domingo, dezembro 07, 2014

Cresci a beijar livros e pão



Cresci a beijar livros e pão.
Lá em casa, sempre que alguém derrubava um livro, ou deixava cair um chapati ou uma «fatia», a palavra que usávamos para um triângulo de pão fermentado com manteiga, o objecto caído tinha não só de ser apanhado mas também beijado, num mea culpa pelo desastre e me sinal de respeito. Eu era tão descuidado e mãos-de-manteiga como qualquer criança e, portanto, nos meus anos de infância, beijei grande número de fatias e tive também a minha conta de livros.
Nos lares devotos da Índia, as pessoas tinham por hábito – e ainda têm – beijar os livros sagrados. Mas nós beijávamos tudo. Beijávamos dicionários e atlas. Beijávamos livros da Enid Blyton e banda-desenhada do Super-Homem. Se algum dia tivesse deixado cair a lista telefónica, provavelmente também a teria beijado.
Tudo isto aconteceu antes mesmo de ter beijado uma rapariga. Aliás, até seria quase verdade, ou em todo o caso suficientemente verdadeiro para um escritor de ficção, dizer que, mal comecei a beijar raparigas, as minhas actividades relativas a pão e livros perderam alguma da excitação que lhes era própria. Mas uma pessoa nunca esquece os seus primeiros amores.
Salman Rushdie, “Mas Já Nada É Sagrado?”, Granta Portugal n.º 2

1 comentário:

carlos augusto da cruz novo disse...


Isso é habito ou de gosto judaico sefardita, beijar o pão e os livros.