quarta-feira, abril 30, 2014

A voz da floresta africana



Quando alguém entra numa floresta africana caminhando entre a vegetação, parece ser cercado por um silêncio misterioso mas, se tiver paciência de sentar-se sobre um tronco a descansar e a escutar, então a voz da floresta far-lhe-á ouvir a sua voz, as suas harmonias e as suas mensagens através da boca dos animais, das aves e dos antepassados.
Pe. Salvatore Cammilleri, “A Identidade Cultural do Povo Balanta”

domingo, março 09, 2014

Sobre a literatura Maria-vai-com-as-outras...



Arquei com o papel em branco como lavrador com a jeira de terra que tem de vessar, gradar, atafolhar, fazer produtiva mercê do sementio, e retrocedi aos caos, primeira fase do meu artigo como do mundo organizado. Penei, suei, rangi os dentes, mas fui avançando. A certa altura, depois de uma passagem laboriosa, de pena suspensa ao alto a considerar com um ar miserando a minha inópia mental, senti a cadela da fome a derriçar-me nas entranhas. Era a primeira vez que dava sinal, mas dali em diante não me consentiu mais tréguas. Embora, naquele dia, trabalhando por várias torturas, pude avistar a cumeada alta e agreste do ofício de escritor! Nunca passará da cepa torta o profissional que tome as palavras pelo seu valor bursátil, isto é, pela sua significação léxica. As palavras são dotadas de tantas qualidades quantas as intrínsecas ao desfrute dos nossos cinco sentidos. Possuem cor, timbre, um timbre diferente da sua prosódia, aroma e certamente densidade. O verdadeiro escritor, quando trabalha sobre o papel branco, procede ao seu emprego em correspondência com estes tópicos. Simultaneamente, trata-as como notas musicais para que não desafinem; como elementos fazendo parte duma escala cromática, para que uma página não seja uma laude de Outono, mortiça e gregoriana. Se descrever a neve, que as palavras voem e revoem no ar, iriadas como as flores da macieira, e se uma sécia ou um papo-seco perfumados, que não seja preciso falar no ylang-ylang para lhe aspirar a droga.
Entre as palavras há simpatias e repulsões instintivas como em todos os seres vivos. L’épithète doit être la maîtresse du substantif, jamais sa femme légitime, escrevia Alphonse Daudet. Cuidado com o relacionamento de uns termos com outros. De facto, têm a sua sensibilidade e cada qual uma política. O pior inimigo da palavra escrita é o lugar-comum, o possidónio, o refervido, resultantes do hábito, da vicieira de falar, do Maria-vai-com-as-outras. Dispô-la num tauxiado imprevisto mas lógico, com ressonância determinada e o seu mundo à espalda, eis o problema. Quanto a ideias, temos conversado. O homem é uma máquina de pensamento, mas a secreção mental sob o ponto de vista literário é tanto melhor quanto menos se pareça com a do seu semelhante. O afrondoso, o díspar, o herético não destoam no haver dum escritor original ou simplesmente digno. O oiro é sempre o mais distinto e o mais raro. Já o pensamento de todos e de cada um é moeda de cobre que não dá para coisa nenhuma. Era com dobrões que em Roma se comprava a salvação.
Aquilino Ribeiro, “Lápides Partidas”

terça-feira, março 04, 2014

Esquivas delicadas do corpo...

“Gosto muito de boxe”, disse eu. Então, Iraklis disse-me que o campeão Malangomas de Caria, modesto homem nascido na Ásia Menor nos tempos de Cristo, ficou famoso por não golpear nem receber golpes dos seus adversários devido às suas esquivas delicadas do corpo (lembrei-me de Muhammed Ali, um ícone da minha geração) que enfureciam os seus adversários e os levavam a desistir.
Jacinto Rêgo de Almeida, “Desporto de alta competição”, JL n.º 1129 Janeiro 2014

sábado, fevereiro 15, 2014

A fecundidade que há na escassez

As nossas escolas são feitas para a aprendizagem da palavra, do discurso, do conceito, do saber fazer. E faltam-nos mestres do silêncio, escolas que permitam aprender a não fazer, a pausa, a interrupção, os caminhos silenciosos, a contenção. Ou seja, a aprendizagem da arte do silêncio, a fecundidade que há na escassez, o vigor que existe na sede. Mas toda a nossa sociedade caminha noutro sentido.
José Tolentino Mendonça, em entrevista a Maria Leonor Nunes, JL n.º 1127 Dezembro 2013

domingo, fevereiro 02, 2014

Ao sol



Antes de 1914, as mulheres protegiam-se do sol para não se parecerem com as camponesas; agora fazem-se assar como pêssegos carecas para não se parecerem com as operárias.
Michel Germont, “Uma Morte Perfeita”

sábado, janeiro 18, 2014

Adão & Eva

Toda a moral que a humanidade erigiu durante séculos, com árduo esforço de severos filósofos e clérigos, apenas visa conceder mais sofisticação e verniz à ideia de que a mulher e a sua vagina estão ao serviço do homem. Quando Deus tirou uma costela de Adão e lhe soprou para dar vida a Eva estava na verdade a criar a primeira boneca insuflável. Ok, talvez a história bíblica não seja bem assim, mas não parece que o homem a tenha entendido de outra maneira.
Rui Ângelo Araújo, “Os Idiotas”

domingo, janeiro 12, 2014

toka-tchur

Não sendo tão quente quanto alguns noutros lugares de Angola, Saurimo é um lugar quente, desertificado, plano, de terra batida, e impõe uma exigência muito grande para ali se ficar. Essa mesma experiência de tudo conspirar existe ali, e o misticismo levado ao extremo. Eles acham que ninguém morre por natureza, que se morre por inveja, por mau-olhado. Mesmo quem vive até aos 102 anos, no momento em que morre não é de velhice, morre porque alguém lhe rogou uma praga, o desprezou, lhe desejou a morte. Parece horrível mas é muito bonito. Eles acham que se conseguirem eliminar as invejas, as cobiças, se conseguirem criar uma sociedade puramente justa, vão conseguir ensinar a natureza a deixar-nos ser eternos, porque deixou de haver razão para que as pessoas morram. Ficaremos velhos e mais velhos porque ninguém nos quererá mal. Esta esperança define-os, é uma forma de acreditar que o mundo vai ser melhor.
Valter Hugo Mãe, em entrevista a Ana Sousa Dias, Ler – Livros & Leitores, n.º 128, Outubro 2013

quinta-feira, janeiro 02, 2014

...enxames de diabinhos largar pelas janelas, arrepelando-se e batendo as nádegas, furibundos



O senhor padre Ambrósio, meu bom mestre, revestido de pluvial a lhama de prata e franja de oiro, com o Tiago do Eido de caldeirinha à mão esquerda, brandindo a hissope por sobre as cabeças submissas, passeou o recinto em cruz. Ao tempo que os seus lábios proferiam a antífona asperges me, o movimento do braço, repartindo a água com a cadência ordenada de um semeador, afugentava dos corpos e das almas os espíritos malignos, os génios do mal e toda a classe de potências do reino das sombras. E era ao cabo daquela prática que os olhos ditosos de D. Ludovina, beata que floria os altares e comungava todas as sextas-feiras, viam enxames de diabinhos largar pelas janelas, arrepelando-se e batendo as nádegas, furibundos.
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”

sábado, dezembro 28, 2013

Islão & Política



Deus quis que o islão fosse uma religião mas os homens quiseram fazer dele uma política. A religião é geral, universal, totalizante. A política é parcial, tribal. Restringir a religião à política é confiná-la a um domínio estreito, a uma colectividade, região e momento preciso. A religião eleva o homem para o que ele pode dar de melhor, a política tende a despertar os instintos mais vis. Fazer política em nome da religião é transformar esta última em guerras intermináveis e em divisões partidárias sem fim, é reduzir os objectivos às posições procuradas e aos ganhos esperados. Por estas razões, a politização do religioso ou a sacralização do político só podem ser factos de espíritos mal intencionados e perversos, a não ser que sejam ignorantes. Uma e outra acabam por fundamentar na religião o oportunismo e a cobiça, por encontrar justificações corânicas para a injustiça, por rodear a delinquência de uma aura de fé, e por fazer passar por um acto de guerra santa o sangue injustamente derramado”.
Muhhamad Said al-Ashmawy, “L’Islamisme contre l’Islam”

quarta-feira, agosto 28, 2013

... o livreiro publica a leitura


A escrita, o livro, a leitura: um mundo! Vasto e complexo mundo! Quem encontrarei disponível para me acompanhar num breve olhar sobre ele?
Mundo habitado. O olhar encontra imediatamente os escritores e os leitores. Depois, entre a escrita e o livro, está o editor com o seu trabalho emérito. Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro «publica» a leitura.
Resendes Ventura, “Papel A Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores”

terça-feira, junho 25, 2013

Carteiristas UE


Não há, nunca houve Europa, no sentido que esta palavra tem em diplomacia. Há hoje um grande pinhal de Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro que se odeiam uns aos outros, tremem uns dos outros, e, por um acordo tácito, permitem que cada um por seu turno se adiante – e assalte algum pobre diabo que vegeta ou trabalha ao canto do seu cerrado. (...) A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia estar coberta destes avisos em letras gordas: Bewareofpick-pokets! (Cautela com os salteadores!)
Eça de Queirós, Cartas de Inglaterra (1905)

quinta-feira, maio 30, 2013

Amanhar, sulfatar, camear, desbagoar, cavar...

A Primavera não concedia tréguas. Era preciso amanhar a terra, sulfatar, camear, desbagoar e cavar à volta de cada cepa a fossa que reteria a água das últimas chuvadas; podia não cair nem mais uma gota de água até Setembro.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”

quinta-feira, maio 16, 2013

Cabral sabia...




Cabral sabia. E insistiu, previu, preveniu: «libertação nacional, luta contra o colonialismo, construção da paz e progresso, independência – tudo isso são coisas vazias e sem significado para o povo se não se traduzem por uma real melhoria das condições de vida.» (“Destruir a economia do inimigo e construir a nossa própria economia”)
António E. Duarte, “A Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa”

domingo, maio 05, 2013

Enfermo


 - Ainda a doença é uma bondade de Deus, Filipe. No nosso ser acordam as pequeninas almas a que não se presta atenção quando se está de boa animalidade. Podia eu alguma vez julgar que até no voo das gaivotas está desenhado o hieróglifo da Divina Graça!? Ao enfermo, porque não tem que fazer, sobra-lhe tempo para dar volta à casa. À casa interior, bem entendido. Que coisas, mal arrumadas umas, imprevistas outras, que ocas e teias de aranha pelas paredes, se não descobrem!? O homem sadio é o que menos se conhece, pois nunca se deu ao trabalho de olhar para dentro de si. O nosso seio, irmão, é uma cisterna lôbrega e só depois de se acostumar a vista à penumbra, se arregalarem bem os olhos, é que se consegue enxergar alguma coisa. O que eu fui encontrar nos meus subterrâneos.
Aquilino Ribeiro, “Humildade Gloriosa”

domingo, abril 28, 2013

Douro sublimado


S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977 – O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor pintou ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis de visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta».
Miguel Torga, "Diário XII"

sexta-feira, abril 19, 2013

A intenção


Àparte outras coisas mais simpáticas, o casamento é a transformação de um sentimento privado numa obrigação pública. Este ou esta amar aquela ou aquele por todo o sempre com a exclusão de todos os outros e de todas as outras. Quem alguma vez tenha amado sabe perfeitamente que é isso que apetece, que o amor é eterno e único durante algum tempo. E depois logo se vê. Mas essa é a melhor justificação que pode haver para o casamento. A intenção.
Hélder Macedo, “Solteiros e casados”, “JL” n.º 1106

quinta-feira, março 07, 2013

Língua imperial

Só as linguas dos povos, que criam imperio, teem direito ao futuro, e, portanto, ao presente nacional. Nós portuguezes, somos um povo pequeno, mas somos um povo imperial, cuja lingua alastrou por sobre o mundo, que criámos civilização, e não simplesmente a vivemos
Fernando Pessoa, “Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro”

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Ontem e hoje


Sustado no meio do seu desenvolvimento, Portugal nunca pôde na administração pública compensar a receita com a despesa, nem economicamente estabelecer o equilíbrio entre a produção e o consumo, de forma a tornar-se um organismo, satisfazendo-se todas as exigências da vida social. Por isso, sucedem-se amiúde as catástrofes que a população expia em silêncio; por isso, os melhores tempos são sempre duma prosperidade aparente, porque dependem de condições fortuitas, fora da sua acção.
Alberto Sampaio, “Ontem e Hoje”, 1892

domingo, fevereiro 10, 2013

Homens superiores!


Eu compreendo o pessimismo de certos homens superiores e o seu desdém pela opinião das maiorias. Compreendo a misantropia de certas criaturas dotadas de superioridade intelectual ou moral. (...) As maiorias são a mediocridade, o tipo médio de uma dada época. O homem superior sendo o esboço, o embrião, a síntese individual, de uma época futura, não pode furtar-se de quando em quando pelo menos, a um sentimento de desprezo pelos homens, pela massa comum da humanidade, pelas maiorias em suma. A razão das maiorias é uma força conservadora, a razão dos homens superiores é uma força criadora. (...)
O direito dos homens superiores, das minorias criadoras, inteligentes e cultas, é proclamar a verdade. O direito das maiorias é discuti-la e valorizá-la pela resistência. (...)
No futuro triunfam sempre as minorias; a minoria progressiva nas sociedades que avançam e vivem, a minoria regressiva nas sociedades que recuam e morrem.
Manuel Laranjeira, «Os Homens Superiores na Selecção Social», A Águia (1.X.1910)