Foram precisos anos
de luta, de trabalho duro e de pesquisa, para aprender a fazer um só e simples
gesto, e sei o suficiente sobre a Arte de escrever para me aperceber de que
necessitaria, de novo, de outros tantos anos de esforço tenaz e concentrado
para escrever uma só frase simples e bela. Quantas vezes afirmei que, embora um
homem possa aventurar-se por terras do Equador e travar recontros tremendos com
tigres e leões, se porventura tentar narrá-los por escrito, não conseguirá
fazê-lo, enquanto um outro, que nunca saiu da varanda de sua casa, é capaz de
descrever a matança de tigres na selva e fazê-lo de tal modo que os seus
leitores não duvidem que na verdade ele andou por esses sítio e com ele
partilhem os seus medos e angústias, sintam o cheiro dos leões e ouçam o
temeroso aproximar da cobra cascavel. Nada parece ter existência real senão na
imaginação e todas as coisas maravilhosas que me aconteceram e vivi podem vir a
perder o seu sabor pela simples razão de eu não possuir a pena de um Cervantes
ou mesmo de um Casanova.
Isadora Ducan, “A Minha
Vida”
Citações... Acontece em leituras deparar com a frase perfeita, ou um pensamento elaborado tal qual o sentimos e gostaríamos de escrever, ou o espanto da descoberta de um conceito com o qual passamos a concordar plenamente, ou de uma ideia marcada pela incongruência do tempo, etc! É disso que se trata este blog. Não irei escrever nada de meu mas irei citar (apropriar-me) o que é de outros e que a outros pertence.
terça-feira, janeiro 01, 2019
sábado, novembro 24, 2018
... porque todos são brancos!
A grande sem-razão
desta injustiça declarou Salomão em nome alheio com uma demonstração muito
natural. Introduz a Etiopisa, mulher de Moisés, que era preta, falando com as
Senhoras de Jerusalém, que era brancas, e por isso a desprezavam, e diz assim: Filiae
Jerusalem, nolite considerare quod fusca sim, quia decoloravit me Sol [Ct
1, 4-5 – “Filhas de Jerusalém (...), não estranheis eu ser morena, foi o sol
que me colorou”]: “Se me desestimais, porque sois brancas, e eu preta, não
considereis a cor, considerai a causa: considerai que a causa desta cor é o
Sol, e logo vereis quão inconsideradamente julgais”. As Nações, umas são mais
brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais
remotas do Sol. E pode haver maior inconsideração do entendimento, nem maior
erro do juízo entre homens, e homens, que cuidar eu que hei de ser vosso
Senhor, porque nasci mais longe do Sol, e que vós haveis de ser meu escravo,
porque nasceste mais perto?
Dos Magos, que hoje vieram ao Presépio, dois
eram brancos, e um preto, como diz a tradição: e seria justo que mandasse
Cristo que Gaspar e Baltasar, por serem brancos, tornassem livres para o
Oriente, e Belchior, porque era pretinho, ficasse em Belém por escravo, ainda
que fosse de São José? Bem o poderá fazer Cristo, que é Senhor dos Senhores:
mas quis-nos ensinar que os homens de qualquer cor todos são iguais por
natureza, e mais ainda por Fé, se creem, e adoram a Cristo, como o Magos.
Notável coisa é que sendo os Magos Reis, e de diferentes cores, nem uma, nem
outra coisas dissesse o Evangelista! Se todos eram Reis, porque não diz que o
terceiro era preto? Porque todos vieram adorar a Cristo, e todos se fizeram
Cristãos. E entre Cristão, e Cristão não diferença de nobreza, nem diferença de
cor. Não há diferença de nobreza, porque todos são filhos de Deus, não há
diferença de cor, porque todos são brancos. Essa é a virtude da água do
Batismo. Um Etíope se se lava nas águas do Zaire, fica limpo; mas não fica
branco: porém na água do Batismo sim, uma coisa, e outra: Asperges me
hyssopo, et mundabor [“Aspergir-me-ás com o hissope e ficarei limpo”]:
ei-lo aí limpo; Lavabis me, et super nivem dealbador [Sl 50, 9 –
“Lavai-me, e ficarei mais branco que a neve”]: ei-lo aí branco. Mas é tão pouca
a razão, e tão pouca a Fé daqueles inimigos dos Índios, que depois de nós os
fazermos brancos pelo Batismo, eles os querem fazer escravos por negros.
Padre António Vieira,
“Sermão da Epifania” – Na Capela Real, Ano 1662
A biblioteca
A biblioteca
O meu pai tornou-se
a biblioteca. Será um sítio perigoso de penetrar. No seu tempo, foi o proeminente
dramaturgo e académico. As suas memórias de infância da biblioteca, porém,
revestiram-se de grande interesse para a Asphodel, e ele tem trabalhado
arduamente na construção desta nova biblioteca desde que entrou para aqui. A
biblioteca da sua infância continua a existir na pequena cidade onde cresceu,
uma antiga e pitoresca biblioteca de província feita de grés vermelho com
aldrabas e maçanetas de bronze nas portas e uma grande mesa de carvalho
escurecido, onde se faz a requisição e a devolução dos livros. Ele recordava-se
de cada centímetro; mais: ele recordava-se de cada biblioteca onde tinha
estudado em jovem, e depois mais velho, quando se tornou um tipo de pessoa que
usava exclusivamente as bibliotecas e comprava livros verdadeiros, dos antigos,
feitos de papel, letra impressa, cola. Conhecia-lhes o cheiro e o peso, a
textura das suas capas. Os livros que ele não conhecia era capaz de imaginar
com pormenores convincentes. Todos os livros do mundo foram há muito tempo
trazidos para o nosso universo por via de digitalização automática, pelo que só
é preciso o pensamento adequado, um pensamento operativo, para preencher
aquelas cifras tangíveis, mas vazias, de livros com palavras. É isso então que
o meu pai faz. Tem a biblioteca na cabeça. Está a enchê-la com um número
infinito de livros em que se pode entrar, esconder-se, de que pode fazer parte
sempre que queira. Assassiná-lo naquela biblioteca será talvez impossível, mas
é preciso. Eu tenho de espantá-lo e matá-lo. Torná-lo completamente vulnerável
e aberto. A sua mente deve estar completamente relaxada, de tal maneira que não
consiga aparar o golpe quando eu atacar. E o golpe deve ser sério e fatal. Não
pode ser apagado aos poucos, tem de ser de uma vez. Um golpe. Instantâneo. Tem
de reverter. Rebentar. Desintegrar-se. Apagar-se.
Louise Erdrich, “Domínio”
[Granta em Língua Portuguesa | 2]
domingo, novembro 11, 2018
Trás-os-Montes, o Nordeste
Devido talvez à
longa ausência, quando cheguei surpreendeu-me, quase diria me assaltou, o
cheiro da terra transmontana, o odor que se me deve ter entranhado à nascença e
agora aspiro com a satisfação de viciado a quem faltou a droga.
Há aí retalhos de
memória e alguma fantasia, pois desapareceram os montes de estrume a fumegar,
não se vêem cagalhetas nem bostas, nenhum forno coze pão. Todavia, sem que os
chame, esses cheiros antigos vêm de mistura com os de resina e terra seca, dos
eucaliptos, das encostas que são mares de esteva, giesta, urze e rosmaninho.
Para mim continua
no ar o relento de terra lavrada, do fumo acre de lenha a arder, mosto, figos,
maçãs podres, bedum, o calor cheiroso das vinhas ao fim da tarde, o das pedras
torradas pelo sol de Agosto.
Ontem, ao rever o
lugarejo onde nasci, desabitado há vidas e que dentro em pouco se afundará na
albufeira da barragem do Sabor, mais do que serem vivas as recordações, todas
me chegaram acompanhadas de cheiros: o de pólvora na roupa de meu Pai, do soro
de leite nas mãos da Felisbela a fazer queijo, do sabão de potassa, o das
chouriças a defumar.
Há muito que tudo
ali é abandono, fim, em parte nenhuma vi, nem poderia ver, candeeiros de
petróleo ou lampiões de azeite, botas ensebadas, feno, a palha húmida, a urze
repisada do mijo das bestas para fazer estrume, mas a cada porta de casebre,
nos muros arruinados, no que ainda está de pé do que foi a nossa casa, por toda
a parte me acompanhou, penetrante, a memória desses cheiros, como se por
instantes fosse devolvida a parte de mim que há muito cientemente descartei.
J. Rentes de Carvalho, “O
Meças”quinta-feira, novembro 01, 2018
Os rios de Portugal: barragens!
Os rios em Portugal
eram belos e selvagens, um exemplo para a juventude, corriam livres e
esbanjavam tudo na Primavera, para desaparecerem entre as pedras no Verão. Até
que saiu um decreto para conter o esbanjamento dos rios nacionais – Temos de
impor um certo grau de civilização aos rios, um rio que queira circular no
território europeu terá de cumprir as regras da boa gestão dos recursos. Vamos
adoptar o sistema: um rio – duas barragens. Será a marca da democracia em todos
os rios, até nos mais recônditos vales construiremos as infra-estruturas a que
todos os rios têm direito num país civilizado. Os nossos rios ordenados serão
um grande motivo de orgulho.
Tiago Patrício,
“Checoslováquia”
segunda-feira, julho 23, 2018
da Universidade
12 de Março [1919]
– Depois destes cinco anos passados na Universidade, parece-me o que se costuma
dizer rotineiramente: que se perde o tempo e que ao sair é quando se tem de
começar a trabalhar e, sobretudo, quando se deve esquecer o que se aprendeu,
que é absolutamente secundário.
No meu entender, o
pior efeito do estabelecimento é a falsificação que produz na sensibilidade, na
inteligência e no carácter. Tende a fazer ver as coisas não tal como realmente
são, mas através de uma chapa sobreposta. Não é o esforço para passar do
simples ao complexo – como a vida exige – para chegar a uma certa visão humana
quintessenciada. É um esforço para simplificar através da armadilha
sistemática. O estabelecimento faz ver as coisas em ponto pequeno, com miopia,
favorece o pensamento, o truque, a astúcia, a habilidade, a tendência a
converter o atrabiliário em norma de vida. Na Universidade, saber conta muito
pouco: o principal é aprovar. Passei cinco anos da minha vida numa faculdade de
Direito: nunca ouvi falar, nem por sombras, de Justiça. Nunca ouvi a própria
palavra ser pronunciada. Teria estado provavelmente deslocada num ambiente que
pretende criar malandros, mais do que pessoas de um certo equilíbrio humano.
Assim, o estabelecimento docente dá armas fortes aos fracos e aleijados morais,
aos pequenos ambiciosos, às moscas mortas desenfreadas, aos fanáticos, aos
pedantes. Aprende-se aí todas as artes da dissimulação e da artimanha, da adulação
e da habilidade. Nunca se luta com nobreza e clareza. A Universidade abafa e
corrompe os temperamentos fortes.
Josep Pla, “O Caderno
Cinzento”domingo, julho 22, 2018
Diário
5 de Setembro
[1908] – Pergunto-me frequentemente se este diário é sincero, ou seja, se é um
documento absolutamente íntimo.
A primeira questão
que se coloca é esta: é possível a expressão da intimidade? Quero dizer a
expressão clara, coerente, inteligível, da intimidade. A intimidade pura, bem
discernida, deve ser a espontaneidade pura, ou seja, uma segregação visceral e
desconexa. Se alguém dispusesse de uma linguagem e de um léxico eficaz para
representar esta segregação, não haveria problema. Mas a verdade é que não
existe nem um estilo adequado à sinceridade nem um léxico eficiente. Mas,
supondo ainda por um momento que a intimidade se pudesse expressar, quem a
entenderia? Quem poderia compreender? Se não fosse única, particularista,
pessoalíssima, absolutamente primigénia, que aspecto teria? Como se poderia
imaginar a sua presença? Quando não podemos esclarecer a nebulosa interna,
habitualmente dizemos: sei do que estou a falar... Os bêbados dizem o mesmo.
Suspeito que as crianças, quando não conseguem fazer-se entender, pensam o
mesmo. A minha ideia, então, é que a intimidade é inexprimível por falta de
instrumentos de expressão, que a sua projecção exterior é praticamente
informulável. Pensemos apenas na enorme força de deformação e de falsificação
que tem o estilo tradicional, a ortografia e a sintaxe habitual, em toda a
tentativa de querer expressar o pensamento de aparência mais simples, na
pretensão de descrever o objecto mais insignificante.
E, como se isto não
fosse suficiente, há todos os monstros invencíveis: a vaidade, o tartufismo, a
educação, o egoísmo, o convencionalismo, a inveja, o ressentimento, a
humilhação, a influência do dinheiro ou a falta dele, a impotência... ou seja,
todo o detrito de paixões e de sentimentos que alguém arrasta desde que se
levanta até que se deita. Metidos neste jogo de forças obscuras mas de grande
peso, as contradições íntimas são permanentes. Por exemplo: tenho tendência em
público, ou quando escrevo, a combater o sentimentalismo por ser pornográfico e
anti-higiénico, mas o certo é que pessoalmente sou uma espécie de vitelo
sentimental evanescente. Quando estou sozinho, às vezes rio-me – ou às vezes
cai-me uma lágrima desprovida de qualquer justificação racional, contrária a
todas as exigências da razão que defendo perante as pessoas. Aconteceu-me
entrar numa igreja e começa a chorar copiosamente, e isso mesmo me aconteceu a
ler um livro, como espectador num teatro ou folheando um jornal. Folheando um
jornal, não é literalmente grotesco? É um facto certo. Um outro aspecto: tenho
uma certa fama de homem forte e suponho – para dizê-lo como Stendhal – de tête brulée. Mas a realidade é muito
diferente. Perante muitas coisas, sou de uma debilidade ridícula. Uma gota de
sangue, a dor física, a presença de um morto, a observação de uma injustiça, a
desgraça de um amigo, a visão de uns olhos tristes, submergem-me num estado de
debilidade tão excitante e dolorosa que a sinto de uma maneira física. Na
realidade, só sou forte para aparentar – quando estou em público – que tenho o
sentido do ridículo desperto.
O homem poderia ser
sincero se fosse sempre igual a si próprio: enquanto for em público – falo de
um homem normal – tão diferente como é ao encontrar-se consigo mesmo, enquanto
não houver entre estes dois seres vivos que levamos dentro uma solução de
continuidade, visível e permanente, a expressão da sinceridade é impossível.
Então, o que se
deve pensar da intimidade? Et cetera.
Josep Pla, “O Caderno
Cinzento”
sábado, julho 21, 2018
o mar
8 de Agosto [1908] –
O mar. Estas ondas verdes, azuis, brancas, que monotonamente vemos passar fazem
sobre o espírito um trabalho de lima, despersonalizando-nos, podam-nos o relevo
da própria presença humana. Fica-se embasbacado, fascinado, dominado. Talvez
isso explique que a única posição do homem perante o mar tenha sido de simples
contemplação.
O mar inumerável,
sempre mutável, esgota a nossa fantasia. E quando sentimos esse esgotamento
encontramos o mar idêntico, liso, monótono, igual. Através do primeiro momento,
o mar domina-nos e dá-nos prazer. Através do segundo, angustia-nos e
provoca-nos um mal-estar impreciso, vago.
Para quebrar este
jogo teríamos que encontrar a palavra justa e compreensiva para o mar... mas
assim que pensamos que a temos, escapa-se-nos como se fosse uma rajada de vento
ou o caracol voluptuoso e fugaz de uma onda.
Josep Pla, “O
Caderno Cinzento”
sexta-feira, julho 20, 2018
da poesia nos olhares
16 de Abril [1908]
– Às vezes passeio pelas ruas com o objectivo exclusivo de olhar para a cara
dos homens e das mulheres que passam. A cara dos homens e das mulheres que
passaram dos trinta anos, que coisa tão impressionante! Que concentração de
mistérios minúsculos e obscuros, à medida do homem; de tristeza venenosa e
impotente, de ilusões cadavéricas arrastadas durante anos e anos, de cortesia
momentânea e automática; de vaidade secreta e diabólica; de abatimento e
resignação perante o Grande Animal da natureza e da vida!
Há dias em que
invento qualquer pretexto para falar com as pessoas que vou encontrando.
Olho-as nos olhos. É um pouco difícil. É a última coisa que as pessoas deixam
ver. Estremeço ao notar a escassa quantidade de gente que conserva no olhar
algum rasto de ilusão e de poesia – da ilusão e da poesia dos dezassete anos.
Da maioria dos olhos apagou-se de todo o brilho pelas coisas abstractas e
engraçadas, gratuitas, fascinantes, incertas, apaixonantes. Os olhares são
duros ou mórbidos ou falsos, mas totalmente arrasados. São olhares puramente
mecânicos, desprovidos de surpresa, de aventura, de imponderável.
Josep Pla, “O Caderno
Cinzento”
terça-feira, junho 19, 2018
da Poesia
Não é fácil nos
dias de hoje, fazer poesia sentimental sem banalidade. Quase tudo o que havia a
dizer já está dito. E o que é pior, dito e vencido. Entre o que se diz e a
maneira por que se o faz, o verso foi resvalando para a técnica, e nela firmou
seus domínios. A arte de escrever tem superado a mensagem, e a estrutura do
verso preocupa mais do que a poesia a transmitir, e que pereceria a sua razão
de ser. Já se vai tornando impossível tratar de poesia lírica, uma vez que a lira
anda longe, substituída pelo compasso e esquadro. O verso tem adquirido ares de
arquitectura, depois de ter passado por algumas confusões com a oratória. E
como é tão célere o mundo, e as coisas naturais vão perecendo, e em breve não
seremos mais criaturas humanas, mas coisas de humana aparência, funcionando
entre outros maquinismos, falar em assuntos de sentimento já é quase
arqueologia, porque não há tempo, não há lugar, não há ouvintes, não há razão
de ser. (...)
Resta-nos, pois – a
José Bruges e a todos nós, os da poesia sentimental – o trabalho de inventar o
nosso mundo, e lá viver. Porque a poesia sentimental não é a poesia
sentimentalista. Nós não andamos atrás dessas pequenas coisas dos amáveis
sonhos de cada dia. Não, não, nós somos uns ambiciosos de coisas sem
existência, pelas quais damos a vida, o corpo, a alma, o tempo, enfim, o que
somos. E somos os amantes de uma liberdade que nos arranque a estes enredos da
terra. E por ela choramos, e por ela nos convertemos em saudade. E isso é a
nossa poesia.
Cecília Meireles,
dactiloscrito anexo a carta datada de 12 de junho de 1951, envia da a José
Bruges [“Acerca do Desterro – hermenêutica literária e arqueologia cultural” de
José Rui Teixeira]
domingo, junho 17, 2018
as três pedrinhas
... virou para mim
um olhar interrogativo: que estória é essa das pedrinhas, nunca ouvi falar,
disse. Serafim é que conta, defendi-me cauteloso, ouvido do teu avô Frederico
que diz ter ensinado a Pedro Trago esse método artesanal de conquistar as pequenas.
Segundo ele Pedro já estava desesperado para namorar Dora e então Frederico
explicou-lhe que quando um rapaz está interessado numa pequena e deseja saber
se ela alinha na sua conversa, vai de manhã cedo à ourela do mar, antes do sol
sair, e escolhe três pedrinhas redondas, duas pretas e uma branca. Embrulha-as
bem embrulhado num lenço de mão branco e deixa-as um bom bocado debaixo do
sovaco, até ficarem com o cheiro do corpo do seu dono. Depois arranja uma
oportunidade de maneira a poder atirá-las uma a uma ao regaço da escolhida.
Primeiro uma preta, depois a branca e a seguir a outra preta. Se em resposta
ela devolver uma pedra preta, paciência, nada feito, quer dizer que não está
interessada. Se ficar com elas brincando nas mãos sem devolver nenhuma, quer
dizer que está a pensar no assunto, o outro tem é que esperar com calma porque
nada está perdido. E se por boa sorte ela logo devolver a branca, não só está a
dizer que está interessada como também que o namoro ficou firme desde aquele
momento.
Germano Almeida, “A Família
Trago”
quinta-feira, abril 26, 2018
Poetas e putas!
Auden afirmou que,
se alguém lhe perguntava a profissão, dizia que era professor, sobretudo para
não incomodar o interlocutor dizendo-lhe que era poeta. Não há nenhuma outra
actividade que obrigue ao disfarce para evitar o incómodo de um desconhecido.
Excepto, claro, o de dedicar-se à prostituição. Poetas e putas partilham,
portanto, uma condição inicial: a sua maneira de ganhar a vida não é ainda
aceite pela sociedade.
José Ángel Cilleruelo, “Cão Celeste” n.º 4
sexta-feira, abril 20, 2018
Y si el mar fora Dios?
Nos sentamos en la arena. Así con la playa vacía, las
olas se vuelven imponentes, son ellas solas que gobiernan la paisaje. En esse
sentido me roconozco lamentablemente dócil, maleable. Veo ese mar implacable y
desolado, tan orgulloso de su espuma y de su coraje, apenas mancillado por
gaivotas ingenuas, casi irreales, y de inmediato me refugio en uma
irresponsable admiración. Pero depués, casi en seguida, la admiración se
desintegra, y paso a sentir-me tan indefenso como una almeja, como un canto
rodado. Ese mar é uma especie de eternidad. Cuando yo era niño, él golpeaba y golpeaba,
pero también golpeaba cuando era niño mi abuelo, cuando era niño el abuelo de
mi abuelo. Una presencia móvil pero sen vida. Una presencia de ola oscuras,
insensibles. Testigo de la história, testigo inútil porque no sabe nada de la
historia. Y si el mar fora Dios?
Mario Benedetti, “La
Tregua”quarta-feira, março 07, 2018
e o Rei escapou em camisa
e o Rei escapou em
camisa
Em Belém o Palácio
sofreu muito, mas Suas Majestades ilustríssimas e toda a Família Real se
salvaram no campo e vivem numa tenda e em diversas tendas, e o Rei dorme numa
carroça.
“O Terrível Terramoto da
Cidade Que Foi Lisboa – Correspondência do Núncio Filippo Acciaiuoli (Arquivos
Secretos do Vaticano” Arnaldo Pinto Cardoso, Alêtheia editores, 1755, p. 160
terça-feira, janeiro 02, 2018
Putas & livros
«- Dou cinco
mil-réis a Édison para ir às putas, desconfio que me engabela, para tirar a
limpo eu o sigo sem que me veja: o crioulo vai direto à livraria de dom Paco
foder um livro.»
Jorge Amado, “Navegação de
Cabotagem”quarta-feira, outubro 25, 2017
Galo cantou na baía
Já cantã galo na baía
Sol cá tá longe de
somã.
Coma’m ta longe de
Maria
Securo tá continuã...
Manuel Lopes, “Galo Cantou
na Baía” (1959)
segunda-feira, setembro 04, 2017
País de poetas
A ignorância em que
os lusitanos viviam em meados do século era quase comparável à dos seus
vizinhos marroquinos, a sul do Golfo dos Algarves. Nos distritos setentrionais
– Viana, Braga, Bragança – uma moça que soubesse ler era um autêntico fenómeno.
Contudo, é verdade que estes portugueses sem instrução – à diferença de tantos
labregos do norte da Europa, rudes apesar de quase letrados – sabem debater com
moderação, falar com elegância e mesmo improvisar versos sem que falte o metro,
a censura e a autêntica poesia.
Élisée Reclus, “As Terras e
as Gentes da Galiza e Portugal na Nova Geografia Universal”terça-feira, julho 25, 2017
mau-olhado
A tia
Conceição veio para quebrar o mau-olhado que me deitaram. Reza. Depois, no
prato com água, os pingos de azeite boiam. Mas um afunda-se, muda de cor. – Lá
vai a bruxa!
J. Rentes
de Carvalho, “O Rebate”sábado, julho 22, 2017
O massacre português de Wiriamu - Moçambique, 1972
«Normalmente»,
disse ele [Antonino Melo, alferes, comandante das tropas que coordenou e
executou esta operação militar], «deslocávamo-nos até à zona… e limpávamos tudo
isso.» Era
simples. «Para poupar balas, metíamos as pessoas dentro das palhotas,
atirávamos uma granada para o interior, trancávamos a porta e pum!» O telhado
de capim era projectado no ar, deixava sair o ar quente e sugava oxigénio
fresco, tornando a cair e incendiando tudo. Os que não morriam no momento da
explosão, pereciam no incêndio.
Mustafah
Dhada, “O Massacre Português de Wiriamu – Moçambique, 1972”
segunda-feira, julho 10, 2017
Ler, paixão de sempre!
Sempre
entendi que o tempo era curto para tudo o que eu queria fazer. Ou melhor, para
tudo o que queria ler. Porque ler foi a minha paixão de sempre. No entanto, por
mais que lesse, iam crescendo as pilhas de livros à minha volta como intermináveis
torres de Pizza. E eu tremia ao pensar que nunca viveria anos que chegassem
para todos os livros e todos os autores que ansiava ler.
Eu lia
furiosamente. Na cama, na casa de banho, à mesa do pequeno almoço, do almoço, do
jantar. Reduzira as escolhas possíveis de alimentos para cada refeição em
função da leitura. Apenas puré, ervilhas, arroz e tudo o que não necessitasse
de garfo e faca. Uma mão a segurar o livro que lia, outra a levar a comida à
boca.
Fui mais
longe ainda. Vendi o carro para me dedicar irremediavelmente à leitura nos
transportes públicos. Lia em todas as esperas que foram sendo cada vez mais
frequentes no consultório, na farmácia ou no hospital.
José Fanha, “KM 0”
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