem, a minoria regressiva nas sociedades que recuam e morrem.
Manuel Laranjeira, «Os Homens Superiores na Selecção Social», A Águia (1.X.1910)

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Rimando


Lá vai o rato
- que pelitrapo! –
a fugir ao gato
pelo meio do mato,
dizendo gaiato:
- Ó mentecapto,
desta bem escapo!
Mas o gato,
nada abstracto,
fino velhaco,
não dá cavaco.
Sem espalhafato
arranja um saco,
feito de trapo,
e um saca-trapo.
No mesmo acto
encontra o sapo,
que ía prò Buçaco
e diz imediato:
- Ò meu beato,
pega-me do saco.
Não sejas pato!
Olha que te mato,
dou com o taco
ou com o sapato,
esfolo, escavaco,
faço num farrapo.
Pega-me no saco,
ganhas um pataco,
comes um naco...
Vai o sapo,
pessoa de tacto
e de recato,
em seu monacato,
a evitar pugilato,
pegou no saco.
E o gato,
barbato,
com o saca-trapo,
rapo que rapo,
tirou o rato
do buraco,
caverna do Caco.
Depois, jenipapo,
o nosso gato,
sem se importar do sapo
todo timorato,
nada Viriato,
com horror do facto,
dispensando prato,
sem guardanapo,
nem aparato,
contente e guapo
mais que o Fortunato
debaixo do cacto,
- corpo di Bacco! –
meteu-o no papo.
Aquilino Ribeiro, “Cinco Réis de Gente”

sexta-feira, janeiro 25, 2013

Sobre o teatro, segundo Joaquim Benite


A raiva interiorizada pode ser muito mais violenta do que a “gritaria”. Se um ator gritar na direção de um espetador, este é afetado emocionalmente por um ruído: não é a sua consciência crítica que está a ser abordada. (...)
O gesto do ator deve resultar de um movimento interior dele mesmo, com um significado, senão redunda no esbracejar, que já Hamlet criticava nos atores: “Por que é que agridem o ar? Ele fez-vos algum mal?”
Rodrigo Francisco, “Notas para uma encenação” – a propósito de Joaquim Benite, JL n.º 1101

sábado, dezembro 22, 2012

500 Torres Eiffel por dia


Todos os anos são consumidas dois mil milhões de toneladas de metal, sobretudo ferro (1,7 mil milhões de toneladas). O equivalente a 200 mil Torres Eiffel por ano! Ou seja, mais de 500 por dia. É como se cada francês consumisse 70 kg de metal por dia!
Agnès Rousseaux, sítio Bastamag

sábado, dezembro 15, 2012

Roupa para lavar


Como a tarde começava a refrescar, ela pôs-se a desdobrar a roupa que estava empilhada em camadas alternadas com cinzas e camas de folhas cozidas, que ela retirava com uma colher de pau.
- São precisas cinzas bem peneiradas, muito finas. Nada de carvão, claro: sarmentos, cascas e caruma de pinheiro. Para lavar. As ervas são o loureiro, o funcho, a hortelã verde e o limão cortado, que às vezes deixa umas marcas amarelas, mas não há nada melhor para desinfectar. Agora vou estender tudo isto na relva, por detrás das cameleiras. Hoje é noite de lua cheia que, para tirar as nódoas, é melhor do que o sol.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”

quinta-feira, dezembro 06, 2012

A palavra e eu, apaixonadamente


Era minha amiga, íntima paca. Eu fazia o que queria com ela, pelo simples fato que deixava ela fazer o que queria comigo. Foi vindo e indo, a coisa. Um dia percebemos que estávamos apaixonados, a palavra e eu. Que eu podia procriar nela: e ela deixava. Era uma arma de fazer coisas quase indizíveis. Se chamava, acho, precisão. Juntos, ela e eu, nos colocamos a serviço das coisas tão essenciais, que nos doíam. Pelo supremo orgulho de ninguém nos entender e à nossa comunhão. E aí nos sentámos e escrevemos, com precisão científica, vendo como queríamos, como ía o mundo, no exato ponto ótico em que vivíamos...
Millôr Fernandes, “Flávia, cabeça, tronco e membros”

quarta-feira, dezembro 05, 2012

Tudo são homens


Vila Nova, 18 de Março de 1936 – «Cavam de sol a sol, comem um caldo, mas são felizes. Não têm preocupações...»
Ouço isto na cidade e meto-me no comboio, indignado. Que estupidez! Como se o problema da quadratura do círculo fosse maior do que o problema de saber se chove ou não chove no dia sementeira. Que vale um boi, no café? Em termos de pura dor – nada. Pois digo que nunca vi ninguém sofrer tanto como o meu vizinho a quem morreu um esta noite.
Sei a resposta: que quem sofre por uma ideia bebe, digamos, o sofrimento na sua forma mais pura.
Que me importa a mim! Tudo são homens. E ao cabo, ao cabo, tanto pesa uma arroba de terra, como uma arroba de filosofia.
Miguel Torga, “Diário I”

domingo, novembro 25, 2012

O português é um íncola degenerado.


«Carece de estrutura. Que é preciso para que o português tenha vida plasticamente sua e a viva com a indispensável autonomia e carácter? Antes de ir mais longe convém examinar porque é que o homem que para aí se vê não esteva à altura de se talhar um habitat próprio, digno de europeu, em território onde a existência, graças ao clima por via de regra benigno, em despeito das qualidades medíocres do solo, poderá ser fácil e fecunda. Se chamarmos a depor a história, a etnografia, a demografia e compulsarmos as estatísticas, chegaremos à conclusão que o português é um íncola em estado de esgotamento. Melhor: é um íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe?» (...)
«O português é um íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe? As causas foram várias e fazer a sua etiologia seria tarefa laboriosa e demorada. Assentemos, desde já, nesta facto incontroverso, que não tem anos, mas séculos, e não precisa de demonstração: a maioria dos portugueses tem fome. Não se melindrem os ouvidos de Vossências com o juízo calamitoso e pronunciem acentuando bem as sílabas, que soltam por cima do charco um grito de alarme: a maioria dos portugueses tem fome! O operário urbano não ganha com que se alimentar suficientemente e alimentar a prole, e o mesmo sucede ao cavador, ao pequeno proprietário, se anda em dia com o Estado e o ricouço, e ao mediocrata da classe liberal – quatro grupos estes que representam a maioria da nação. Portanto, primeiro que tudo, há que matar a fome do habitante, regenerando a planta humana raquítica, enfezada, de mau semental e mau fruto. O problema que consiste torná-lo animal civilizado, mercê de sabenças, serviços públicos grátis e tudo o mais que constitui o crisol dos Estados, é secundário. A tudo prima ter de comer à farta e moradia higiénica e saudável. Para isso temos de expropriar os grandes meios de produção, dividir a terra arável para quem seja capaz de granjeá-la pelo seu braço e cultivar manu militari, se tanto for preciso, a terra baldia. Está provado que não há solo bom nem solo mau. Há solo adaptado ou inadaptado à cultura. Por outros termos, a terra em si não conta; o que conta é o húmus, e esse depende exclusivamente da preparação química a que é sujeito. A terra não é mais do que o meio em que estão depositados os princípios de que se nutre a planta, como o mar é fiel comissário, digamos, do plâncton de que se alimenta a fauna marinha.» (...)
«Com resolver o problema da terra, repartindo esta e aproveitando aquela de modo mais eficaz, teremos tocado noutro, não menos fundamental: o problema biológico da raça. A aldeia é a célula do agregado social. Aí se renova e tempera o capital humano. Toda a obra de regeneração tem de começar por ali. Ora a célula lusitana, além de pobre, gasta, enfermiça, é de natureza compósita; compósita de godo, de romano, de berbere, de cafre, que sei eu? Tem o defeito dos híbridos: falta de carácter. O que por aí ficou é o rebotalho. O rebotalho de muitas raças escumadas pela guerra. O invasor chegava e tratava de exterminar: primeiro quem lhe resistia; depois quem o contrariava em sua vontade discricionária e lhe disputava a fêmea. Para que o intruso gozasse da conquista, havia que proceder à eliminação do mais nobre, do mais forte, do mais varonil. Deste modo ninguém lhe contestaria a posse da terra, da casa e da mulher, em geral as três ambições do homem que fazia a guerra. Assim deve ter sucedido com a colonização romana, depois com a invasão dos bárbaros do Norte e não menos com a ocupação árabe. Destas três vagas, não falando de outras mais ou menos ante-históricas, subsistiu o que não teve ânimo para renhir ou emigrar, o débil e o tíbio, numa palavra. A selecção faz-se às avessas: perdurou o reles. Imagine-se agora que espécie de capital humano ficou desta filtragem malfazeja? O saloio que por aí se vê, insusceptível de progresso, inimigo da árvore, preguiçoso, sem ideal, sem beleza, é o exemplo eloquente. Compreende-se que a faixa de terra lusitana, delimitada a todo o longo pelo mar, fosse como o paredão onde vieram esbarrar e quebrar-se as hordas migratórias, inflectindo para a África a parte vigorosa e aventureira, agarrando-se ao chão o contingente de cansados, doentes, combalidos, que devia ser o mais numeroso. Da população autóctone, rarefacta em menos de doze séculos, no sentido do pior, uma três ou quatro vezes cruzada com os dejectos humanos doutras tantas invasões, saiu o português, que teve ainda a infelicidade de ser joeirado do melhor pela aventura dos descobrimentos e das conquistas do século XVI. Não nos iludamos nem tenhamos vergonha de o proclamar, pois os sucessos da nação se sobrepõem à veleidade do indivíduo: somos uma espécie compósita, heteróclita, ainda não decantada no que muitas raças tinham de pior, miuçalha, em suma.» (...)
«É preciso melhorar as condições, quer físicas quer morais, da existência do camponês. O camponês, além do resto, é o reprodutor por excelência. Como pode a raça ter saúde e beleza se estão viciadas as fontes da vida? A aldeia portuguesa é uma pocilga e os moradores chusma heterogénea de loucos, aleijados, enfermos, em decrescimento o quociente dos fortes e bem conformados. Não há localidade, por mais pequena que seja, que não tenha o seu jogral, que o é por direito de mentecapto, os seus estropiados e os seus mendigos. Estes têm a liberdade de cruzar-se a seu bel-prazer. Não é raro que um leproso case com mulher sã; não é menos frequente que um nascituro aleijado, mas o que se chama aleijado por defeito congénito de pai ou mãe, se siga outro nascituro nas mesmas condições, e, quando tudo aconselhava que se parasse a obra nefanda de atirar ao mundo com lázaros, a veia, fecunda posto que corrompida, continue a produzir, e sejam vários os monstros saídos do contubérnio derrancado. Há que instaurar com foros de lei coerciva e reguladora o eugenismo se se quer salvar a raça ou variedade peninsular que se convencionou chamar de lusitana, começando desde já a depurá-la, proibindo os casamentos consanguíneos, os casamentos entre indivíduos com tara ou tendência mórbida, indo até à esterilização. Em paládio dos miseráveis arvorou-se a Igreja desde sempre. É a sua grei por excelência. A miséria humana é-lhe tão sensível como o adubo às rosas. É o primeiro embaraço que se há-de encontrar no caminho da renovação que preconizamos. Além disso tudo, há que formar o cérebro do camponês de modo a que tenha dignidade humana; que se esqueça de que foi escravo; que tenha gosto em viver; que odeia a morte e que a morte lhe não seja refrigério. Tenho nos ouvidos a súplica da aldeã que morava à porta da minha casa paterna. Sempre que havia óbitos na povoação ou arredores, rompia nesta choradeira: Porque não se lembra a morte de mim? Para que o camponês seja gente, temos ainda que libertá-lo das garras do Fisco e da burocracia da vila que é a sua sanguessuga danada e, como o agro português é pobre, dar-lhe aquilo que seria barato, que constituiria a nossa alimentação abundante e sadia se houvesse método, consciência, visão económica: peixe. Os mares que banham as costas portuguesas estão a abarrotar de peixe. Porque não o pescam? Entre muitas razões por incúria, repugnância em explorar o que, tendo embora valor, não acarreta lucros explosivos, espírito de rapacidade de certos indivíduos ou grupos financeiros. Há portanto que a imensa ucharia. À falta de melhor ponha-se a Marinha de Guerra, a nossa briosa Armada, a pescar a sardinha e o carapau de modo a que o faminto do Saojo, do Jarmelo, da Gralheira tire o ventre de misérias.» (...)
«Aqui há tanto de doutrina fisiocrática como das leis de Licurgo ou dos preceitos do Deuteronómio. E não há menos do padre-nosso: o pão de cada dia nos dai hoje... Eu quero a terra explorada cientificamente a bem da comunidade. O português, mutatis mutantis, cultiva a terra como se fazia nos tempos do rei Vamba. Quanto ao mar, que ainda não foi dividido em courelas, belgas, herdades como o solo, e grande deve ter sido a pena do irmão burguês, quero que se torne o manancial da fartura dum povo esfomeado, que seja dalgum modo o que foi para os israelitas o solo pingue da Palestina, que transformou esses vagabundos do deserto, só pele, osso e cobiça, em habitantes sedentários, satisfeitos com a vida, criando arte, constituindo uma personalidade. É muito pedir? Então o oceano não há-de dar mais que duas sardinhas, uma que vai podre para o estrangeiro nas latas de conserva, outra que chega corchada, ardida, ou amarela da salmoira, à aldeia das serras? A seara portuguesa não há-de produzir mais que dez sementes e no pomar só hão-de amadurar pomos bichosos? A minha linguagem indignada, estou na ver, presta-se ao riso, mas nem por isso deixa de me assistir uma inexorável justiça. reformemos, reformemos, reformemos. Reformemos antes de mais nada o português físico, atacando o mal originário. É um triste. Reformemos, depois, o homem colono, ensinando-lhe a cultivar a terra e dando-lha. Reformemos ainda o homem social, ensinando-o a viver. Meteram-no mesma camisa do bicho que nasce dos Pirenéus para lá. Desde a escola tem o calcorrear do francês: o mesmo ensino, os mesmos processos, a mesma norma; depois, os mesmos deveres para com o Estado, o mesmo serviço militar, as mesmas leis de família, os mesmos lugares-comuns obrigacionais para com a sociedade, a pátria, a Igreja. Acaso o cérebro do português requer semelhante decalque? Não, três vezes não. O português, se descermos para o vulgo, é essencialmente mecanista. Não lhe peçam trabalhos de reflexão ou que exijam uma grande retentiva do espírito. Mas prima em tudo o que seja manual e obra de confecção. Como operário é um excelente ensamblador, admirável escultor de talha, pedreiro, operário de manufactura. Em contraposição é avesso a tudo que implique faculdade criadora. A educação do português tem de ser orientada no sentido do seu génio. Quanto ao espiritual de que deva impregnar-se a sua formação em harmonia com a índole, é de recomendar a reserva mais circunspecta. Em verdade, ficou no território a enxurrada de muitas raças, as quais professam religiões diferentes em seu credo e no conceito que tinham do mundo e seus fenómenos. Ficou uma vasa mística, viveiro prodigioso de rãs caoxando ao céu. Que havia a esperar de consciências religiosas mestiças se não inaptitude para o mistério e a contemplação, e daí incapacidade da verdadeira fé? Em algumas províncias e regiões o culto reduz-se a práticas externas em que se sentem enxertias estranhas, tais as províncias do Sul e o hinterland saloio. No Norte, druídico ou perdurantemente panteísta, não se invocam ainda, a par de Santa Bárbara e S. Jerónimo, os santos Deuses Imortais?! As religiões foram sempre um pormenor na vida do português, proselitista por conveniência comercial e política, mas sem entranhado alor da crença e abnegação do espírito. Que obras de idealidade verdadeiramente colectiva oferece a arte da nossa terra? Batalha e Jerónimos são obras do poder real gizadas por estrangeiros. Do povo são as capelinhas pelos montes, simples e ingénuas como larários a Adónis. As catedrais foram edificadas, não raras vezes, com as pedras das mesquitas, para atestar a vitória do cristão, ou erguidas por indústria do prelado ostentoso. Também não se sente na história da nacionalidade e sua projecção no mundo alma construtiva, irradiadora. A religião, sob este aspecto, é o pálio que vem esperar o vizo-rei e a missa que congrega a soldadesca na feitoria ou pagode avassalado. Nada de dentro. Santo António e Santa Isabel rainha são santos de pura exterioridade. S. Gonçalo consagra os antigos mitos fálicos. O português é refractário à adoração no que teve de místico e agora tem de eucarístico. Supor, porque houve o escudo de Cristo nas caravelas, que era visceralmente devoto e que toda a restauração em si, na sua personalidade, tenha de passar pelos Syllabus, errôneo.»
Aquilino Ribeiro, “O Arcanjo Negro”

domingo, novembro 18, 2012

O especialista


O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assumpto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes. [71A-61]
Fernando Pessoa, “Prosa de Álvaro de Campos”

quarta-feira, novembro 14, 2012

Solidaritaet


No seu livro intitulado “Colapso: ascensão e queda das sociedades humanas” (Gradiva, 2008), o biólogo Jared Diamond refere, entre as razões pelas quais as civilizações antigas morreram, a incapacidade das elites e dos governos respetivos para compreenderem o processo de desmoronamento em curso ou, quando tomaram consciência dele, a incapacidade de o evitar, devido a uma atitude de defesa “de curto prazo” dos seus privilégios. Arnold J. Toynbee, ilustre filósofo da História, advertiu: “As civilizações morrem assassinadas, suicidam-se”. Só nos resta desejar que não seja simplesmente a isso que estamos a assistir.
Paul Jorion, Le Monde, 08.10.2012 [Courrier Internacional, n.º 201, Novembro 2012]

quarta-feira, outubro 31, 2012

Obra de muita gente...


se eu me for embora, se eu parar, se eu morrer, ou desaparecer, há gente aqui, neste Partido, que é capaz de andar com ele para a frente. Porque um homem que fez uma obra que só ele é capaz de continuar ainda não fez nada. Uma obra vale, na medida que é obra de muita gente.
Amílcar Cabral, “Nacionalismo e Cultura”

sexta-feira, outubro 26, 2012

ibérico + sefardita + berbere


Na Península Ibérica, em média, os homens apresentam 69,6% de ascendência ibérica («nativa»), 19,8% sefardita e 10,6% berbere. No Norte de Portugal, essas proporções são, respectivamente, de 64,7%, 23,6% e 11,8%; no Sul, de 47,6%, 36,3% e 16,1%
Rui Ramos (Coordenador), Nuno Gonçalo Monteiro, Bernardo Vasconcelos e Sousa, “História de Portugal”

sábado, outubro 13, 2012

Lagarada


meia-noite no lagar.
De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento em que havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam máscula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreno, do sousão, da tinta-carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada tacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia.
Miguel Torga, “Vindima” (1945)

terça-feira, outubro 02, 2012

Azémola!


Azémola de moleiro, com mais manha que o amo, para avançar havia de escolher o piso, ladeando os desníveis do terreno, e porfiando a todo o transe na verdade matemática de que mais segura que a recta é a linha curva.
E se eu tinha descuido em tangê-la, ternamente se ensimesmava em contemplação, detendo-se de orelhas em riste para um campo que verdejasse, ou pondo-se a tosar os jactos de junquilhos, que a mão graciosa do Criador plantara pelos andurriais para os nossos humildes irmãos, segundo a lírica franciscana. Outras vezes, suspendia-se a calcular a operação duma subida, até que eu incentivasse com um irosíssimo: anda, azémola do demo!
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”

quarta-feira, setembro 19, 2012

O gosto de ser livre...


Argel, 14 de Setembro de 1953 – As duas bofetadas que um polícia francês acaba de dar na minha frente a um nativo vagabundo hão-de custar caro à França. Até me pareceu ver o céu claro da Argélia abrir-se ligeiramente, e Maomé tomar nota do caso no seu canhenho de represálias.
Este cartesianismo europeu não se convence de que toda a forma de colonialismo é imoral, seja ela a mais progressiva materialmente e a mais codificada socialmente. De que à universal e tentacular presença civilizadora do cristianismo falta sempre um dos lados do diálogo: a opinião do indígena. Que pensa ele do benefício? Que disse o Inca no Peru, o Asteca no México, o Negro em Angola? Que diz o Árabe, aqui? Interessa-lhe mais a penitência da Cruz, ou a volúpia do Crescente? Prefere ver as formas, ou adivinhá-las? Claramente que nunca passou pela cabeça dos apóstolos fazer a pergunta. Armados até aos dentes e senhores duma técnica manual e mental demoníaca, julgam ocioso fazê-la. Mas todo o submetido responde, mais cedo ou mais tarde, mesmo sem ser interrogado. Embora a séculos da agressão, os Incas estão a responder, e os Astecas também, e os Negros também. E não me parece que o mundo islâmico se cale, túrgido como o vejo, com todas as energias represadas nas dobras do albornoz.
Na voz salmodiada dos velhos muezins, que desce dos minaretes e repercute multiplicada e rejuvenescida nas gargantas adolescentes, no silêncio duma casbá onde a alma forasteira penetra como lâmina em bainha sem fundo, no bulício das feiras que a miséria circunda dum halo de comício, o espírito ocidental suspicaz surpreende a orça incoercível duma religião a que já nada de autêntico temos a opor, e o ódio de uma vontade humana que nunca se concebeu esmagada. Mais do que o poder dos engenhos de repressão, do que as seduções dum progresso que atropela as essências, vale a obstinação dum versículo que se estampa nos olhos, depois de ser carícia nos lábios e friso caligráfico nas mesquitas. E mais ainda do que ele, vale a liberdade. O gosto de ser livre diante do próprio deus.
Miguel Torga, “Diário VII”

sexta-feira, setembro 07, 2012

Sobre a tradução


- O que há de poético na obra de Cervantes – observei, como se estivesse a fazer uma conferência – é quase intransmissível noutra língua. Trata-se, de resto, de um fenómeno literário que abrange qualquer género de grande poesia e de determinado tipo de prosa. Não quer dizer que devemos ignorar Kafka por não saber checo, mas há autores que constroem o clima com a própria língua e existe uma grande desvalorização na passagem para outro idioma. Ler James Joyce sem ser na língua original é perder trinta por cento nas entrelinhas. Ler Rimbaud é como perder qualquer coisa como cinquenta por cento.
Dennis McShade, “Requiem para D. Quixote”

sexta-feira, agosto 31, 2012

Ao escrever...


Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre.
Ruy Belo, “Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto – Transporte no Tempo” (1973)

segunda-feira, agosto 27, 2012

Há 40 anos, Allende...


Estamos a assistir a um conflito frontal entre as grandes empresas transnacionais e os Estados. Estes últimos vêem-se parasitados nas suas decisões essenciais, políticas, militares, económicas, por organizações mundiais que não dependem de nenhum Estado e não respondem pelos seus actos perante nenhum Parlamento nem perante nenhuma instituição que seja garante do interesse colectivo. Numa palavra, é toda a estrutura política do mundo que está a ser minada.
Salvador Allende, no discurso que pronunciou na Assembleia Geral das Nações Unidas em 4 de Dezembro de 1972

quinta-feira, agosto 23, 2012

Como os livros chegam até nós...


De vez em quando, faço um pequeno exercício. Levanto-me do sofá, olho para as estantes da sala e tento lembrar-me do que me levou até um determinado livro, ou do que o trouxe até mim. Há romances enviados pelas editoras; volumes de poesia comprados em livraria independentes (algumas já falidas); literatura estrangeira que chegou um dia pelo correio, embrulhada no cartão da Amazon. Mas o que me levou concretamente a escolher aquela obra, aquele autor? Na maior parte dos casos, a resposta é óbvia. Escolhi-os porque sim. Porque um clássico é um clássico. Porque dos escritores preferidos queremos sempre a obra completa. Porque alguém nos diz à mesa do café: «Tens mesmo de ler isto.» Mas também há livros que não sei de onde vieram, por que raio acabaram cá em casa, no meio dos outros. Alguém mos emprestou? Não faço ideia. Quando dou por eles, têm o ar comprometido dos passageiros clandestinos.
José Mário Silva, “Ler – Livros e Leitores” n.º 114, Junho 2012

domingo, agosto 19, 2012

Mariposo


«Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro de milho e três rasas de feijão, que é o comum para a matença de uma pessoa que tem os dentes todos, e der à tosquia dez ovelhas, que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos, que te venha buscar. Antes, nem num andor.»
Aquilino Ribeiro, “Volfrâmio”

sábado, agosto 11, 2012

Do camponês


Coimbra, 12 de Dezembro de 1949 – Encaixar o insucesso e retomar a rabiça com redobrada energia – eis a grande força e a grande lição do camponês. A vida para ele não é tanto colher, como semear. A lançar à terra energia viva, sonho sem joio, é que a sua humanidade se justifica. O resto é com os elementos, que ora cobrem a seara da bênção dum sol fecundante, ora a percorrem na estúpida fúria da destruição.
Miguel Torga, “Diário V”