Que as mulheres se
vistam com roupa decente, com pudor e modéstia, sem tranças, nem ouro, nem
pérolas, ou vestidos caros, mas sim como fica bem a mulheres que professam
temor a Deus por meio de boas obras. Que a mulher aprenda em silêncio, com toda
a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o
homem; mas sim que se mantenha em silêncio. Adão foi o primeiro a ser formado;
depois Eva. E Adão não foi enganado, mas foi a mulher que, deixando-se enganar,
incorreu na transgressão. Todavia, será salva através da parturição de filhos –
contanto que as mulheres permaneçam em fé, amor e santidade, com recato.
Timóteo 2:9:15.Citações... Acontece em leituras deparar com a frase perfeita, ou um pensamento elaborado tal qual o sentimos e gostaríamos de escrever, ou o espanto da descoberta de um conceito com o qual passamos a concordar plenamente, ou de uma ideia marcada pela incongruência do tempo, etc! É disso que se trata este blog. Não irei escrever nada de meu mas irei citar (apropriar-me) o que é de outros e que a outros pertence.
sexta-feira, maio 20, 2016
segunda-feira, fevereiro 15, 2016
A arte dos poetas
Na verdade todos os
bons poetas que escrevem obras épicas não o são devido a uma arte, antes estão
inspirados e possuídos quando compõem todos esses belos poemas; e o mesmo se
passa com os bons poetas líricos; estes não se encontram na sua devida razão
quando compõem os seus belos poemas (...). Logo que ascendem na sua harmonia e
no seu ritmo, ficam transformados e possuídos (...). Pois o poeta é uma coisa
leve, alada, sagrada; não pode ele criar poesia antes de sentir inspiração,
estar fora de si mesmo e perder o uso da mente (...). Não é, pois, devido à
arte que fazem poesia (...) mas por graça divina; assim, a única poesia que
cada um é capaz de fazer é da Musa que o possui (...). Estes belos poemas não
são humanos, não são criados pelo homem, mas divinos e criados por Deus; e os
poetas não são mais do que intérpretes de Deus (...).
Platão, “Sócrates e Íon de
Éfeso”
terça-feira, fevereiro 02, 2016
os viajados e os viajantes
Segundo um viajante
que conheço, há dois tipos de viandantes: os viajados e os viajantes. Os
viajados coleccionam lugares, somam monumentos, vão marcando países com
pioneses no mapa da memória. Paris vale pela França, Pequim por toda a China e
um safari no Quénia quase a África inteira. O avião é o modo de locomoção
preferido: importa é chegar. Quando chega, o viajado confirma com uma
fotografia a existência do que conhecera pela fotografia, e dispara sobre a
Torre Eiffel, a muralha da China ou os elefantes. Por seu lado, os viajantes é
espécie muito distinta: não lhes interessa chegar, mas demorar-se. Demoram a
partir. E muitas vezes demoram a chegar. Andam a pé, de bicicleta, quando
muito. Os viajantes deambulam. Não vão ver se as coisas estão no sítio.
Interessa-lhes o que está fora do sítio.
Maria Luísa Malato, “As
Artes Entre As Letras” n.º 163
domingo, janeiro 31, 2016
estados primordiais
E já se vai
construindo uma teoria que explica a nossa perpétua solidão: se nos mantivermos
sem companheiro entre os que nos disseram ser nossos semelhantes, é porque não
encontramos nenhuma criatura espontânea. Ninguém que saiba dar-nos ocasião a
estados primordiais, e a abafarmos com eles a nossa existência para uma magia
ao mesmo tempo magnífica e brutal.
René Crevel, “O Meu Corpo e
Eu”
domingo, janeiro 24, 2016
Madame Bovary, c’est moi
Que sensação
deliciosa é escrever, não estar concentrado em si, mas circular por toda a
criação de que falamos. Hoje, por exemplo, senti-me homem e mulher juntos,
amante e amada sucessivamente, passeei a cavalo por uma floresta, numa tarde de
outono, sobre um tapete de folhas amarelas. E eu era os cavalos, as folhas, o
vento, as palavras que eles trocavam, e o sol vermelho que os fazia cerrar
levemente as pálpebras sob o peso do amor.
carta de Flaubert a Louise,
23 de dezembro de 1853domingo, janeiro 17, 2016
Douro: arquitectura maison style ou suburbana...
Por vezes
precisamos de um forasteiro para reconhecer o valor das nossas coisas. Eu não
precisava de um forasteiro para valorizar a paisagem, mas precisava de um que
me conseguisse fazer ignorar a fealdade da arquitectura maison style ou suburbana dominante nas terrinhas do Douro. O Nik
nem via o mau gosto das construções e das ruas, de olhar preso no rio, nas
encostas, nos socalcos, e certamente um pouco cego pela intensa luz solar.
Rui Ângelo Araújo, “A
Origem do Ódio – Crónica de um Retiro Sentimental”
quarta-feira, dezembro 30, 2015
TV & Maio de 68
Julho de 2001 – Na
TV, há pouco, assisti a uma evocação de Maio de 68: o trânsito parado em Paris
e uma multidão por entre discursos, por entre abraços e policias de “casse
tête” no ar. Condenava-se a poluição, a americanização do mundo, o consumismo.
Encerrado o documentário, não é que a TV, pressurosa e ignóbil, vem fazer a
publicidade dos automóveis, dos detergentes e das mil e uma coisas supérfluas
com que se enganam os inocentes – isto de imediato e com o maior despudor.
Fernando Aires,
“Era Uma Vez o Tempo – Diário VI” (fragmentos)
domingo, outubro 25, 2015
Etnografia y Folklore de Galicia
Non te cases cun
ferreiro
que tem moito que
lavar,
cásate c-un
mariñeiro
que ven lavado do
mar.
Fermín Bouza Brey,
“Etnografía y Folklore de Galicia”
terça-feira, outubro 20, 2015
Sou do paradoxo
Já dizia o
Agostinho da Silva: não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um deles só
exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total.
Manuel Monteiro, “O Falcão
Albanês”
sábado, agosto 29, 2015
Prémio Animal Cavaco Silva
Em Portugal, os
homens do mar estão em vias de extinção, ou quase. Os dados referentes aos
últimos 20 anos são esclarecedores. O número de pescadores nacionais caiu de 30
mil em 1995 para menos de 19 mil e para cerca de 16.700 em 2013. Em contraciclo
com o crescimento das frotas europeias e mundiais nas últimas cinco décadas, a
frota de navios de comércio de bandeira portuguesa e com registo convencional
português, controlados por armadores nacionais decresceu de 94 navios em 1980
para 58, em 1990; 28, em 2000; 17, em 2005; 13, em 2010; por fim, 10, em 2015.
Filipa Melo, “Os Últimos
Marinheiros”, Ler – Livros e Leitores” n.º 138, Verão 2015
segunda-feira, agosto 24, 2015
Fala da Rainha para Bento Banha Cardoso
Fala da Rainha para
Bento Banha Cardoso
Antes do mais sou
fêmea, capitão
e vós sabeis
que uma mulher
dispõe
de outros recursos.
Para vosso desfavor
eu sou mulher
e rei
cabo de guerra
e negra.
Respondo pela voz
da fêmea:
- aspiro a ver-vos
rendido.
respondo pela voz
do povo:
- o povo quer-vos
vencido.
Pela voz das tropas
respondo:
- apraz-nos ver-vos
em fuga.
Respondo pela voz
da raça:
- a raça quer-vos
humilde.
A guerra é sem
quartel
capitão-mor
e se eu morrer sem
ver-vos
de abalada
hei-de parir quem
cumpra
essa alegria.
(1974)
Ruy Duarte de Carvalho,
“Lavra – Poesia Reunida 1970 / 2000”
segunda-feira, agosto 10, 2015
o Porto é...
- Diga menina,
disse o empregado dirigindo-se a ela.
Este doce hábito de
tratar as pessoas, tão típico do Porto, em que o termo “menina”, vai dos cinco
aos noventa e cinco anos.
Armando Sena, “Colheita de
Incertezas”
quarta-feira, agosto 05, 2015
fonte de todos os tormentos
«Encham os homens de informações inofensivas, incombustíveis, que eles se sintam a rebentar de “factos”, informados acerca de tudo. Em seguida, eles imaginarão que pensam e terão o sentimento do movimento, enquanto realmente apenas se arrastam. Serão felizes porque os conhecimentos deste género são imutáveis. Não os levem para terrenos escorregadios como a filosofia ou a sociologia, em que tenham de confrontar a sua experiência. É a fonte de todos os tormentos.»
Ray Bradbury, in Fahrenheit 451 (1953)
segunda-feira, agosto 03, 2015
da escrita: a caneta que mente!
Às vezes a caneta
começa a falar por nós e afasta-se da justeza dos nossos sentimentos, como se
soubesse mais do que nós ou tirasse prazer de os modificar: sem verdadeiramente
nos trair, mente onde queríamos ser sinceros.
José Dias de Souza, “A
Sétima Letra”
domingo, junho 21, 2015
Um passo maior que a perna
Reprodução é coisa
que não existe. Quando duas pessoas decidem ter um bebé, elas empenham-se num
ato de produção, e o uso generalizado da palavra reprodução para esta atividade, com a implicação de que duas
pessoas mais não fazem senão entrançar as suas características, é quando muito
um eufemismo para consolar os potenciais progenitores, antes de eles decidirem
dar um passo maior que a perna.
Andrew Solomon, “Far
From The Tree”
domingo, abril 19, 2015
extremamente dificeis os retratos das creanças, e dos passaros; e impossiveis os das dançarinas e dos doidos
«- Tende a bondade
de vos sentar: não haveis de chegar a impacientar-vos. Muito bem, a vossa nuca
inteiramente descansada n’este círculo de metal; essa perna sobre a outra, o
braço estribado na banca; d’este modo podereis conservar-vos immovel por um
terço de minuto, mas immover com a mais perfeita immobilidade. Sem isso
correrieis grande perigo de voa aparecerdes com quatro ou seis olhos, duas ou
tres bocas, um rosto e meio, ou um nariz mais comprido que todo o corpo, é o
que torna extremamente dificeis os retratos das creanças, e dos passaros; e
impossiveis os das dançarinas e dos doidos» António Feliciano de Castilho
(1800-1875)
Paulo Artur Ribeiro
Baptista, “A Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos”
domingo, março 29, 2015
Otimista
Millôr, você se
considera um otimista?
(Pausa) É uma
pergunta difícil. Olha, eu acho... Eu dou como ilustração da vida o seguinte: o
cara que salta do centésimo andar e ao passar pelo oitavo ele diz: “Até aqui
tudo bem”. A vida é isso...
Millôr Fernandes, “A
Entrevista”
sexta-feira, dezembro 26, 2014
meninos-língua, Brasil
Desde o
Descobrimento, Portugal mandava uma legião de órfãos para o Brasil,
garantindo-lhes a alimentação; em troca, eram mediadores junto de crianças
nativas, «aprendiam a língua indígena e serviam de intérpretes para os jesuítas
e oficiais da coroa». Chamavam-lhes meninos-língua.
Clarisse Fukelman, Colóquio
Letras, número 180, Maio / Agosto 2012
quarta-feira, dezembro 10, 2014
Liberdade essencial
´
Somos livres porque
Deus nos abandonou, e há que viver e construir as nossas vidas a partir dessa
liberdade essencial.
António Ramos Rosa, “Prosas
Seguidas de Diálogos”
domingo, dezembro 07, 2014
Cresci a beijar livros e pão
Cresci a beijar
livros e pão.
Lá em casa, sempre
que alguém derrubava um livro, ou deixava cair um chapati ou uma «fatia», a
palavra que usávamos para um triângulo de pão fermentado com manteiga, o
objecto caído tinha não só de ser apanhado mas também beijado, num mea culpa
pelo desastre e me sinal de respeito. Eu era tão descuidado e mãos-de-manteiga
como qualquer criança e, portanto, nos meus anos de infância, beijei grande
número de fatias e tive também a
minha conta de livros.
Nos lares devotos
da Índia, as pessoas tinham por hábito – e ainda têm – beijar os livros
sagrados. Mas nós beijávamos tudo. Beijávamos dicionários e atlas. Beijávamos
livros da Enid Blyton e banda-desenhada do Super-Homem. Se algum dia tivesse
deixado cair a lista telefónica, provavelmente também a teria beijado.
Tudo isto aconteceu
antes mesmo de ter beijado uma rapariga. Aliás, até seria quase verdade, ou em
todo o caso suficientemente verdadeiro para um escritor de ficção, dizer que,
mal comecei a beijar raparigas, as minhas actividades relativas a pão e livros
perderam alguma da excitação que lhes era própria. Mas uma pessoa nunca esquece
os seus primeiros amores.
Salman Rushdie, “Mas Já
Nada É Sagrado?”, Granta Portugal n.º 2
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