Era outro hábito: quando estava doente, mergulhava num romance de Alexandre Dumas pai: possuía as obras completas deste, numa velha edição popular de páginas amarelecidas e gravuras românticas, e bastava o cheiro que emanava desses livros para se recordar de todas as pequenas doenças da sua vida.
Georges Simenon, “Maigret e o Seu Morto”
Citações... Acontece em leituras deparar com a frase perfeita, ou um pensamento elaborado tal qual o sentimos e gostaríamos de escrever, ou o espanto da descoberta de um conceito com o qual passamos a concordar plenamente, ou de uma ideia marcada pela incongruência do tempo, etc! É disso que se trata este blog. Não irei escrever nada de meu mas irei citar (apropriar-me) o que é de outros e que a outros pertence.
terça-feira, setembro 27, 2011
sexta-feira, setembro 23, 2011
O kriol guineense
O crioulo da Guiné teve origem na língua portuguesa falada entre os séculos XV e XVII. Tornado idioma veicular das diversas populações da Guiné-Bissau, nele se misturam e confundem a vida e a memória de uma infinidade de locutores-transmissores, num espaço onde todos põem tudo e onde a escrita, por enquanto, não tem lugar.
Uma língua em gestação persegue a economia. Mas uma língua em liberdade não tem pressa e deixa que o excesso se espraie em todas as direcções, já que a eficácia da comunicação é assegurada por instâncias não linguísticas. Ao lado e antes das palavras, está a plena proximidade que não permite equívocos nem produz ruídos: o calor, a mímica, o contacto físico fazem soçobrar as regras já erigidas noutros lugares. (...)
O conto crioulo é um milagre sempre recomeçado. Miragem dos grandes e dos pequenos, realidade para todos e apesar de tudo, ele transforma o verbo em júbilo pela magia de uma língua mutante, feita de raízes africanas e europeias e de palavras mestiças.
Filho da mistura, o conto crioulo faz viver a palavra e vive da palavra que anima personagens familiares. Sejam eles Caçador, Feiticeiro, Combossa, Pauteiro, Bajuda submissa ou rebelde, estes arquétipos articulam-se segundo esquemas dinâmicos.
Teresa Montenegro e Carlos de Morais, “Uori – stórias de lama e philosophia”, Ku Si Mon editora
sábado, setembro 17, 2011
Génesis do vinho
Segundo o Génesis, Cap. IX, foi Noé o primeiro a plantar a vinha e a embriagar-se com o vinho.
Hernâni Cidade, notas a “Os Lusíadas” de Luís de Camões, 75,6 Canto VII
domingo, setembro 11, 2011
Dos artistas
Buarcos, 13 de Junho de 1943 – Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome orgânica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do espírito. Tisnados de saúde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doença, olho-os também. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes dá razão. Mas de mesma maneira que eles, sem que ninguém lhes peça sardinha, se metem às ondas, também eu, sem que ninguém me peça poesia, me lanço a este mar da criação. Há uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: é a sua consciência de que são tão fundamentais à vida como o pão. Podem acusá-los de servirem esta ou aquela classe. Pura calúnia. É o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo não pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e não as podem ver, a traição não é dela, mas dos olhos, ou de quem os mantém cegos e incultos.
Miguel Torga, “Diário III”
Miguel Torga, “Diário III”
terça-feira, setembro 06, 2011
De Lamego
- Com grande consolo, depois de ver uns países tão raivosos de progressos, vim topar Lamego não só não eivado da noção do tempo mas refractário de todo à febre moderna. Cheguei ao correio, e os funcionários ressonavam, com os carimbos ao lado, sobre os maços da correspondência, trazida a toda a pressa nos comboios rápidos e transatlânticos. Palavra! só depois do meu regresso pude gozar este espectáculo singular de ver à luz do dia a vida a viver!
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”
quarta-feira, agosto 31, 2011
Sobre um país de brandos costumes...
Os pretos em África têm de ser dirigidos e enquadrados por europeus mas são indispensáveis como auxiliares destes
Marcelo Caetano, “Os Nativos na Economia Africana” (1954)
domingo, agosto 21, 2011
Um café!
Certo dia, explodiu numa grande danação contra o neto, que à viva força teimava que ela havia de beber café. «Posso lá com tal bebida!», gritou-lhe o Costa Cardoso. «Uma planta que só nasce em zonas doentias da África e do Brasil, onde se morre de febres medonhas! E o grão? Quantos trabalhos para trazê-lo, ao lombo, sob o fogo do Sol, até à Costa? Quantos trabalhos para embarcá-lo, atravessar as tempestades do oceano, desembarcá-lo, torrá-lo, moê-lo. Pois, após tantas canseiras, tantas, mal mergulham o pó na cafeteira, zás, deitam-no fora! E essa mixórdia deixa a água tão suja e amarga que só com açúcar conseguem bebê-lo! Não! Nunca hei-de tocar-lhe sequer!»
Manuel da Fonseca, “À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café”
Manuel da Fonseca, “À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café”
quarta-feira, agosto 17, 2011
Anagogia!
Instruir é juntar, de fora, alguma coisa ao que já foi dado, como quem reboca parede depois de ser construída e, num refinamento, de estética ou de protecção, passa ainda sobre o reboco seu estuque e sua tinta. Na instrução, considera-se que o menino, ou grande, é parede mal aparelhada e se lhe vai juntando, conforme os recursos, o que for necessário para que se torne mais útil na sua função de parede. Na instrução sou trolha: sei o que quero, de que argamassa disponho ou qual a cal que me convém: estou tranquilo em meu andaime e marco a cada dia a obra feita.
Com a educação, tudo se passa ao contrário: se no instruir sou trolha, no educar, e bem o sabemos já desde o tempo do velho Sócrates, sou eu parteiro. Tenho de ter ciência naturalmente; mas o que tem de esplender cá fora já se encontra lá dentro, e as minhas qualidades principais têm de ser a paciência e o usar de todos os meios que possam fazer dá-lo à luz sem traumatismos nem mutilações. Para o educador, a criança já está interiormente pronta, tal como será o adulto ideal, mas trata-se de a ir colocando em todas as circunstâncias propícias para que se desenvolva, o que significa, como se sabe, que se desembrulhe, se desembarace do que a impede de ser o que é. Quem instrui ataca; quem educa espera. Quem instrui pode fazer o que quer, como um escultor martela estátua; vai o educador pelos caminhos do criador do bicho-da-seda: dá-lhes as folhas certas na altura certa, depois os raminhos secos de encasular, depois os panos da postura, mas a comparação por aqui pára: não mata nunca o bicho no casulo; o que lhe interessa é borboleta voando livre, em sua ruflante brancura; quem instrui apenas mais interessa a seda que o organismo vivo.
Com muita razão se compendiou a ciência do instruir na palavra pedagogia, que significa, na ua etimologia grega, o empurrar de meninos; empurramo-los para o ler, o escrever e o contar, mesmo que o não queiram, já que é a escola obrigatória, até mais obrigatória que a vida, pois até com fome, frio e mau trato se tem de lhe ir à frequência; mais tarde o empurramos para o liceu, se é de boa classe, para os cursos técnicos, se destinado a servir, portanto ao fim de um está a Universidade, ao fim dos outros a oficina, que se nem pensem em juntar, alternando os períodos, por ser ideia, ao que parece, subversiva. Empurra-se o menino, empurra-se o adolescente, empurra-se o adulto: somos todos uns excelentes pedagogos: empurramos.
Mas vai agora surgindo outra atitude, marcada por outra palavra, a de anagogia, ou acto de levar para cima ou de fazer subir; aqui ninguém empurra ninguém: se a perna se mostrou firme e ágil, e só os anormais não a têm assim, vai-se pondo degrau após degrau, até que atinja a maior altura possível, segundo a vocação e as forças que haja em cada um, com um primeiro degrau ao alcance de todos e não apenas dos privilegiados, e sempre um último degrau, pois pouco sabemos dos limites humanos e das fronteiras do mundo. O que temos tido até agora, sob o nome de pedagogia, é de facto, e geralmente violenta, até com o professor batendo e castigando, uma catagogia ou condução para baixo, para muito baixo do que permitiria e sofreria nossa natureza humana; somos instruídos para não crermos em nós, para nos submetermos, para obedecer, não para criar, que foi ao que viemos; venha, pois, a anagogia, o caminho para cima, o mais depressa possível.
Instruir sem educar pode ser a mais perigosa das empresas em que se empenha um homem ou um país, pois que vai pôr instrumentos de vida ou morte nas mãos de quem, se não ignaro por nascimento, ignaro se tornou porque não houve a tal anagogia; toda a vida se transforma em automóvel guiado por inconsciente, coisa que, ao que parece, se multiplica. E aqui temos que nos lançar com todo o nosso esforço: se é fácil abrir escolas ou pode ser fácil mandar à escola, de nada servirá fazê-lo se, ao mesmo tempo, se não fizer educação: a qual, como é simples concluir do que se disse atrás, são condições essenciais a liberdade económica, abrindo o campo, a oficina e a cooperativa, escola em si própria, antes de abrir a sala de aula, a liberdade de informação e de expressão, abolindo tudo o que a possa limitar, mesmo no que mais pareça necessário, já que os prejuízos que vêm da fala franca são sempre menores que os que resultam do silêncio forçado; a liberdade de pensamento, no domínio político, no domínio metafísico, no domínio religiosos, que continuo a ver como o mais importante, mas possível e desejável fora das religiões institucionais tanto como dentro delas; aqui, na liberdade de pensamento, temos a condição fundamental de ser homem: e tão raramente, tão fugazmente, a temos tido na história da Humanidade, que bem conviria ser esse o campo em que, resolvidos os problemas materiais de todos, concentrássemos o nosso sonhar, o nosso querer, o nosso agir.
Agostinho da Silva, «Composição do Brasil», Vida Mundial, n.º 1711, 24 de Março de 1972
segunda-feira, agosto 08, 2011
Dos suíços...
Pensando na calma, na fleuma, no civismo dos Suíços, que por vezes toca as raias da mania, lembro-me agora duma frase da marquesa de Quintanar, que acabava de passar seis meses na Suíça, no sanatório, com a filha doente. De regresso a Madrid, ao descer do avião, explodiu:
- Caramba! Já se pode cuspir no chão!
E tirando da algibeira uns poucos papéis de rebuçados amarrotados, espalhou-os aos quatro ventos, num gesto vingativo que muito a aliviou.
Fernanda de Castro, “Ao Fim da Memória II 1939 – sexta-feira, agosto 05, 2011
Velocidades
Coimbra, 26 de Junho de 1944 – Aflitiva a impaciência que começo a sentir nos comboios. Cada paragem, cada abrandamento de velocidade dão-me cabo dos nervos. Desespero-me por levar sete horas de Coimbra a Lisboa, quando eu sei que já foram precisos dias para percorrer tal trajecto. Mas não há História que me console. Ponho-me a pensar assim: nesse tempo a coisa era com cavalos, e uma solidariedade de suor, um limite muscular que a nossa própria animalidade media, ajudavam a respeitar o ritmo fisiológico do movimento. Rebentar montadas era um recurso extremo, que não se fazia sem dor. A espora que feria a ilharga tingia-se de sangue, mesmo que fosse de oiro. De maneira que o cilício que picava a besta picava o homem. Mas já que o progresso se riu da mula chocalheira e da diligência, então quero a mecânica a mil à hora, a velocidade levada até onde a corda der. Entregou-se o caminho não a cascos caseiros e familiares, mas a eixos de aço. Haja, por conseguinte, um chicote de lume a fazer voar as rodas.
E não será um sentimento idêntico ao meu que gera este delírio da velocidade, esta corrida cada vez mais desesperada do nosso tempo? Quebrou-se a amarra do navio; e os tripulantes, agora, o que querem é um vendaval que os leve o mais depressa possível a qualquer porto ou à morte.Miguel Torga, “Diário III”
terça-feira, agosto 02, 2011
Douro, vulgo d'oiro
o Douro é a paisagem vinhateira mais bela do mundo acima de Bordeus ou de Champagne. a sua grandiosidade é obra do homem de rosto descoberto que removeu xistos e ergueu socalcos a braços. o Douro é essa escadaria monumental de vinhedos plantados em xisto.
José A. Salvador, “Projecto Património” n.º 2 Julho 1995
quinta-feira, julho 28, 2011
Como os grandes comem os pequenos...
A primeira coisa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comerem os grandes, bastara um grande para muitos pequenos, mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
Padre António Vieira, “Sermão de Santo António aos peixes” (1642)
sexta-feira, julho 22, 2011
Sobre a guerra colonial
Dirigiu a mais três camaradas brancos a pergunta sobre as suas origens e percebeu que muitos desses homens da Metrópole, se não mesmo a maioria, eram gente do campo, agricultores que a guerra arrancara de Trás-os-Montes, da Beira Interior ou do Alentejo e atirara para o meio do mato em África.
Realmente!, raciocinou, os olhos a deambularem entre os soldados rudes que jantavam com grunhidos, arrotavam em abundância e limpavam a boca às costas das mãos. Como levar a cabo a missão civilizadora se os próprios civilizadores precisavam de ser civilizados?
José Rodrigues dos Santos, “O Anjo Branco”
segunda-feira, julho 18, 2011
Ao sete mil milionésimo cidadão do mundo...
em 2011, ou o mais tardar no início de 2012, espera-se a chegada do sete mil milionésimo cidadão do mundo. Este cidadão tem sete em dez hipóteses de nascer num país pobre, numa família desfavorecida. Devemos enviar-lhe uma mensagem de boas-vindas ou uma carta a pedir desculpa?
George Minois, Le Poids du Nombre, Éditions Perrin, Paris, 2011
sexta-feira, julho 15, 2011
Três voltas à Terra!
Emil Zapotek (1922-2000) Diz-se que o total dos seus treinos e provas corresponde a três voltas à Terra.
segunda-feira, julho 11, 2011
Luciferinamente...
Coimbra, 5 de Maio de 1946 – (...)
Sou realmente do partido do diabo, como diz Blake de Milton. Comecei por me rebelar contra Deus, descri de todo, e agora estou num politeísmo sortido, ora dependurado nos cornos de Endovélico, ora a dormir nos braços da deusa Nábia, líquidos e frescos. Prego certos pecados, e gosto deles. Pratico-os com toda a minha energia e sinceridade, não por amor das forças do mal, como faria qualquer romântico, mas pela graça do bem que vejo neles. Pecados mortais, pecados veniais, pecados originais... Com franqueza! Além do mais, acho ridículo! O homem só peca contra o homem e contra as suas criações. (...) Sou da terra e sou por ela. Diabo, Santanás, Lúcifer, calham-me, pois, às mil maravilhas. Significam revolta, inferno, lume, enxofre, coisas positiva se vivas. E eu estou vivo. Anjo, fluido, sombra, é que me davam leveza de transfigurado, irrealidade de fantasma, pondo-me em contradição com os livros que escrevo, que são para serem lidos na terra, com palavras, ideias e enredos daqui, que os homens entendam e saboreiem.
Em consciência, sempre cuidei que era exactamente este o caminho construtivo e limpo de um artista, e mantenho-me nessa crença. Não me sinto um destruidor: o que quero é que tudo nasça com a força que as cousas verdadeiras e naturais merecem, e que o ranço velho não estrague o azeite novo. Na dialéctica da vida, por cada alento que vem, há uma morte. Será cruel. Mas isso é com a vida, não é comigo.
Comigo é o risco desta atitude humana, e já não é pouco. Ao fim e ao cabo, talvez que assim a minha alma se não salve, Deus me não queira depois no seu seio. Mas que calor animal (o único calor que eu quero num seio) tem o seio dele? Sim talvez não m queira depois de morto, quando eu já não tiver desejos, paixões, instinto, razão e sentimentos... Há-de ser muito triste, decerto. Mas mais triste seria eu negar-me agora ao aceno saboroso de Vénus, à voz cósmica de Pã, ao calor fecundante de Apolo, a todas as dádivas das amigas divindades terrestres que me solicitam.
Creio que tem havido na nossa terra uma descabida preocupação canónica à ilharga de cada artista. Interessa mais ao zelo nacional averiguar se um poeta morreu sacramentado, do que ler os seus versos. Ninguém quer saber se o caminho de um criador o leva à mora das musas e da beleza; espreita-se da janela, mas é para ver se ele vai à missa. Ora isto é de analfabetos, de pessoas que verdadeiramente não sabem nem querem saber do valor de um poema, do mundo de liberdade e de independência que ele encerra. E uma gente assim não me convém, nem tão-pouco o Deus intolerante que servem. Por isso me vou divertindo com as minhas divindades naturais, luciferinamente, certo que o diabo é ainda uma grande companhia. Foi a ele que Jesus disse que o seu reino não era deste mundo. E o meu, precisamente, é.
Miguel Torga, “Diário III”
sexta-feira, julho 08, 2011
Um dia aparece um livro...
Quando nascemos no campo rodeiam-nos de seguida os ambientes e as coisas mais antigas e essenciais. A terra, o vento, os rios, os pássaros, as árvores, as casas. Ama-se espontaneamente aquilo que os rodeia. Compreende-se, por intuição, os trabalhos misteriosos da terra e do céu. Os dias sucedem às noites. As árvores crescem. Os pássaros nidificam. Os animais procriam.
Um dia aparece um livro. Por puro acaso, ou desleixo, já lhe faltam o título, o nome do autor e as primeiras páginas. É o primeiro livro fora da escola e da catequese. É um livro à solta. Duas ou três crianças juntando esforçadamente as suas letras acabam por devorá-lo. É Verão. As crianças levam o livro para um lugar fresco. Para debaixo dessas ramas de ervilhas que crescem desenfreadamente com as dos feijoeiros pelas estacas, cheias de flores brancas e vermelhas. Jamais saberão o título daquele livro incompleto, mas foi por ele que alcançaram pela primeira vez o fascínio do mar que as montanhas circundantes não deixavam ver.
Não era nenhum livro de Melville, de Stevenson ou de Conrad. Era uma história simples para adolescentes sobre um homem em perpétua aventura pelos mares. Quando finalmente se julgava a salvo numa ilha e ia espetar a sua bandeira, apercebia-se de que estava, afinal, sobre o dorso de uma grande baleia e logo recomeçava a aventura.
Ao juntar as letras, ao articular as palavras e seguindo as frases, as crianças viam produzir-se um mundo fabuloso, inquietante, logo posto em movimento pela magia, lembrando o jogo de juntar água ao carboreto para produzir uma imensa luz azulada. Com o tempo, a leitura transformava-se em vício desejoso de íntima acção e deslumbramento. O fascínio descobre-se então em cada palavra, prescrutando os seus diversos significados, escolhendo-se os impulsos, provocando-lhes limites e extravasamentos, sentimentos inesperados, relacionamentos, surpresas conforme a sua situação e confrontos.
Manuel Hermínio Monteiro
segunda-feira, julho 04, 2011
Un viaje portugués
(...) le gustaría quedarse sentado en este camino, con el cigarro en los labios, como los viejos. El viajero es aún muy joven (o al menos eso quisiera), pero a veces, como ahora, le gustaría ser viejo. Así no tendría que andar vagando de un lado a otro e podría quedarse para siempre aquí sentado, mirando pasar la vida, sin tener que andar todo el día persiguiéndola inúltimente.
Julio Llamazares, “Trás-os-Montes (un viaje portugués)”
quinta-feira, junho 30, 2011
F(I)Mi
Perante esta dupla loucura dos trabalhadores, de se matarem com excesso de trabalho e de vegetarem na abstinência, o grande problema da produção capitalista já não consiste em encontrar produtores e decuplicar as suas forças, mas em descobrir consumidores, em excitar os seus apetites e criar-lhes necessidades fictícias.
Paul Lafargue (1842-1911), “O Direito à Preguiça”
domingo, junho 26, 2011
A linguagem da guitarra de Hendrix
Para além de Thomas Mann, que outros escritores são referências fundamentais para o seu trabalho?
Virgina Woolf, claro. Sobretudo pelo trabalho da linguagem, porque até ter lido Virginia Woolf não tinha a menor ideia daquilo que se podia fazer com uma frase. Estudei numa escola pública, em Los Angeles , e os meus professores não foram extraordinários. Digamos que, até uma certa altura, apenas estava familiarizado com as frases declarativas mais básicas. E foi nessa altura que alguém me ofereceu Mrs. Dalloway, e percebi que era possível fazer coisas extraordinárias com a linguagem. Era um miúdo e a ideia com que fiquei foi que o que a Virginia Woolf fazia com a linguagem era parecido com o que Jimmy Hendrix fazia com a guitarra, e isso marcou-me muito.
Michael Cunningham, em entrevista a Sara Figueiredo Costa [Ler n.º 101, Abril 2011]
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















