domingo, novembro 25, 2012

O português é um íncola degenerado.


«Carece de estrutura. Que é preciso para que o português tenha vida plasticamente sua e a viva com a indispensável autonomia e carácter? Antes de ir mais longe convém examinar porque é que o homem que para aí se vê não esteva à altura de se talhar um habitat próprio, digno de europeu, em território onde a existência, graças ao clima por via de regra benigno, em despeito das qualidades medíocres do solo, poderá ser fácil e fecunda. Se chamarmos a depor a história, a etnografia, a demografia e compulsarmos as estatísticas, chegaremos à conclusão que o português é um íncola em estado de esgotamento. Melhor: é um íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe?» (...)
«O português é um íncola degenerado. Como ocorreu tal catástrofe? As causas foram várias e fazer a sua etiologia seria tarefa laboriosa e demorada. Assentemos, desde já, nesta facto incontroverso, que não tem anos, mas séculos, e não precisa de demonstração: a maioria dos portugueses tem fome. Não se melindrem os ouvidos de Vossências com o juízo calamitoso e pronunciem acentuando bem as sílabas, que soltam por cima do charco um grito de alarme: a maioria dos portugueses tem fome! O operário urbano não ganha com que se alimentar suficientemente e alimentar a prole, e o mesmo sucede ao cavador, ao pequeno proprietário, se anda em dia com o Estado e o ricouço, e ao mediocrata da classe liberal – quatro grupos estes que representam a maioria da nação. Portanto, primeiro que tudo, há que matar a fome do habitante, regenerando a planta humana raquítica, enfezada, de mau semental e mau fruto. O problema que consiste torná-lo animal civilizado, mercê de sabenças, serviços públicos grátis e tudo o mais que constitui o crisol dos Estados, é secundário. A tudo prima ter de comer à farta e moradia higiénica e saudável. Para isso temos de expropriar os grandes meios de produção, dividir a terra arável para quem seja capaz de granjeá-la pelo seu braço e cultivar manu militari, se tanto for preciso, a terra baldia. Está provado que não há solo bom nem solo mau. Há solo adaptado ou inadaptado à cultura. Por outros termos, a terra em si não conta; o que conta é o húmus, e esse depende exclusivamente da preparação química a que é sujeito. A terra não é mais do que o meio em que estão depositados os princípios de que se nutre a planta, como o mar é fiel comissário, digamos, do plâncton de que se alimenta a fauna marinha.» (...)
«Com resolver o problema da terra, repartindo esta e aproveitando aquela de modo mais eficaz, teremos tocado noutro, não menos fundamental: o problema biológico da raça. A aldeia é a célula do agregado social. Aí se renova e tempera o capital humano. Toda a obra de regeneração tem de começar por ali. Ora a célula lusitana, além de pobre, gasta, enfermiça, é de natureza compósita; compósita de godo, de romano, de berbere, de cafre, que sei eu? Tem o defeito dos híbridos: falta de carácter. O que por aí ficou é o rebotalho. O rebotalho de muitas raças escumadas pela guerra. O invasor chegava e tratava de exterminar: primeiro quem lhe resistia; depois quem o contrariava em sua vontade discricionária e lhe disputava a fêmea. Para que o intruso gozasse da conquista, havia que proceder à eliminação do mais nobre, do mais forte, do mais varonil. Deste modo ninguém lhe contestaria a posse da terra, da casa e da mulher, em geral as três ambições do homem que fazia a guerra. Assim deve ter sucedido com a colonização romana, depois com a invasão dos bárbaros do Norte e não menos com a ocupação árabe. Destas três vagas, não falando de outras mais ou menos ante-históricas, subsistiu o que não teve ânimo para renhir ou emigrar, o débil e o tíbio, numa palavra. A selecção faz-se às avessas: perdurou o reles. Imagine-se agora que espécie de capital humano ficou desta filtragem malfazeja? O saloio que por aí se vê, insusceptível de progresso, inimigo da árvore, preguiçoso, sem ideal, sem beleza, é o exemplo eloquente. Compreende-se que a faixa de terra lusitana, delimitada a todo o longo pelo mar, fosse como o paredão onde vieram esbarrar e quebrar-se as hordas migratórias, inflectindo para a África a parte vigorosa e aventureira, agarrando-se ao chão o contingente de cansados, doentes, combalidos, que devia ser o mais numeroso. Da população autóctone, rarefacta em menos de doze séculos, no sentido do pior, uma três ou quatro vezes cruzada com os dejectos humanos doutras tantas invasões, saiu o português, que teve ainda a infelicidade de ser joeirado do melhor pela aventura dos descobrimentos e das conquistas do século XVI. Não nos iludamos nem tenhamos vergonha de o proclamar, pois os sucessos da nação se sobrepõem à veleidade do indivíduo: somos uma espécie compósita, heteróclita, ainda não decantada no que muitas raças tinham de pior, miuçalha, em suma.» (...)
«É preciso melhorar as condições, quer físicas quer morais, da existência do camponês. O camponês, além do resto, é o reprodutor por excelência. Como pode a raça ter saúde e beleza se estão viciadas as fontes da vida? A aldeia portuguesa é uma pocilga e os moradores chusma heterogénea de loucos, aleijados, enfermos, em decrescimento o quociente dos fortes e bem conformados. Não há localidade, por mais pequena que seja, que não tenha o seu jogral, que o é por direito de mentecapto, os seus estropiados e os seus mendigos. Estes têm a liberdade de cruzar-se a seu bel-prazer. Não é raro que um leproso case com mulher sã; não é menos frequente que um nascituro aleijado, mas o que se chama aleijado por defeito congénito de pai ou mãe, se siga outro nascituro nas mesmas condições, e, quando tudo aconselhava que se parasse a obra nefanda de atirar ao mundo com lázaros, a veia, fecunda posto que corrompida, continue a produzir, e sejam vários os monstros saídos do contubérnio derrancado. Há que instaurar com foros de lei coerciva e reguladora o eugenismo se se quer salvar a raça ou variedade peninsular que se convencionou chamar de lusitana, começando desde já a depurá-la, proibindo os casamentos consanguíneos, os casamentos entre indivíduos com tara ou tendência mórbida, indo até à esterilização. Em paládio dos miseráveis arvorou-se a Igreja desde sempre. É a sua grei por excelência. A miséria humana é-lhe tão sensível como o adubo às rosas. É o primeiro embaraço que se há-de encontrar no caminho da renovação que preconizamos. Além disso tudo, há que formar o cérebro do camponês de modo a que tenha dignidade humana; que se esqueça de que foi escravo; que tenha gosto em viver; que odeia a morte e que a morte lhe não seja refrigério. Tenho nos ouvidos a súplica da aldeã que morava à porta da minha casa paterna. Sempre que havia óbitos na povoação ou arredores, rompia nesta choradeira: Porque não se lembra a morte de mim? Para que o camponês seja gente, temos ainda que libertá-lo das garras do Fisco e da burocracia da vila que é a sua sanguessuga danada e, como o agro português é pobre, dar-lhe aquilo que seria barato, que constituiria a nossa alimentação abundante e sadia se houvesse método, consciência, visão económica: peixe. Os mares que banham as costas portuguesas estão a abarrotar de peixe. Porque não o pescam? Entre muitas razões por incúria, repugnância em explorar o que, tendo embora valor, não acarreta lucros explosivos, espírito de rapacidade de certos indivíduos ou grupos financeiros. Há portanto que a imensa ucharia. À falta de melhor ponha-se a Marinha de Guerra, a nossa briosa Armada, a pescar a sardinha e o carapau de modo a que o faminto do Saojo, do Jarmelo, da Gralheira tire o ventre de misérias.» (...)
«Aqui há tanto de doutrina fisiocrática como das leis de Licurgo ou dos preceitos do Deuteronómio. E não há menos do padre-nosso: o pão de cada dia nos dai hoje... Eu quero a terra explorada cientificamente a bem da comunidade. O português, mutatis mutantis, cultiva a terra como se fazia nos tempos do rei Vamba. Quanto ao mar, que ainda não foi dividido em courelas, belgas, herdades como o solo, e grande deve ter sido a pena do irmão burguês, quero que se torne o manancial da fartura dum povo esfomeado, que seja dalgum modo o que foi para os israelitas o solo pingue da Palestina, que transformou esses vagabundos do deserto, só pele, osso e cobiça, em habitantes sedentários, satisfeitos com a vida, criando arte, constituindo uma personalidade. É muito pedir? Então o oceano não há-de dar mais que duas sardinhas, uma que vai podre para o estrangeiro nas latas de conserva, outra que chega corchada, ardida, ou amarela da salmoira, à aldeia das serras? A seara portuguesa não há-de produzir mais que dez sementes e no pomar só hão-de amadurar pomos bichosos? A minha linguagem indignada, estou na ver, presta-se ao riso, mas nem por isso deixa de me assistir uma inexorável justiça. reformemos, reformemos, reformemos. Reformemos antes de mais nada o português físico, atacando o mal originário. É um triste. Reformemos, depois, o homem colono, ensinando-lhe a cultivar a terra e dando-lha. Reformemos ainda o homem social, ensinando-o a viver. Meteram-no mesma camisa do bicho que nasce dos Pirenéus para lá. Desde a escola tem o calcorrear do francês: o mesmo ensino, os mesmos processos, a mesma norma; depois, os mesmos deveres para com o Estado, o mesmo serviço militar, as mesmas leis de família, os mesmos lugares-comuns obrigacionais para com a sociedade, a pátria, a Igreja. Acaso o cérebro do português requer semelhante decalque? Não, três vezes não. O português, se descermos para o vulgo, é essencialmente mecanista. Não lhe peçam trabalhos de reflexão ou que exijam uma grande retentiva do espírito. Mas prima em tudo o que seja manual e obra de confecção. Como operário é um excelente ensamblador, admirável escultor de talha, pedreiro, operário de manufactura. Em contraposição é avesso a tudo que implique faculdade criadora. A educação do português tem de ser orientada no sentido do seu génio. Quanto ao espiritual de que deva impregnar-se a sua formação em harmonia com a índole, é de recomendar a reserva mais circunspecta. Em verdade, ficou no território a enxurrada de muitas raças, as quais professam religiões diferentes em seu credo e no conceito que tinham do mundo e seus fenómenos. Ficou uma vasa mística, viveiro prodigioso de rãs caoxando ao céu. Que havia a esperar de consciências religiosas mestiças se não inaptitude para o mistério e a contemplação, e daí incapacidade da verdadeira fé? Em algumas províncias e regiões o culto reduz-se a práticas externas em que se sentem enxertias estranhas, tais as províncias do Sul e o hinterland saloio. No Norte, druídico ou perdurantemente panteísta, não se invocam ainda, a par de Santa Bárbara e S. Jerónimo, os santos Deuses Imortais?! As religiões foram sempre um pormenor na vida do português, proselitista por conveniência comercial e política, mas sem entranhado alor da crença e abnegação do espírito. Que obras de idealidade verdadeiramente colectiva oferece a arte da nossa terra? Batalha e Jerónimos são obras do poder real gizadas por estrangeiros. Do povo são as capelinhas pelos montes, simples e ingénuas como larários a Adónis. As catedrais foram edificadas, não raras vezes, com as pedras das mesquitas, para atestar a vitória do cristão, ou erguidas por indústria do prelado ostentoso. Também não se sente na história da nacionalidade e sua projecção no mundo alma construtiva, irradiadora. A religião, sob este aspecto, é o pálio que vem esperar o vizo-rei e a missa que congrega a soldadesca na feitoria ou pagode avassalado. Nada de dentro. Santo António e Santa Isabel rainha são santos de pura exterioridade. S. Gonçalo consagra os antigos mitos fálicos. O português é refractário à adoração no que teve de místico e agora tem de eucarístico. Supor, porque houve o escudo de Cristo nas caravelas, que era visceralmente devoto e que toda a restauração em si, na sua personalidade, tenha de passar pelos Syllabus, errôneo.»
Aquilino Ribeiro, “O Arcanjo Negro”

domingo, novembro 18, 2012

O especialista


O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assumpto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes. [71A-61]
Fernando Pessoa, “Prosa de Álvaro de Campos”

quarta-feira, novembro 14, 2012

Solidaritaet


No seu livro intitulado “Colapso: ascensão e queda das sociedades humanas” (Gradiva, 2008), o biólogo Jared Diamond refere, entre as razões pelas quais as civilizações antigas morreram, a incapacidade das elites e dos governos respetivos para compreenderem o processo de desmoronamento em curso ou, quando tomaram consciência dele, a incapacidade de o evitar, devido a uma atitude de defesa “de curto prazo” dos seus privilégios. Arnold J. Toynbee, ilustre filósofo da História, advertiu: “As civilizações morrem assassinadas, suicidam-se”. Só nos resta desejar que não seja simplesmente a isso que estamos a assistir.
Paul Jorion, Le Monde, 08.10.2012 [Courrier Internacional, n.º 201, Novembro 2012]

quarta-feira, outubro 31, 2012

Obra de muita gente...


se eu me for embora, se eu parar, se eu morrer, ou desaparecer, há gente aqui, neste Partido, que é capaz de andar com ele para a frente. Porque um homem que fez uma obra que só ele é capaz de continuar ainda não fez nada. Uma obra vale, na medida que é obra de muita gente.
Amílcar Cabral, “Nacionalismo e Cultura”

sexta-feira, outubro 26, 2012

ibérico + sefardita + berbere


Na Península Ibérica, em média, os homens apresentam 69,6% de ascendência ibérica («nativa»), 19,8% sefardita e 10,6% berbere. No Norte de Portugal, essas proporções são, respectivamente, de 64,7%, 23,6% e 11,8%; no Sul, de 47,6%, 36,3% e 16,1%
Rui Ramos (Coordenador), Nuno Gonçalo Monteiro, Bernardo Vasconcelos e Sousa, “História de Portugal”

sábado, outubro 13, 2012

Lagarada


meia-noite no lagar.
De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num movimento em que havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam máscula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreno, do sousão, da tinta-carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada tacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo, rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia.
Miguel Torga, “Vindima” (1945)

terça-feira, outubro 02, 2012

Azémola!


Azémola de moleiro, com mais manha que o amo, para avançar havia de escolher o piso, ladeando os desníveis do terreno, e porfiando a todo o transe na verdade matemática de que mais segura que a recta é a linha curva.
E se eu tinha descuido em tangê-la, ternamente se ensimesmava em contemplação, detendo-se de orelhas em riste para um campo que verdejasse, ou pondo-se a tosar os jactos de junquilhos, que a mão graciosa do Criador plantara pelos andurriais para os nossos humildes irmãos, segundo a lírica franciscana. Outras vezes, suspendia-se a calcular a operação duma subida, até que eu incentivasse com um irosíssimo: anda, azémola do demo!
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”

quarta-feira, setembro 19, 2012

O gosto de ser livre...


Argel, 14 de Setembro de 1953 – As duas bofetadas que um polícia francês acaba de dar na minha frente a um nativo vagabundo hão-de custar caro à França. Até me pareceu ver o céu claro da Argélia abrir-se ligeiramente, e Maomé tomar nota do caso no seu canhenho de represálias.
Este cartesianismo europeu não se convence de que toda a forma de colonialismo é imoral, seja ela a mais progressiva materialmente e a mais codificada socialmente. De que à universal e tentacular presença civilizadora do cristianismo falta sempre um dos lados do diálogo: a opinião do indígena. Que pensa ele do benefício? Que disse o Inca no Peru, o Asteca no México, o Negro em Angola? Que diz o Árabe, aqui? Interessa-lhe mais a penitência da Cruz, ou a volúpia do Crescente? Prefere ver as formas, ou adivinhá-las? Claramente que nunca passou pela cabeça dos apóstolos fazer a pergunta. Armados até aos dentes e senhores duma técnica manual e mental demoníaca, julgam ocioso fazê-la. Mas todo o submetido responde, mais cedo ou mais tarde, mesmo sem ser interrogado. Embora a séculos da agressão, os Incas estão a responder, e os Astecas também, e os Negros também. E não me parece que o mundo islâmico se cale, túrgido como o vejo, com todas as energias represadas nas dobras do albornoz.
Na voz salmodiada dos velhos muezins, que desce dos minaretes e repercute multiplicada e rejuvenescida nas gargantas adolescentes, no silêncio duma casbá onde a alma forasteira penetra como lâmina em bainha sem fundo, no bulício das feiras que a miséria circunda dum halo de comício, o espírito ocidental suspicaz surpreende a orça incoercível duma religião a que já nada de autêntico temos a opor, e o ódio de uma vontade humana que nunca se concebeu esmagada. Mais do que o poder dos engenhos de repressão, do que as seduções dum progresso que atropela as essências, vale a obstinação dum versículo que se estampa nos olhos, depois de ser carícia nos lábios e friso caligráfico nas mesquitas. E mais ainda do que ele, vale a liberdade. O gosto de ser livre diante do próprio deus.
Miguel Torga, “Diário VII”

sexta-feira, setembro 07, 2012

Sobre a tradução


- O que há de poético na obra de Cervantes – observei, como se estivesse a fazer uma conferência – é quase intransmissível noutra língua. Trata-se, de resto, de um fenómeno literário que abrange qualquer género de grande poesia e de determinado tipo de prosa. Não quer dizer que devemos ignorar Kafka por não saber checo, mas há autores que constroem o clima com a própria língua e existe uma grande desvalorização na passagem para outro idioma. Ler James Joyce sem ser na língua original é perder trinta por cento nas entrelinhas. Ler Rimbaud é como perder qualquer coisa como cinquenta por cento.
Dennis McShade, “Requiem para D. Quixote”

sexta-feira, agosto 31, 2012

Ao escrever...


Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre.
Ruy Belo, “Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto – Transporte no Tempo” (1973)

segunda-feira, agosto 27, 2012

Há 40 anos, Allende...


Estamos a assistir a um conflito frontal entre as grandes empresas transnacionais e os Estados. Estes últimos vêem-se parasitados nas suas decisões essenciais, políticas, militares, económicas, por organizações mundiais que não dependem de nenhum Estado e não respondem pelos seus actos perante nenhum Parlamento nem perante nenhuma instituição que seja garante do interesse colectivo. Numa palavra, é toda a estrutura política do mundo que está a ser minada.
Salvador Allende, no discurso que pronunciou na Assembleia Geral das Nações Unidas em 4 de Dezembro de 1972

quinta-feira, agosto 23, 2012

Como os livros chegam até nós...


De vez em quando, faço um pequeno exercício. Levanto-me do sofá, olho para as estantes da sala e tento lembrar-me do que me levou até um determinado livro, ou do que o trouxe até mim. Há romances enviados pelas editoras; volumes de poesia comprados em livraria independentes (algumas já falidas); literatura estrangeira que chegou um dia pelo correio, embrulhada no cartão da Amazon. Mas o que me levou concretamente a escolher aquela obra, aquele autor? Na maior parte dos casos, a resposta é óbvia. Escolhi-os porque sim. Porque um clássico é um clássico. Porque dos escritores preferidos queremos sempre a obra completa. Porque alguém nos diz à mesa do café: «Tens mesmo de ler isto.» Mas também há livros que não sei de onde vieram, por que raio acabaram cá em casa, no meio dos outros. Alguém mos emprestou? Não faço ideia. Quando dou por eles, têm o ar comprometido dos passageiros clandestinos.
José Mário Silva, “Ler – Livros e Leitores” n.º 114, Junho 2012

domingo, agosto 19, 2012

Mariposo


«Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro de milho e três rasas de feijão, que é o comum para a matença de uma pessoa que tem os dentes todos, e der à tosquia dez ovelhas, que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos, que te venha buscar. Antes, nem num andor.»
Aquilino Ribeiro, “Volfrâmio”

sábado, agosto 11, 2012

Do camponês


Coimbra, 12 de Dezembro de 1949 – Encaixar o insucesso e retomar a rabiça com redobrada energia – eis a grande força e a grande lição do camponês. A vida para ele não é tanto colher, como semear. A lançar à terra energia viva, sonho sem joio, é que a sua humanidade se justifica. O resto é com os elementos, que ora cobrem a seara da bênção dum sol fecundante, ora a percorrem na estúpida fúria da destruição.
Miguel Torga, “Diário V”

sábado, julho 28, 2012

Jagudi


O jagudi é uma ave curiosa. A parecer feita de várias outras aves. Bico recurvado de papagaio. Olhos vivos de falcão. Cabeça de galo a que amputaram a crista. Pescoço enrugado de peru em véspera de Natal. Corpo avantajado de avestruz, de penas sem brilho e de cor indefinida. Pernilongo como um flamingo, mas com aceradas garras de águia imperial. Anda no chão como se fosse um marinheiro nunca vindo a terra. Em contrapartida, na Guiné é rei dos céus, onde paira, elegante, especialmente enquanto o sol não transforma a manhã amena no inferno do meio-dia. É o mais eficiente dos funcionários municipais. Ocupa-se da limpeza da via pública e não há ponta de lixo que não atraia a sua visão de excepção. Lixo por ele removido, diligentemente, e levado para o ninho, dando às ruas e jardins o ar asseado da manhã.
Magalhães Pinto, “Os Heróis e o Medo”

sábado, julho 14, 2012

O vinho dos deuses





Com um gesto lento, virou o copo e deitou as últimas gotas de vinho na terra seca, que as bebeu avidamente. Era o gesto antigo para aplacar os deuses, e que no o Douro ninguém ousava esquecer nas noites ameaçadoras, quando o céu obscurecia por cima dos vinhedos.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”

quinta-feira, julho 12, 2012

sábado, junho 30, 2012

Diz o antropólogo ao economista


Aquilo que o antropólogo recorda ao economista, caso ele venha a esquecê-lo, é que o homem não é pura e simplesmente incitado a produzir cada vez mais. Ele procura também, no trabalho, satisfazer aspirações que estão enraizadas na sua natureza profunda: realizar-se como indivíduo.
Claude Lévi-Strauss (1980-2009), “A Antropologia face aos Problemas do Mundo Moderno”

domingo, junho 17, 2012

Pena leve

O curioso – e peço-lhe que não veja no que vou dizer alusão à sua pessoa – é que não há ninguém que se não julgue habilitado a manejar a pena. Porquê? Tenho-me perguntado muitas vezes. Provavelmente devido ao pouco peso do objecto e ainda à passividade do papel em branco. Não será isso? Admito também que se escrevam cartas à prima, cartas que a deixem babadinha de todo, e que resulte daí, para quem as escreve, bem entendido, não parecer milagre nenhum compor a Arte de Amar, de Ovídio.
Aquilino Ribeiro, “Lápides Partidas”

quinta-feira, junho 07, 2012

Altar de Cabrões

Altar de Cabrões, 9 de Agosto de 1944 – Estou a mil e quinhentos e trinta e seis metros, perto do céu, a ver o Barroso, o Marão, a Peneda, a serra Amarela e o Lindoso. Estou sentado num marco que separa Portugal de Espanha, mas o sítio chama-se Altar de Cabrões e foi, como se vê, o olimpo de majestades cornudas, a ara de alguns daqueles sagrados deuses lusitanos, de que só restam nomes e cascos. Cada vez sei menos de rezas e de santos. Mas quando pressinto pegada de velho Endovélico, tenho logo vontade de me prosternar e benzer. O catolicismo, sem o Cristo querer, encheu este mundo de cruzes e água benta. Ora estes nossos patrícios deuses de chifres eram portadores de uma virilidade mágica, que não nega nem degrada a natureza. Nada de agonias lentas em madeiros de cedro. Água, frutos, sol, e uma divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas.
Miguel Torga, “Diário III”