domingo, agosto 29, 2010

Embriaguez amorosa...


Com o amor dá-se o mesmo com o vinho. Perdoem-me as leitoras o pouco delicado da confortação; mas vêem que ambos eles embriagam. É portanto lícito compará-los Diz-se de certas pessoas – que têm o vinho alegre – de outras que – o têm tristeestúpidobarulhento conforme dá alguns a embriaguez para a hilaridade, a outros para o sentimentalismo, a outros para a modorra ou para brigas. Pois com o amor é o mesmo. Amantes há que celebram os seus amores, e até as suas infelicidades amorosas, sempre em estilo de anacreôntica – esses têm o amor alegre; outros que, quando amam, embora sejam ardentemente correspondidos, suspiram, procuram os bosques solitários, que enchem de lamentos, e as praias desertas, onde carpem com o alcião penas imaginárias – têm estes o amor sombrio; a outros serve-lhes o amor de pretexto para espancarem ou esfaquearem quantas pessoas imaginam que podem ser-lhe rivais ou estorvos, e, nesses acessos de fúria, chegam a espancar e a esfaquear o objecto amado – são os do amor barulhento e intratável; há-os que emudecem e embasbacam diante da mulher dos seus afectos, que em tudo lhe obedecem, que a seguem como o rafeiro segue o dono, e experimentam um prazer indefinível em adormecer-lhe aos pés – pertencem aos do amor impertinente e estúpido. Poderia ir muito longe essa classificação, se fosse aqui o lugar próprio para ela.
Júlio Dinis, “As Pupilas do Senhor Reitor”

1 comentário:

Beaz disse...

Gostei muito deste lugar!