«- Tende a bondade
de vos sentar: não haveis de chegar a impacientar-vos. Muito bem, a vossa nuca
inteiramente descansada n’este círculo de metal; essa perna sobre a outra, o
braço estribado na banca; d’este modo podereis conservar-vos immovel por um
terço de minuto, mas immover com a mais perfeita immobilidade. Sem isso
correrieis grande perigo de voa aparecerdes com quatro ou seis olhos, duas ou
tres bocas, um rosto e meio, ou um nariz mais comprido que todo o corpo, é o
que torna extremamente dificeis os retratos das creanças, e dos passaros; e
impossiveis os das dançarinas e dos doidos» António Feliciano de Castilho
(1800-1875)
Paulo Artur Ribeiro
Baptista, “A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos”
Citações... Acontece em leituras deparar com a frase perfeita, ou um pensamento elaborado tal qual o sentimos e gostaríamos de escrever, ou o espanto da descoberta de um conceito com o qual passamos a concordar plenamente, ou de uma ideia marcada pela incongruência do tempo, etc! É disso que se trata este blog. Não irei escrever nada de meu mas irei citar (apropriar-me) o que é de outros e que a outros pertence.
domingo, abril 19, 2015
domingo, março 29, 2015
Otimista
Millôr, você se
considera um otimista?
(Pausa) É uma
pergunta difícil. Olha, eu acho... Eu dou como ilustração da vida o seguinte: o
cara que salta do centésimo andar e ao passar pelo oitavo ele diz: “Até aqui
tudo bem”. A vida é isso...
Millôr Fernandes, “A
Entrevista”
sexta-feira, dezembro 26, 2014
meninos-língua, Brasil
Desde o
Descobrimento, Portugal mandava uma legião de órfãos para o Brasil,
garantindo-lhes a alimentação; em troca, eram mediadores junto de crianças
nativas, «aprendiam a língua indígena e serviam de intérpretes para os jesuítas
e oficiais da coroa». Chamavam-lhes meninos-língua.
Clarisse Fukelman, Colóquio
Letras, número 180, Maio / Agosto 2012
quarta-feira, dezembro 10, 2014
Liberdade essencial
´
Somos livres porque
Deus nos abandonou, e há que viver e construir as nossas vidas a partir dessa
liberdade essencial.
António Ramos Rosa, “Prosas
Seguidas de Diálogos”
domingo, dezembro 07, 2014
Cresci a beijar livros e pão
Cresci a beijar
livros e pão.
Lá em casa, sempre
que alguém derrubava um livro, ou deixava cair um chapati ou uma «fatia», a
palavra que usávamos para um triângulo de pão fermentado com manteiga, o
objecto caído tinha não só de ser apanhado mas também beijado, num mea culpa
pelo desastre e me sinal de respeito. Eu era tão descuidado e mãos-de-manteiga
como qualquer criança e, portanto, nos meus anos de infância, beijei grande
número de fatias e tive também a
minha conta de livros.
Nos lares devotos
da Índia, as pessoas tinham por hábito – e ainda têm – beijar os livros
sagrados. Mas nós beijávamos tudo. Beijávamos dicionários e atlas. Beijávamos
livros da Enid Blyton e banda-desenhada do Super-Homem. Se algum dia tivesse
deixado cair a lista telefónica, provavelmente também a teria beijado.
Tudo isto aconteceu
antes mesmo de ter beijado uma rapariga. Aliás, até seria quase verdade, ou em
todo o caso suficientemente verdadeiro para um escritor de ficção, dizer que,
mal comecei a beijar raparigas, as minhas actividades relativas a pão e livros
perderam alguma da excitação que lhes era própria. Mas uma pessoa nunca esquece
os seus primeiros amores.
Salman Rushdie, “Mas Já
Nada É Sagrado?”, Granta Portugal n.º 2
terça-feira, dezembro 02, 2014
Ver a morte de olhos abertos
Deixei-me guiar
pelo meu instinto criativo. Quis entrar pela morte dentro de olhos bem abertos,
ver tudo. Vivi qualquer coisa semelhante quando estive na Guerra Colonial. Um
dia fomos acudir a uma emboscada e sabíamos que era habitual haver outra emboscada
para a coluna de socorro. Demorámos mais de uma hora a lá chegar e pelo caminho
iniciei uma contagem decrescente interior para a morte. Pensava: a minha
emboscada pode chegar na próxima curva, no outeiro seguinte, ao fundo da
estrada. E questionava-me como é que iria morrer. Foi um exercício penoso.
Lembro-me de ter concluído que podia morrer mas que não queria que os tiros me acertassem
nos olhos. Queria ver a morte de olhos abertos. A emboscada não aconteceu mas a
vontade continua.
João de Melo, em entrevista
a Luís Ricardo Duarte, JL n.º 1150
quinta-feira, agosto 21, 2014
Catolicismo vermelho
Quanto a mim, odeio
e com belo ódios esses povos acalvinados. Lutero é a sombra desse século. O
catolicismo era vermelho; o protestantismo é pior por ser incolor, é neutro e
anda na História vestido de droguete cinzento como uma farroupilha. Suprimiu os
vitrais das igrejas, não é preciso dizer mais nada, e subiu até ao queixo a
blusa das mulheres; isto aboliu os seios das santas e tudo o que punha flores
nos olhos... Os vitrais flamejantes das rainhas com veste de pedrarias, e da
nudez dos arcanjos, era um pouco de céu vivo nas ogivas. O colo nu das mulheres
a sair para fora das blusas era um pouco de amor, e portanto um pouco mais de
paraíso na parda monotonia dos dias.
Jean Lorrain, “O Senhor de
Bougrelon”
quarta-feira, agosto 13, 2014
Quero crer...
Todos pensávamos
até há pouco tempo que o progresso técnico e o avanço da ciência podiam
resolver todos os problemas, podiam ajudar a produção agrícola, iam melhorar a
sua potencialidade proteica e vitamínica, contribuindo de forma decisiva para
resolver o flagelo da fome no mundo. A miséria e os gritantes desníveis sociais
poderiam ser minorados pela inovação tecnológica, pela ciência produzida nos
nossos laboratórios, pela agricultura moderna. E, infelizmente, tudo está a
acontecer precisamente ao contrário.
A quantidade de
produtos tem de facto aumentado, pelo menos aparentemente, mas a qualidade tem
vindo a diminuir, com a exagerada utilização de fertilizantes e todo o género
de bioquímicos que, lenta mas inexoravelmente, vão degradando os alimentos,
provocando e activando enfermidades antes desconhecidas, empobrecendo os solos
e inquinando as águas. Isto sucede no chamado mundo rico, porque nos países
excluídos do progresso moderno a exploração desenfreada das multinacionais
tem-lhes levado a fome e a miséria mais desumanas. É uma situação insustentável
que mesmo nos países abastados, em rápido processo de engorda, pode levar a
profundas convulsões sociais e sobretudo a uma inadiável revolução agrícola.
Seja agricultura verde, seja biológica, algo tem de acontecer em tempo útil,
enquanto o solo arável não tiver sido completamente destruído pelos químicos
poluentes e pela urbanização selvagem. Porque é da terra que temos de continuar
a comer.
A terra, num futuro
mais próximo do que imaginamos, terá de sofrer profunda conversão. Na
recuperação dos sistemas de rega, no plantio de áreas hortícolas, no incentivo
da policultura, na redistribuição da propriedade e, sobretudo, no controlo e na
posse social da terra.
Todo este processo,
imparável a médio termo, vai necessitar outra vez de camponeses, de alguém que
saiba ainda trabalhar os campos. A terra, pela sua raridade cada vez mais
preciosa, tende necessariamente a tornar-se, não só propriedade colectiva,
como, sobretudo, um património cultural, como um bem social a preservar.
A agricultura
capitalista, no seu afã exclusivo de lucro fácil, começa a mostrar a sua
incapacidade de abastecer o seu próprio mercado e sobretudo de controlar a
qualidade. E a qualidade alimentar começa a ser a pedra de toque de uma
sociedade cada vez mais consciente e que neste sector não perdoa a ganância
desenfreada dos agentes comprometidos nas mais graves manipulações químicas ou
genéticas.
E, no entanto,
actualmente todo o sistema de comercialização continua a avaliar os géneros
alimentares pelo seu exclusivo peso-valor. Porém, muito brevemente, será
decisivo o controlo de qualidade, em que serão excluídos os pesticidas,
antibióticos, hormonas e todos os venenos químicos que hoje são incorporados ao
alimentos que consumimos diariamente.
Embora tímida, em
vários pontos da Europa, e também entre nós, em simultâneo com a concentração
em bairros urbanos periféricos dos camponeses do interior rural, é já sensível
uma sensação de clausura, um desejo de fuga da selva urbana em que se
transformaram as antigas cidades onde ainda há poucos anos era sensível e
dominante a escala humana. Os actuai e desproporcionados monstros urbanos têm
vindo a matar a sua própria razão de ser. A antiga cidade, a polis
mediterrânica – Lisboa e tantas outras – têm vindo a assistir à destruição
inexorável da sua cintura agrícola. As suas hortas e pomares, tão celebrados –
de loures, de Frielas, da Amadora – estão agora debaixo de prédios e ruas
asfaltadas, soterradas por lixeiras e esgotos. Os problemas não vêm apenas da
construção, do cimento, e sim do que tudo isso implica, como poluição da terra
e das águas. Dentro de poucos anos, toda essa gente em expansão desordenada não
vai poder aqui sobreviver. As belas cidades antigas, com os cascos históricos
que serviam de pólo aglutinador e de referência cultural, que foram a matriz da
nossa civilização, estão a ser abandonados, num estado deplorável de degradação
arquitectónica e social. Os bairros-dormitório dos arrabaldes, sem alma e sem
qualquer identidade, abrigo privilegiado da marginalidade e da violência,
proliferam como cogumelos, entregues em exclusivo aos interesses da especulação
imobiliária.
Por outro lado, as
zonas rurais do interior estão a ser sistematicamente despojadas dos seus
apoios cívicos e administrativos: as escolas fecham por terem poucos alunos, os
postos de correio desaparecem, os meios de transporte colectivos são
eliminados, os serviços sociais são centralizados, e até costumes culturais e
alimentares, fortemente enraizados, são esquecidos ou proibidos porque,
simplesmente, não se coadunam com os gostos e hábitos das anafadas sociedades
anglo-saxónicas. Tudo isto são incentivos ao abandono das zonas rurais e à
superconcentração urbana.
Quero crer, porém,
que as zonas rurais do interior, onde ainda resta terra limpa e água não
poluída, serão um crescente atractivo e que, numa só geração, irão beneficiar
de uma importante recuperação demográfica. Este movimento para o interior, se
hoje é ainda incipiente, muitas vezes apenas alimentado pelo turismo ou por um
certo romantismo de regresso à natureza, vai com certeza transformar-se num
percurso vital de populações, sobretudo jovens, que procuram sobreviver. A água
e a terra, como bens cada vez mais preciosos, a própria sociabilidade
solidária, continuam a ser indispensáveis para a alimentação do corpo e saúde
mental do ser humano, que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não é
muito diferente do barbudo pré-histórico.
Cláudio Torres, “O Alentejo
Agrícola – um pouco de história”
quinta-feira, junho 19, 2014
quarta-feira, abril 30, 2014
A voz da floresta africana
Quando alguém entra
numa floresta africana caminhando entre a vegetação, parece ser cercado por um
silêncio misterioso mas, se tiver paciência de sentar-se sobre um tronco a
descansar e a escutar, então a voz da floresta far-lhe-á ouvir a sua voz, as
suas harmonias e as suas mensagens através da boca dos animais, das aves e dos
antepassados.
Pe. Salvatore Cammilleri,
“A Identidade Cultural do Povo Balanta”
domingo, março 09, 2014
Sobre a literatura Maria-vai-com-as-outras...
Arquei com o papel
em branco como lavrador com a jeira de terra que tem de vessar, gradar,
atafolhar, fazer produtiva mercê do sementio, e retrocedi aos caos, primeira
fase do meu artigo como do mundo organizado. Penei, suei, rangi os dentes, mas
fui avançando. A certa altura, depois de uma passagem laboriosa, de pena
suspensa ao alto a considerar com um ar miserando a minha inópia mental, senti
a cadela da fome a derriçar-me nas entranhas. Era a primeira vez que dava
sinal, mas dali em diante não me consentiu mais tréguas. Embora, naquele dia,
trabalhando por várias torturas, pude avistar a cumeada alta e agreste do
ofício de escritor! Nunca passará da cepa torta o profissional que tome as
palavras pelo seu valor bursátil, isto é, pela sua significação léxica. As
palavras são dotadas de tantas qualidades quantas as intrínsecas ao desfrute
dos nossos cinco sentidos. Possuem cor, timbre, um timbre diferente da sua
prosódia, aroma e certamente densidade. O verdadeiro escritor, quando trabalha
sobre o papel branco, procede ao seu emprego em correspondência com estes
tópicos. Simultaneamente, trata-as como notas musicais para que não desafinem;
como elementos fazendo parte duma escala cromática, para que uma página não
seja uma laude de Outono, mortiça e gregoriana. Se descrever a neve, que as
palavras voem e revoem no ar, iriadas como as flores da macieira, e se uma
sécia ou um papo-seco perfumados, que não seja preciso falar no ylang-ylang para lhe aspirar a droga.
Entre as palavras
há simpatias e repulsões instintivas como em todos os seres vivos. L’épithète doit être la maîtresse du
substantif, jamais sa femme légitime, escrevia Alphonse Daudet. Cuidado com
o relacionamento de uns termos com outros. De facto, têm a sua sensibilidade e
cada qual uma política. O pior inimigo da palavra escrita é o lugar-comum, o
possidónio, o refervido, resultantes do hábito, da vicieira de falar, do
Maria-vai-com-as-outras. Dispô-la num tauxiado imprevisto mas lógico, com
ressonância determinada e o seu mundo à espalda, eis o problema. Quanto a
ideias, temos conversado. O homem é uma máquina de pensamento, mas a secreção
mental sob o ponto de vista literário é tanto melhor quanto menos se pareça com
a do seu semelhante. O afrondoso, o díspar, o herético não destoam no haver dum
escritor original ou simplesmente digno. O oiro é sempre o mais distinto e o
mais raro. Já o pensamento de todos e de cada um é moeda de cobre que não dá para
coisa nenhuma. Era com dobrões que em Roma se comprava a salvação.
Aquilino Ribeiro, “Lápides
Partidas”
terça-feira, março 04, 2014
Esquivas delicadas do corpo...
“Gosto muito de
boxe”, disse eu. Então, Iraklis disse-me que o campeão Malangomas de Caria,
modesto homem nascido na Ásia Menor nos tempos de Cristo, ficou famoso por não
golpear nem receber golpes dos seus adversários devido às suas esquivas
delicadas do corpo (lembrei-me de Muhammed Ali, um ícone da minha geração) que
enfureciam os seus adversários e os levavam a desistir.
Jacinto Rêgo de Almeida,
“Desporto de alta competição”, JL n.º 1129 Janeiro 2014sábado, fevereiro 15, 2014
A fecundidade que há na escassez
As nossas escolas
são feitas para a aprendizagem da palavra, do discurso, do conceito, do saber
fazer. E faltam-nos mestres do silêncio, escolas que permitam aprender a não
fazer, a pausa, a interrupção, os caminhos silenciosos, a contenção. Ou seja, a
aprendizagem da arte do silêncio, a fecundidade que há na escassez, o vigor que
existe na sede. Mas toda a nossa sociedade caminha noutro sentido.
José Tolentino Mendonça, em
entrevista a Maria Leonor Nunes, JL n.º 1127 Dezembro 2013
domingo, fevereiro 02, 2014
Ao sol
Antes de 1914, as
mulheres protegiam-se do sol para não se parecerem com as camponesas; agora
fazem-se assar como pêssegos carecas para não se parecerem com as operárias.
Michel Germont, “Uma Morte
Perfeita”
sábado, janeiro 18, 2014
Adão & Eva
Toda a moral que a
humanidade erigiu durante séculos, com árduo esforço de severos filósofos e
clérigos, apenas visa conceder mais sofisticação e verniz à ideia de que a
mulher e a sua vagina estão ao serviço do homem. Quando Deus tirou uma costela
de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira
boneca insuflável. Ok, talvez a história bíblica não seja bem assim, mas não
parece que o homem a tenha entendido de outra maneira.
Rui Ângelo Araújo, “Os
Idiotas”
domingo, janeiro 12, 2014
toka-tchur
Não sendo tão
quente quanto alguns noutros lugares de Angola, Saurimo é um lugar quente,
desertificado, plano, de terra batida, e impõe uma exigência muito grande para
ali se ficar. Essa mesma experiência de tudo conspirar existe ali, e o
misticismo levado ao extremo. Eles acham que ninguém morre por natureza, que se
morre por inveja, por mau-olhado. Mesmo quem vive até aos 102 anos, no momento
em que morre não é de velhice, morre porque alguém lhe rogou uma praga, o
desprezou, lhe desejou a morte. Parece horrível mas é muito bonito. Eles acham
que se conseguirem eliminar as invejas, as cobiças, se conseguirem criar uma
sociedade puramente justa, vão conseguir ensinar a natureza a deixar-nos ser
eternos, porque deixou de haver razão para que as pessoas morram. Ficaremos
velhos e mais velhos porque ninguém nos quererá mal. Esta esperança define-os,
é uma forma de acreditar que o mundo vai ser melhor.
Valter Hugo Mãe, em
entrevista a Ana Sousa Dias, Ler – Livros & Leitores, n.º 128, Outubro 2013
quinta-feira, janeiro 02, 2014
...enxames de diabinhos largar pelas janelas, arrepelando-se e batendo as nádegas, furibundos
O senhor padre
Ambrósio, meu bom mestre, revestido de pluvial a lhama de prata e franja de
oiro, com o Tiago do Eido de caldeirinha à mão esquerda, brandindo a hissope
por sobre as cabeças submissas, passeou o recinto em cruz. Ao tempo que os seus
lábios proferiam a antífona asperges me,
o movimento do braço, repartindo a água com a cadência ordenada de um semeador,
afugentava dos corpos e das almas os espíritos malignos, os génios do mal e
toda a classe de potências do reino das sombras. E era ao cabo daquela prática
que os olhos ditosos de D. Ludovina, beata que floria os altares e comungava
todas as sextas-feiras, viam enxames de diabinhos largar pelas janelas,
arrepelando-se e batendo as nádegas, furibundos.
Aquilino Ribeiro, “A Via
Sinuosa”
sábado, dezembro 28, 2013
Islão & Política
Deus quis que o
islão fosse uma religião mas os homens quiseram fazer dele uma política. A
religião é geral, universal, totalizante. A política é parcial, tribal.
Restringir a religião à política é confiná-la a um domínio estreito, a uma
colectividade, região e momento preciso. A religião eleva o homem para o que
ele pode dar de melhor, a política tende a despertar os instintos mais vis.
Fazer política em nome da religião é transformar esta última em guerras
intermináveis e em divisões partidárias sem fim, é reduzir os objectivos às
posições procuradas e aos ganhos esperados. Por estas razões, a politização do
religioso ou a sacralização do político só podem ser factos de espíritos mal
intencionados e perversos, a não ser que sejam ignorantes. Uma e outra acabam
por fundamentar na religião o oportunismo e a cobiça, por encontrar
justificações corânicas para a injustiça, por rodear a delinquência de uma aura
de fé, e por fazer passar por um acto de guerra santa o sangue injustamente
derramado”.
Muhhamad Said
al-Ashmawy, “L’Islamisme contre l’Islam”
quarta-feira, agosto 28, 2013
... o livreiro publica a leitura
A escrita, o livro,
a leitura: um mundo! Vasto e complexo mundo! Quem encontrarei disponível para
me acompanhar num breve olhar sobre ele?
Mundo habitado. O
olhar encontra imediatamente os escritores e os leitores. Depois, entre a
escrita e o livro, está o editor com o seu trabalho emérito. Entre o livro e a
leitura estou eu, o livreiro. O
escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro «publica» a
leitura.
Resendes Ventura, “Papel A
Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores”
terça-feira, junho 25, 2013
Carteiristas UE
Não há, nunca houve
Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Há hoje um grande pinhal
de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro que se odeiam uns aos
outros, tremem uns dos outros, e, por um acordo tácito, permitem que cada um
por seu turno se adiante – e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha
ao canto do seu cerrado. (...) A Europa, como os campos de corridas em
Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas:
Bewareofpick-pokets! (Cautela com os salteadores!)
Eça de Queirós, Cartas de
Inglaterra (1905)
quinta-feira, maio 30, 2013
Amanhar, sulfatar, camear, desbagoar, cavar...
A
Primavera não concedia tréguas. Era preciso amanhar a terra, sulfatar, camear,
desbagoar e cavar à volta de cada cepa a fossa que reteria a água das últimas
chuvadas; podia não cair nem mais uma gota de água até Setembro.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”
Suzanne Chantal, “Ervamoira”
quinta-feira, maio 16, 2013
Cabral sabia...
Cabral sabia. E
insistiu, previu, preveniu: «libertação nacional, luta contra o colonialismo,
construção da paz e progresso, independência – tudo isso são coisas vazias e
sem significado para o povo se não se traduzem por uma real melhoria das
condições de vida.» (“Destruir a economia do inimigo e construir a nossa
própria economia”)
António E. Duarte, “A
Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa”
domingo, maio 05, 2013
Enfermo
- Ainda a doença é uma bondade de Deus, Filipe. No nosso ser acordam as pequeninas almas a que não se presta atenção quando se está de boa animalidade. Podia eu alguma vez julgar que até no voo das gaivotas está desenhado o hieróglifo da Divina Graça!? Ao enfermo, porque não tem que fazer, sobra-lhe tempo para dar volta à casa. À casa interior, bem entendido. Que coisas, mal arrumadas umas, imprevistas outras, que ocas e teias de aranha pelas paredes, se não descobrem!? O homem sadio é o que menos se conhece, pois nunca se deu ao trabalho de olhar para dentro de si. O nosso seio, irmão, é uma cisterna lôbrega e só depois de se acostumar a vista à penumbra, se arregalarem bem os olhos, é que se consegue enxergar alguma coisa. O que eu fui encontrar nos meus subterrâneos.
Aquilino Ribeiro, “Humildade Gloriosa”
domingo, abril 28, 2013
Douro sublimado
S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977 – O Doiro sublimado. O prodígio de uma
paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os
olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens
titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor
pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares
plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e
já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve
a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no
fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza
absoluta».
Miguel Torga, "Diário
XII"
sexta-feira, abril 19, 2013
A intenção
Àparte outras
coisas mais simpáticas, o casamento é a transformação de um sentimento privado
numa obrigação pública. Este ou esta amar aquela ou aquele por todo o sempre
com a exclusão de todos os outros e de todas as outras. Quem alguma vez tenha
amado sabe perfeitamente que é isso que apetece, que o amor é eterno e único
durante algum tempo. E depois logo se vê. Mas essa é a melhor justificação que
pode haver para o casamento. A intenção.
Hélder Macedo, “Solteiros e
casados”, “JL” n.º 1106
quinta-feira, março 07, 2013
Língua imperial
Só as linguas dos
povos, que criam imperio, teem direito ao futuro, e, portanto, ao presente
nacional. Nós portuguezes, somos um povo pequeno, mas somos um povo imperial,
cuja lingua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não
simplesmente a vivemos
Fernando Pessoa, “Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro”
Fernando Pessoa, “Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro”
terça-feira, fevereiro 12, 2013
Ontem e hoje
Sustado no meio do
seu desenvolvimento, Portugal nunca pôde na administração pública compensar a
receita com a despesa, nem economicamente estabelecer o equilíbrio entre a
produção e o consumo, de forma a tornar-se um organismo, satisfazendo-se todas
as exigências da vida social. Por isso, sucedem-se amiúde as catástrofes que a
população expia em silêncio; por isso, os melhores tempos são sempre duma
prosperidade aparente, porque dependem de condições fortuitas, fora da sua
acção.
Alberto Sampaio, “Ontem e
Hoje”, 1892
domingo, fevereiro 10, 2013
Homens superiores!
Eu compreendo o
pessimismo de certos homens superiores e o seu desdém pela opinião das
maiorias. Compreendo a misantropia de certas criaturas dotadas de superioridade
intelectual ou moral. (...) As maiorias são a mediocridade, o tipo médio de uma
dada época. O homem superior sendo o esboço, o embrião, a síntese individual,
de uma época futura, não pode furtar-se de quando em quando pelo menos, a um
sentimento de desprezo pelos homens, pela massa comum da humanidade, pelas
maiorias em suma. A
razão das maiorias é uma força conservadora, a razão dos homens superiores é uma
força criadora. (...)
O direito dos
homens superiores, das minorias criadoras, inteligentes e cultas, é proclamar a
verdade. O direito das maiorias é discuti-la e valorizá-la pela resistência.
(...)
No futuro triunfam
sempre as minorias; a minoria progressiva nas sociedades que avançam e vivem, a
minoria regressiva nas sociedades que recuam e morrem.
Manuel Laranjeira, «Os
Homens Superiores na Selecção Social», A Águia (1.X.1910)
quarta-feira, fevereiro 06, 2013
Rimando
Lá vai o rato
- que pelitrapo! –
a fugir ao gato
pelo meio do mato,
dizendo gaiato:
- Ó mentecapto,
desta bem escapo!
Mas o gato,
nada abstracto,
fino velhaco,
não dá cavaco.
Sem espalhafato
arranja um saco,
feito de trapo,
e um saca-trapo.
No mesmo acto
encontra o sapo,
que ía prò Buçaco
e diz imediato:
- Ò meu beato,
pega-me do saco.
Não sejas pato!
Olha que te mato,
dou com o taco
ou com o sapato,
esfolo, escavaco,
faço num farrapo.
Pega-me no saco,
ganhas um pataco,
comes um naco...
Vai o sapo,
pessoa de tacto
e de recato,
em seu monacato,
a evitar pugilato,
pegou no saco.
E o gato,
barbato,
com o saca-trapo,
rapo que rapo,
tirou o rato
do buraco,
caverna do Caco.
Depois, jenipapo,
o nosso gato,
sem se importar do
sapo
todo timorato,
nada Viriato,
com horror do
facto,
dispensando prato,
sem guardanapo,
nem aparato,
contente e guapo
mais que o
Fortunato
debaixo do cacto,
- corpo di Bacco! –
meteu-o no papo.
Aquilino Ribeiro, “Cinco
Réis de Gente”
sexta-feira, janeiro 25, 2013
Sobre o teatro, segundo Joaquim Benite
A raiva
interiorizada pode ser muito mais violenta do que a “gritaria”. Se um ator
gritar na direção de um espetador, este é afetado emocionalmente por um ruído:
não é a sua consciência crítica que está a ser abordada. (...)
O gesto do ator
deve resultar de um movimento interior dele mesmo, com um significado, senão
redunda no esbracejar, que já Hamlet criticava nos atores: “Por que é que
agridem o ar? Ele fez-vos algum mal?”
Rodrigo Francisco, “Notas
para uma encenação” – a propósito de Joaquim Benite, JL n.º 1101
sábado, dezembro 22, 2012
500 Torres Eiffel por dia
Todos os anos são
consumidas dois mil milhões de toneladas de metal, sobretudo ferro (1,7 mil
milhões de toneladas). O equivalente a 200 mil Torres Eiffel por ano! Ou seja,
mais de 500 por dia. É como se cada francês consumisse 70 kg de metal por dia!
Agnès Rousseaux, sítio
Bastamag
sábado, dezembro 15, 2012
Roupa para lavar
Como a tarde
começava a refrescar, ela pôs-se a desdobrar a roupa que estava empilhada em camadas
alternadas com cinzas e camas de folhas cozidas, que ela retirava com uma
colher de pau.
- São precisas
cinzas bem peneiradas, muito finas. Nada de carvão, claro: sarmentos, cascas e
caruma de pinheiro. Para lavar. As ervas são o loureiro, o funcho, a hortelã
verde e o limão cortado, que às vezes deixa umas marcas amarelas, mas não há
nada melhor para desinfectar. Agora vou estender tudo isto na relva, por detrás
das cameleiras. Hoje é noite de lua cheia que, para tirar as nódoas, é melhor
do que o sol.
Suzanne Chantal,
“Ervamoira”
quinta-feira, dezembro 06, 2012
A palavra e eu, apaixonadamente
Era minha amiga,
íntima paca. Eu fazia o que queria com ela, pelo simples fato que deixava ela
fazer o que queria comigo. Foi vindo e indo, a coisa. Um dia percebemos que
estávamos apaixonados, a palavra e eu. Que eu podia procriar nela: e ela deixava.
Era uma arma de fazer coisas quase indizíveis. Se chamava, acho, precisão.
Juntos, ela e eu, nos colocamos a serviço das coisas tão essenciais, que nos
doíam. Pelo supremo orgulho de ninguém nos entender e à nossa comunhão. E aí
nos sentámos e escrevemos, com precisão científica, vendo como queríamos, como
ía o mundo, no exato ponto ótico em que vivíamos...
Millôr Fernandes, “Flávia,
cabeça, tronco e membros”
quarta-feira, dezembro 05, 2012
Tudo são homens
Vila Nova, 18 de Março de 1936 – «Cavam de sol a sol, comem um caldo, mas
são felizes. Não têm preocupações...»
Ouço isto na cidade
e meto-me no comboio, indignado. Que estupidez! Como se o problema da
quadratura do círculo fosse maior do que o problema de saber se chove ou não
chove no dia sementeira. Que vale um boi, no café? Em termos de pura dor –
nada. Pois digo que nunca vi ninguém sofrer tanto como o meu vizinho a quem
morreu um esta noite.
Sei a resposta: que
quem sofre por uma ideia bebe, digamos, o sofrimento na sua forma mais pura.
Que me importa a mim! Tudo
são homens. E ao cabo, ao cabo, tanto pesa uma arroba de terra, como uma arroba
de filosofia.Miguel Torga, “Diário I”
domingo, novembro 25, 2012
O português é um íncola degenerado.
«Carece de
estrutura. Que é preciso para que o português tenha vida plasticamente sua e a
viva com a indispensável autonomia e carácter? Antes de ir mais longe convém
examinar porque é que o homem que para aí se vê não esteva à altura de se
talhar um habitat próprio, digno de
europeu, em território onde a existência, graças ao clima por via de regra
benigno, em despeito das qualidades medíocres do solo, poderá ser fácil e
fecunda. Se chamarmos a depor a história, a etnografia, a demografia e
compulsarmos as estatísticas, chegaremos à conclusão que o português é um
íncola em estado de esgotamento. Melhor: é um íncola degenerado. Como ocorreu
tal catástrofe?» (...)
«O português é um
íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe? As causas foram várias e fazer
a sua etiologia seria tarefa laboriosa e demorada. Assentemos, desde já, nesta
facto incontroverso, que não tem anos, mas séculos, e não precisa de
demonstração: a maioria dos portugueses tem fome. Não se melindrem os ouvidos
de Vossências com o juízo calamitoso e pronunciem acentuando bem as sílabas,
que soltam por cima do charco um grito de alarme: a maioria dos portugueses tem
fome! O operário urbano não ganha com que se alimentar suficientemente e
alimentar a prole, e o mesmo sucede ao cavador, ao pequeno proprietário, se
anda em dia com o Estado e o ricouço, e ao mediocrata da classe liberal –
quatro grupos estes que representam a maioria da nação. Portanto, primeiro que
tudo, há que matar a fome do habitante, regenerando a planta humana raquítica,
enfezada, de mau semental e mau fruto. O problema que consiste torná-lo animal
civilizado, mercê de sabenças, serviços públicos grátis e tudo o mais que
constitui o crisol dos Estados, é secundário. A tudo prima ter de comer à farta
e moradia higiénica e saudável. Para isso temos de expropriar os grandes meios
de produção, dividir a terra arável para quem seja capaz de granjeá-la pelo seu
braço e cultivar manu militari, se
tanto for preciso, a terra baldia. Está provado que não há solo bom nem solo
mau. Há solo adaptado ou inadaptado à cultura. Por outros termos, a terra em si
não conta; o que conta é o húmus, e esse depende exclusivamente da preparação química
a que é sujeito. A terra não é mais do que o meio em que estão depositados os
princípios de que se nutre a planta, como o mar é fiel comissário, digamos, do
plâncton de que se alimenta a fauna marinha.» (...)
«Com resolver o
problema da terra, repartindo esta e aproveitando aquela de modo mais eficaz,
teremos tocado noutro, não menos fundamental: o problema biológico da raça. A
aldeia é a célula do agregado social. Aí se renova e tempera o capital humano.
Toda a obra de regeneração tem de começar por ali. Ora a célula lusitana, além
de pobre, gasta, enfermiça, é de natureza compósita; compósita de godo, de
romano, de berbere, de cafre, que sei eu? Tem o defeito dos híbridos: falta de
carácter. O que por aí ficou é o rebotalho. O rebotalho de muitas raças
escumadas pela guerra. O invasor chegava e tratava de exterminar: primeiro quem
lhe resistia; depois quem o contrariava em sua vontade discricionária e lhe
disputava a fêmea. Para que o intruso gozasse da conquista, havia que proceder
à eliminação do mais nobre, do mais forte, do mais varonil. Deste modo ninguém
lhe contestaria a posse da terra, da casa e da mulher, em geral as três
ambições do homem que fazia a guerra. Assim deve ter sucedido com a colonização
romana, depois com a invasão dos bárbaros do Norte e não menos com a ocupação
árabe. Destas três vagas, não falando de outras mais ou menos ante-históricas,
subsistiu o que não teve ânimo para renhir ou emigrar, o débil e o tíbio, numa
palavra. A selecção faz-se às avessas: perdurou o reles. Imagine-se agora que
espécie de capital humano ficou desta filtragem malfazeja? O saloio que por aí
se vê, insusceptível de progresso, inimigo da árvore, preguiçoso, sem ideal,
sem beleza, é o exemplo eloquente. Compreende-se que a faixa de terra lusitana,
delimitada a todo o longo pelo mar, fosse como o paredão onde vieram esbarrar e
quebrar-se as hordas migratórias, inflectindo para a África a parte vigorosa e
aventureira, agarrando-se ao chão o contingente de cansados, doentes,
combalidos, que devia ser o mais numeroso. Da população autóctone, rarefacta em
menos de doze séculos, no sentido do pior, uma três ou quatro vezes cruzada com
os dejectos humanos doutras tantas invasões, saiu o português, que teve ainda a
infelicidade de ser joeirado do melhor pela aventura dos descobrimentos e das
conquistas do século XVI. Não nos iludamos nem tenhamos vergonha de o
proclamar, pois os sucessos da nação se sobrepõem à veleidade do indivíduo:
somos uma espécie compósita, heteróclita, ainda não decantada no que muitas raças
tinham de pior, miuçalha, em suma.» (...)
«É preciso melhorar
as condições, quer físicas quer morais, da existência do camponês. O camponês,
além do resto, é o reprodutor por excelência. Como pode a raça ter saúde e
beleza se estão viciadas as fontes da vida? A aldeia portuguesa é uma pocilga e
os moradores chusma heterogénea de loucos, aleijados, enfermos, em
decrescimento o quociente dos fortes e bem conformados. Não há localidade, por
mais pequena que seja, que não tenha o seu jogral, que o é por direito de
mentecapto, os seus estropiados e os seus mendigos. Estes têm a liberdade de
cruzar-se a seu bel-prazer. Não é raro que um leproso case com mulher sã; não é
menos frequente que um nascituro aleijado, mas o que se chama aleijado por
defeito congénito de pai ou mãe, se siga outro nascituro nas mesmas condições,
e, quando tudo aconselhava que se parasse a obra nefanda de atirar ao mundo com
lázaros, a veia, fecunda posto que corrompida, continue a produzir, e sejam
vários os monstros saídos do contubérnio derrancado. Há que instaurar com foros
de lei coerciva e reguladora o eugenismo se se quer salvar a raça ou variedade
peninsular que se convencionou chamar de lusitana, começando desde já a depurá-la,
proibindo os casamentos consanguíneos, os casamentos entre indivíduos com tara
ou tendência mórbida, indo até à esterilização. Em paládio dos miseráveis
arvorou-se a Igreja desde sempre. É a sua grei por excelência. A miséria humana
é-lhe tão sensível como o adubo às rosas. É o primeiro embaraço que se há-de
encontrar no caminho da renovação que preconizamos. Além disso tudo, há que
formar o cérebro do camponês de modo a que tenha dignidade humana; que se
esqueça de que foi escravo; que tenha gosto em viver; que odeia a morte e que a
morte lhe não seja refrigério. Tenho nos ouvidos a súplica da aldeã que morava
à porta da minha casa paterna. Sempre que havia óbitos na povoação ou
arredores, rompia nesta choradeira: Porque
não se lembra a morte de mim? Para que o camponês seja gente, temos ainda
que libertá-lo das garras do Fisco e da burocracia da vila que é a sua
sanguessuga danada e, como o agro português é pobre, dar-lhe aquilo que seria
barato, que constituiria a nossa alimentação abundante e sadia se houvesse
método, consciência, visão económica: peixe. Os mares que banham as costas
portuguesas estão a abarrotar de peixe. Porque não o pescam? Entre muitas
razões por incúria, repugnância em explorar o que, tendo embora valor, não
acarreta lucros explosivos, espírito de rapacidade de certos indivíduos ou grupos
financeiros. Há portanto que a imensa ucharia. À falta de melhor ponha-se a
Marinha de Guerra, a nossa briosa Armada, a pescar a sardinha e o carapau de
modo a que o faminto do Saojo, do Jarmelo, da Gralheira tire o ventre de
misérias.» (...)
«Aqui há tanto de
doutrina fisiocrática como das leis de Licurgo ou dos preceitos do
Deuteronómio. E não há menos do padre-nosso: o pão de cada dia nos dai hoje... Eu quero a terra explorada
cientificamente a bem da comunidade. O português, mutatis mutantis, cultiva a terra como se fazia nos tempos do rei
Vamba. Quanto ao mar, que ainda não foi dividido em courelas, belgas, herdades
como o solo, e grande deve ter sido a pena do irmão burguês, quero que se torne
o manancial da fartura dum povo esfomeado, que seja dalgum modo o que foi para
os israelitas o solo pingue da Palestina, que transformou esses vagabundos do
deserto, só pele, osso e cobiça, em habitantes sedentários, satisfeitos com a
vida, criando arte, constituindo uma personalidade. É muito pedir? Então o oceano
não há-de dar mais que duas sardinhas, uma que vai podre para o estrangeiro nas
latas de conserva, outra que chega corchada, ardida, ou amarela da salmoira, à
aldeia das serras? A seara portuguesa não há-de produzir mais que dez sementes
e no pomar só hão-de amadurar pomos bichosos? A minha linguagem indignada,
estou na ver, presta-se ao riso, mas nem por isso deixa de me assistir uma
inexorável justiça. reformemos, reformemos, reformemos. Reformemos antes de
mais nada o português físico, atacando o mal originário. É um triste.
Reformemos, depois, o homem colono, ensinando-lhe a cultivar a terra e
dando-lha. Reformemos ainda o homem social, ensinando-o a viver. Meteram-no
mesma camisa do bicho que nasce dos Pirenéus para lá. Desde a escola tem o calcorrear
do francês: o mesmo ensino, os mesmos processos, a mesma norma; depois, os
mesmos deveres para com o Estado, o mesmo serviço militar, as mesmas leis de
família, os mesmos lugares-comuns obrigacionais para com a sociedade, a pátria,
a Igreja. Acaso o cérebro do português requer semelhante decalque? Não, três
vezes não. O português, se descermos para o vulgo, é essencialmente mecanista.
Não lhe peçam trabalhos de reflexão ou que exijam uma grande retentiva do
espírito. Mas prima em tudo o que seja manual e obra de confecção. Como
operário é um excelente ensamblador, admirável escultor de talha, pedreiro,
operário de manufactura. Em contraposição é avesso a tudo que implique
faculdade criadora. A educação do português tem de ser orientada no sentido do
seu génio. Quanto ao espiritual de que deva impregnar-se a sua formação em
harmonia com a índole, é de recomendar a reserva mais circunspecta. Em verdade,
ficou no território a enxurrada de muitas raças, as quais professam religiões
diferentes em seu credo e no conceito que tinham do mundo e seus fenómenos.
Ficou uma vasa mística, viveiro prodigioso de rãs caoxando ao céu. Que havia a
esperar de consciências religiosas mestiças se não inaptitude para o mistério e
a contemplação, e daí incapacidade da verdadeira fé? Em algumas províncias e
regiões o culto reduz-se a práticas externas em que se sentem enxertias
estranhas, tais as províncias do Sul e o hinterland
saloio. No Norte, druídico ou perdurantemente panteísta, não se invocam ainda,
a par de Santa Bárbara e S. Jerónimo, os santos Deuses Imortais?! As religiões
foram sempre um pormenor na vida do português, proselitista por conveniência
comercial e política, mas sem entranhado alor da crença e abnegação do
espírito. Que obras de idealidade verdadeiramente colectiva oferece a arte da
nossa terra? Batalha e Jerónimos são obras do poder real gizadas por
estrangeiros. Do povo são as capelinhas pelos montes, simples e ingénuas como
larários a Adónis. As catedrais foram edificadas, não raras vezes, com as
pedras das mesquitas, para atestar a vitória do cristão, ou erguidas por
indústria do prelado ostentoso. Também não se sente na história da
nacionalidade e sua projecção no mundo alma construtiva, irradiadora. A
religião, sob este aspecto, é o pálio que vem esperar o vizo-rei e a missa que
congrega a soldadesca na feitoria ou pagode avassalado. Nada de dentro. Santo
António e Santa Isabel rainha são santos de pura exterioridade. S. Gonçalo
consagra os antigos mitos fálicos. O português é refractário à adoração no que
teve de místico e agora tem de eucarístico. Supor, porque houve o escudo de
Cristo nas caravelas, que era visceralmente devoto e que toda a restauração em
si, na sua personalidade, tenha de passar pelos Syllabus, errôneo.»
Aquilino Ribeiro, “O
Arcanjo Negro”
domingo, novembro 18, 2012
O especialista
O especialista é um
homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assumpto. O especialista
é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes.
[71A-61]
Fernando Pessoa, “Prosa de
Álvaro de Campos”
quarta-feira, novembro 14, 2012
Solidaritaet
No seu livro intitulado
“Colapso: ascensão e queda das sociedades humanas” (Gradiva, 2008), o biólogo Jared
Diamond refere, entre as razões pelas quais as civilizações antigas morreram, a
incapacidade das elites e dos governos respetivos para compreenderem o processo
de desmoronamento em curso ou, quando tomaram consciência dele, a incapacidade
de o evitar, devido a uma atitude de defesa “de curto prazo” dos seus
privilégios. Arnold J. Toynbee, ilustre filósofo da História, advertiu: “As
civilizações morrem assassinadas, suicidam-se”. Só nos resta desejar que não
seja simplesmente a isso que estamos a assistir.
Paul Jorion, Le Monde,
08.10.2012 [Courrier Internacional, n.º 201, Novembro 2012]
quarta-feira, outubro 31, 2012
Obra de muita gente...
se eu me for
embora, se eu parar, se eu morrer, ou desaparecer, há gente aqui, neste
Partido, que é capaz de andar com ele para a frente. Porque um homem que fez
uma obra que só ele é capaz de continuar ainda não fez nada. Uma obra vale, na
medida que é obra de muita gente.
Amílcar Cabral,
“Nacionalismo e Cultura”
sexta-feira, outubro 26, 2012
ibérico + sefardita + berbere
Na Península
Ibérica, em média, os homens apresentam 69,6% de ascendência ibérica
(«nativa»), 19,8% sefardita e 10,6% berbere. No Norte de Portugal, essas
proporções são, respectivamente, de 64,7%, 23,6% e 11,8%; no Sul, de 47,6%,
36,3% e 16,1%
Rui Ramos (Coordenador),
Nuno Gonçalo Monteiro, Bernardo Vasconcelos e Sousa, “História de Portugal”
sábado, outubro 13, 2012
Lagarada
meia-noite no
lagar.
De aí a nada,
arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento em que havia
qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos,
amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E
como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam máscula e
carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele
branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se
tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada,
do moreno, do sousão, da tinta-carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação
tirava apenas a cada tacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte.
Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada
sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de
volúpia.
Miguel Torga, “Vindima” (1945)
terça-feira, outubro 02, 2012
Azémola!
Azémola de moleiro,
com mais manha que o amo, para
avançar havia de escolher o piso, ladeando os desníveis do terreno, e porfiando
a todo o transe na verdade matemática de que mais segura que a recta é a linha
curva.
E se eu tinha
descuido em tangê-la, ternamente se ensimesmava em contemplação, detendo-se de
orelhas em riste para um campo que verdejasse, ou pondo-se a tosar os jactos de
junquilhos, que a mão graciosa do Criador plantara pelos andurriais para os
nossos humildes irmãos, segundo a lírica franciscana. Outras vezes,
suspendia-se a calcular a operação duma subida, até que eu incentivasse com um
irosíssimo: anda, azémola do demo!
Aquilino Ribeiro, “A Via
Sinuosa”
quarta-feira, setembro 19, 2012
O gosto de ser livre...
Argel, 14 de Setembro de 1953 – As duas bofetadas que um polícia francês
acaba de dar na minha frente a um nativo vagabundo hão-de custar caro à França.
Até me pareceu ver o céu claro da Argélia abrir-se ligeiramente, e Maomé tomar
nota do caso no seu canhenho de represálias.
Este cartesianismo
europeu não se convence de que toda a forma de colonialismo é imoral, seja ela
a mais progressiva materialmente e a mais codificada socialmente. De que à
universal e tentacular presença civilizadora do cristianismo falta sempre um
dos lados do diálogo: a opinião do indígena. Que pensa ele do benefício? Que
disse o Inca no Peru, o Asteca no México, o Negro em Angola? Que diz o Árabe,
aqui? Interessa-lhe mais a penitência da Cruz, ou a volúpia do Crescente?
Prefere ver as formas, ou adivinhá-las? Claramente que nunca passou pela cabeça
dos apóstolos fazer a pergunta. Armados até aos dentes e senhores duma técnica
manual e mental demoníaca, julgam ocioso fazê-la. Mas todo o submetido
responde, mais cedo ou mais tarde, mesmo sem ser interrogado. Embora a séculos
da agressão, os Incas estão a responder, e os Astecas também, e os Negros
também. E não me parece que o mundo islâmico se cale, túrgido como o vejo, com
todas as energias represadas nas dobras do albornoz.
Na voz salmodiada
dos velhos muezins, que desce dos minaretes e repercute multiplicada e
rejuvenescida nas gargantas adolescentes, no silêncio duma casbá onde a alma
forasteira penetra como lâmina em bainha sem fundo, no bulício das feiras que a
miséria circunda dum halo de comício, o espírito ocidental suspicaz surpreende
a orça incoercível duma religião a que já nada de autêntico temos a opor, e o
ódio de uma vontade humana que nunca se concebeu esmagada. Mais do que o poder
dos engenhos de repressão, do que as seduções dum progresso que atropela as
essências, vale a obstinação dum versículo que se estampa nos olhos, depois de
ser carícia nos lábios e friso caligráfico nas mesquitas. E mais ainda do que
ele, vale a liberdade. O gosto de ser livre diante do próprio deus.
Miguel Torga, “Diário VII”
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