Demasiadas vezes a realidade me decepcionara ao longo da minha vida, porque no momento em que a apreendia a minha imaginação, que era o único orgão para desfrutar da beleza, ela não se lhe podia aplicar, por virtude da lei inevitável segundo a qual não podemos imaginar senão o que está ausente.
Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido / O Tempo Reencontrado”
Citações... Acontece em leituras deparar com a frase perfeita, ou um pensamento elaborado tal qual o sentimos e gostaríamos de escrever, ou o espanto da descoberta de um conceito com o qual passamos a concordar plenamente, ou de uma ideia marcada pela incongruência do tempo, etc! É disso que se trata este blog. Não irei escrever nada de meu mas irei citar (apropriar-me) o que é de outros e que a outros pertence.
terça-feira, novembro 16, 2010
quarta-feira, novembro 10, 2010
Leituras
No capítulo 32 do primeiro tomo do Dom Quixote, o estalajadeiro, que deu uma cama ao herói esgotado para passar a noite, debate com o padre os méritos dos romances de cavalaria, argumentando que é incapaz de ver em que é que tais livros poderiam fazer perder a cabeça a alguém. «Não sei como é que isso pode acontecer», grita o estalajadeiro; «porque, na verdade, não conheço no mundo uma melhor leitura. Tenho dois ou três livros que me devolveram a vida, não só a mim como a muitos outros. No tempo da ceifa, muitos ceifeiros vê-se reunir aqui nos dias de festa, e, entre eles, há sempre alguém que sabe ler e esse pega num dos livros e colocamo-nos mais de trinta à sua volta, e ficamos a escutá-lo com tanto prazer que nos tira mais de mil cabelos brancos.»
Alberto Manguel
segunda-feira, novembro 08, 2010
Peninsularidade
Iberista? Não, não me considero iberista, apesar de ser assim que alguns me definem em Portugal. O iberismo é um anacronismo. Foi uma coisa inventada no século XIX, como um neoimperialismo partilhado por dois países que se sentiam esgotados. O iberismo é o abraço de dois pugilistas que já não se aguentam mais. A mim interessa-me outro sentimento: o da peninsularidade. A peninsularidade é, antes de mais, um projeto cultural: uma atitude que tem como objetivo desfrutar da imensa riqueza das nossas diversidades. Na verdade sou um agente duplo peninsular.
Gabriel Magalhães
quinta-feira, novembro 04, 2010
Black Block
Era aquele tempo em que os senhores dos povos, os descobertos e o encobertos, falavam de uma Grande Aldeia mundial e essa Aldeia se formara e tornava próspera a poder do trabalho de homens e mulheres que viam as suas vidas tornadas somente esforço destinado a lucros de poderes discretos e terríveis e à mercê da mui temerosa Conjuntura Económica, a qual Conjuntura lhes retirava o pão sempre que tal lhe fosse convenhável a ela, sem atentar em que por força a economia há-de existir para servir os povos e não estes a economia, porém os senhores encobertos e descobertos escarneciam deste princípio e de todos os outros. E mais escarneciam dele os encobertos, por estarem mui seguros e quasemente desconhecidos, atrás do seus Conselhos de Administração de suas anónimas sociedades.
João Aguiar, “Diálogo das Compensadas”, 2001
quinta-feira, outubro 21, 2010
Auxiliares da pós-colónia...
O escritor camaronês Celestin Monga sublinha, quanto a ele, a profundidade do mal: «As civilizações africanas perderam muito terreno desde há séculos». A seu ver, o continente «sofre de quatro défices profundos, que mutuamente se reforçam: o défice do amor-próprio e de auto-confiança; o défice de saber e de conhecimento; o défice de liderança e o de comunicação». Propõe por isso, que se façam reformas radicais, em particular dos sistemas educativos, cuja «principal função é fabricar funcionários públicos semi-letrados (...) para os transformar em auxiliares da pós-colónia».
domingo, outubro 17, 2010
Não estranhar a cama
Pinhel, 21 de Outubro de 1955 – Ah, sim, lá conhecer Portugal conheço-o eu! Não houve aceno de monte ou de planície que não respondesse. Subi a todas as serras e calcorreei todos os vales desta pátria. Por isso, quando chegar a hora da grande jogada, tenho um trunfo a meu favor que há-de desconcertar a morte: a íntima certeza de que não vou estranhar a cama, seja qual for o sítio onde me enterrem.
Miguel Torga, “Diário VIII”
sexta-feira, outubro 15, 2010
Poder reflector
(...) os que produzem obras geniais não são os que vivem no meio mais delicado, os que têm a conversa mais brilhante e a cultura mais extensa, mas o que tiveram o poder de, parando de repente de viver para si mesmos, tornar a sua personalidade semelhante a um espelho, de tal maneira que a sua vida, por muito medíocre que, por outro lado, pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, nele se reflicta, já que o génio consiste no poder reflector e não na qualidade intrínseca do espectáculo reflectido.
Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido / A Sombra das Raparigas em Flor”
quarta-feira, outubro 13, 2010
Dos noruegueses...
O norueguês é uma pessoa moderada. A sua relação com Deus é parecida com a sua relação com o Rei. Ele pensa que Deus (e o Rei) está muito bem, na condição que se comporte como deve ser e de que não se meta muito nas suas vidas.
Odd Børretzen, cantor
sexta-feira, outubro 08, 2010
Anjos!
Quando o homem se lançou do último
vidoeiro do paraíso
Deus evitou que se despenhasse.
Trazia ainda no cabelo
já solto pelo vento
reflexos de muito ouro,
mas não sabia que tinha umas asas.
E Deus falou: ficas sem asas
o que não lhe tirou a serventia.
E deitou-lhas
no poço atónito dos olhos.
António Cabral, “Bodas Selvagens”
domingo, outubro 03, 2010
Há livros para...
Os leitores sabem que há livros que lemos depois de termos feito amor e livros para enganar a espera num aeroporto, livros para a mesa do pequeno-almoço e livros para a casa de banho, livros para as noites sem sono em casa e livros para os dias sem sono no hospital. Ninguém, nem mesmo o melhor dos leitores, pode verdadeiramente explicar porque é que alguns livros são bons para certas ocasiões e outros não. De forma indizível, as ocasiões e os livros, tal como os seres humanos, põem-se misteriosamente de acordo uns com os outros ou entram em conflito.
Alberto Manguel
quinta-feira, setembro 30, 2010
Pabia de pabia...
Aqui, nós acreditamos em nós, nos outros e na natureza. Se uma criança chega a correr, vindo de algum lado, e nos diz que viu algo ou um ser estranho algures, não duvidamos, e reunimos as nossas forças para desvendar o mistério. Aqui não há limites para acontecimentos. Qualquer coisa pode acontecer e tudo o que acontece tem a sua razão de ser. É difícil as coisas acontecerem por mero acaso, tudo tem o seu pabia e perdoa-se pabia de pabia. Se morre alguém na tabanca, imediatamente tem de saber o pabia dessa morte, e esse pabia é aceite por todos e todos nele acreditam.
Odete Costa Semedo, “Sónéá histórias e passadas que ouvi contar”
Odete Costa Semedo, “Sónéá histórias e passadas que ouvi contar”
domingo, setembro 26, 2010
edição de autor
por não conseguir ser em nenhum momento um autor convencido, e também certamente porque queria pôr dessa maneira à prova o real interesse dos leitores, usava em todas as edições o mesmo papel baço, o mesmo formato, o mesmo tipo e até o mesmo arranjo gráfico das capas.
Miguel Torga, “A Criação do Mundo - O Sexto Dia”
quinta-feira, setembro 23, 2010
Autor & leitor
Só por um hábito adquirido na linguagem insincera dos prefácios e das dedicatórias é que o escritor diz «o meu leitor». Na realidade, cada leitor é, quando lê, leitor de si próprio. A obra do escritor não passa de uma espécie de instrumento óptico que ele oferece ao leitor a fim de lhe permitir discernir aquilo que, se não fosse aquele livro, ele porventura nunca veria dentro de si mesmo. O reconhecimento em si mesmo que o leitor faz daquilo que o livro diz é a prova da verdade deste e, vice-versa, ao menos em certa medida, a diferença entre os dois textos pode ser muitas vezes imputada, não ao autor, mas ao leitor. Para mais, o livro pode ser demasiado sábio, demasiado obscuro para um eleitor simples e, assim, fornecer-lhe apenas uma lente turva com que não será capaz de ler. Mas outras particularidades (como a inversão) podem levar o leitor a precisar de ler de uma certa maneira para ler bem; o autor não tem porque se ofender, antes, pelo contrário, deve dar a maior liberdade ao leitor dizendo-lhe: «Veja você mesmo se vê melhor com esta lente, ou com essa, ou com aquela.»
Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido / O Tempo Reencontrado”
segunda-feira, setembro 20, 2010
Templo da palavra
o souk, o espaço urbano para o comércio, os ofícios e os lazeres, é o coração das cidades do Sul do Mediterrâneo», onde vão Núbios do Egipto, âmbar de Damasco, curdos de Alepo, berberes de Marraquexe, marcado «pelas experiências lentas do trabalho artesanal e até pelo tempo com tempo para tudo. Este tempo é o dos cafés (...) Jogam dominó, fumam marguilés, passam os olhos por um ou outro jornal (...) Conversam sobre tudo e sobre nada porque o café é o templo da palavra, tal como a mesquita é o da oração»
Miguel Portas, “Périplo” (Maio de 2009)
quinta-feira, setembro 16, 2010
Vinte e três milhares de triliões oitocentos e oitenta e oito milhares de biliões de milhares de milhões!
aquelas medusas microscópicas observadas por Scoresby nos mares da Gronelândia, e cujo número, no espaço de duas milhas quadradas, era, segundo os cálculos deste navegador, superior a vinte e três milhares de triliões oitocentos e oitenta e oito milhares de biliões de milhares de milhões*
[*Como este número foge a toda a apreciação intelectual, o baleeiro inglês, para tornar o resultado do seu cálculo mais compreensível, dizia que para o contar levariam três pessoas dias e noites desde a criação do mundo.]
Júlio Verne, “Aventuras do Capitão Hatteras”
terça-feira, setembro 14, 2010
Testes
«Tu fodeste-a, não foi?»
«Não.»
«Foste há uma quantidade de tempo. Olha, arranhou-te a cara.»
«Já te disse que não aconteceu nada.»
«Despe a camisa. Quero ver as tuas costas!»
«Oh, merda, Lydia.»
«Despe a camisa e a camisa interior.»
Despia-as. Andou à minha volta.
«Que arranhão é este nas tuas costas?»
«Qual arranhão?»
«Há aqui um enorme... é duma unha de mulher.»
«Se ele está aí, foste tu quem o fez...»
«Está bem. Conheço um modo de o descobrir.»
«Como?»
«Vamos para a cama»
«OK!»
Passei no teste com sucesso, mas de seguida pensei: como pode um homem testar a fidelidade de uma mulher? Isto parecia-me injusto.Charles Bukowski, “Mulheres”
quarta-feira, setembro 08, 2010
Paupérrimo
Nasci numa família pobre. Se tivesse de resumir em poucas palavras o que isso significa, diria que é como viver num corpo sem braços diante de uma mesa posta.
Fabio Volo
domingo, agosto 29, 2010
Embriaguez amorosa...
Com o amor dá-se o mesmo com o vinho. Perdoem-me as leitoras o pouco delicado da confortação; mas vêem que ambos eles embriagam. É portanto lícito compará-los Diz-se de certas pessoas – que têm o vinho alegre – de outras que – o têm triste – estúpido – barulhento conforme dá alguns a embriaguez para a hilaridade, a outros para o sentimentalismo, a outros para a modorra ou para brigas. Pois com o amor é o mesmo. Amantes há que celebram os seus amores, e até as suas infelicidades amorosas, sempre em estilo de anacreôntica – esses têm o amor alegre; outros que, quando amam, embora sejam ardentemente correspondidos, suspiram, procuram os bosques solitários, que enchem de lamentos, e as praias desertas, onde carpem com o alcião penas imaginárias – têm estes o amor sombrio; a outros serve-lhes o amor de pretexto para espancarem ou esfaquearem quantas pessoas imaginam que podem ser-lhe rivais ou estorvos, e, nesses acessos de fúria, chegam a espancar e a esfaquear o objecto amado – são os do amor barulhento e intratável; há-os que emudecem e embasbacam diante da mulher dos seus afectos, que em tudo lhe obedecem, que a seguem como o rafeiro segue o dono, e experimentam um prazer indefinível em adormecer-lhe aos pés – pertencem aos do amor impertinente e estúpido. Poderia ir muito longe essa classificação, se fosse aqui o lugar próprio para ela.
Júlio Dinis, “As Pupilas do Senhor Reitor”
terça-feira, agosto 17, 2010
Às alma nas encruzilhadas
Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles que perdemos estão cativas em algum ser inferior, num animal, num vegetal, numa coisa inanimada, efectivamente perdidas para nós até ao dia, que para muitos não chega nunca, em que acontece passarmos juntos da árvore, ou entrar na posse do objecto que é a sua prisão. Então eles estremecem, chamam por nós e, mal as reconhecemos, quebra-se o encanto. Libertadas para nós, venceram a morte e tornam a viver connosco.
Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido / Do Lado de Swann”
Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido / Do Lado de Swann”
quarta-feira, agosto 11, 2010
Não ler!

Atente-se nesta observação de [Luís António de] Verney sobre um poeta seiscentista: «quando vejo um poeta destes, que se serve de expressões que nada significam, ou que compõem de sorte que não o entendam, assento que não quis ser entendido; e, em tal caso, procuro fazer-lhe a vontade e não o leio»
António Cabral, “Morfologia Literária – Noções fundamentais para o estudo da Literatura”
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