E aqui te declaro: boa, boa fortuna são os braços rijos e a alma escorreita. A outra, de fazendas e capitais, também conta, não digo que não. Mas para a gente apreciar quanto vale, saber saboreá-la como limão espremido na água quando se tem sede, saber defendê-la dos baldões da sorte, forçoso é que a tenhamos amassado por nossas mãos. Essas que desabam das nuvens, vêm por um tio da América, a lotaria ou a vermelhinha, arrenego delas. O azar as deu, o azar as leva. Sou tão ignorante como tu, mas capacito-me que trazem consigo mandinga, qualquer princípio inflamável e, às duas por três, ardem nas mãos, nos cofres, no que estejam empregadas, para não quedar mais do que cinzas e fumo no ar.
Aquilino Ribeiro, “A Batalha Sem Fim” (1930-1931)
Citações... Acontece em leituras deparar com a frase perfeita, ou um pensamento elaborado tal qual o sentimos e gostaríamos de escrever, ou o espanto da descoberta de um conceito com o qual passamos a concordar plenamente, ou de uma ideia marcada pela incongruência do tempo, etc! É disso que se trata este blog. Não irei escrever nada de meu mas irei citar (apropriar-me) o que é de outros e que a outros pertence.
domingo, novembro 27, 2011
domingo, novembro 20, 2011
Quer a razão queira, quer não...
S. Martinho de Anta, 24 de Setembro de 1940 – Vindima. Um cesto de uvas, ao todo! O míldio, a chuva e a geada reduziram oito pipas a meio almude. Meu Pai fala nisto, e fica branco. Mas estejam os elementos e os micróbios certos do seguinte: é que o velho se vai atirar à tesoura, à poda, à erguida, à cava, à redra, ao enxofre e ao sulfato como se as vinhas tivessem dado vinho para as bodas de Caná. Quando se é lavrador como o meu Pai é, o corpo acaba por cavar, quer a razão queira, quer não.
Miguel Torga, “Diário I”
sexta-feira, novembro 18, 2011
Chás e endireitas
Endireita dos ossos era o ZÉ PINTO, da mesma família do capador. Casou para a Vila da Ponte e ganhava mais segadores para o centeio como endireita dos ossos, que os cunhados todos a ganhar a geira. Como não cobrava dinheiro pelo seu artesanato, tudo fazia de graça e a rir, os clientes gemiam e riam ao mesmo tempo, porque ele contava-lhes umas histórias da imaginação que os pacientes tinham vontade de rir. Só dizia à mulher: Ó Maria traz cá uma trança de linho e uma clara de um ovo... e enquanto localizava a quebradura dos ossos distraía o doente de tal maneira que nem dava pela cura, só dizia um AI.
E de CHÁS sabia ele, que tinha um velho alfarrábio com todas as doenças das mais variadas maleitas e os remédios de CHÁ para todas elas.
Padre Manuel Alves, “Parafita – Foral concedido pelo Rei de Portugal D. Afonso III (31 – Maio – 1298) – Análise Histórica –“
domingo, novembro 13, 2011
Europa vs. América
Considere-se uma chávena de café americano. Em qualquer lado se encontra. Qualquer um pode prepará-la. É barata – e as segundas doses são gratuitas. Dado que, em grande parte, não tem sabor, pode diluir-se à vontade. O que lhe falta em sedução é compensado pelo tamanho. É o método mais democrático já inventado para introduzir cafeína em seres humanos. Agora vejamos uma chávena de espresso italiano. Requer equipamento caro. A relação preço-qualidade é escandalosa, dando a entender indiferença pelo consumidor e ignorância do mercado. A satisfação estética da bebida supera de longe o seu efeito metabólico. Não é uma bebida, é um artefacto.
Tony Judt, “O Século XX Esquecido – lugares e memórias”
domingo, outubro 30, 2011
Dũa austera, apagada e vil tristeza
Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza.
Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas” – canto X, 145
sexta-feira, outubro 21, 2011
Dolorosas infâmias...
As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.
Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regimes, com as tiranias, são maiores ainda. (...)
As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias»
Eça de Queirós, in “Distrito de Évora”, 1867
segunda-feira, outubro 17, 2011
Arte Sacra
O clero português, mesmo aquele que sai dos seminários todo cheio de tomismo e liturgia, em arte é de uma ignorância imensurável. Vá o meu querido doutor por essas igrejas fora. As imagens do Sagrado Coração de Jesus e do Coração de Maria, de Nossa Senhora de Lurdes, do Santo Condestável e da Nossa Senhora de la Salette, duma pulcritude reles, desbancaram as velhas imagens cheias de séculos, góticas tantas vezes. Por outra, como estas parecem feias, sem beleza celestial, entregam-nos ao imaginário, que as desbasta, alinda, ou simplesmente avilta sob a encarnação acatitada. Os templos românicos, que abundam por esta província, foram demolidos para dar lugar à igreja alta, sem graça nem estilo, género telheiro de fábrica. Os padres queimam os velhos paramentos, brocados do Renascimento, chamalotes que são maravilhas de tecelagem, porque estão velhos! Por modos autoriza-os o ritual.
Aquilino Ribeiro, “O Homem Que Matou o Diabo”
segunda-feira, outubro 10, 2011
Filosofei...
Coimbra, 15 de Abril de 1943 – Era preciso dizer-lhe que o fumo lhe fazia mal, lhe aumentava a tosse e o pigarro. Nos livros, pelo menos, vinha assim. Mas filosofei:
- Olhe, a vida, sem uma pitada de risco, não presta. Eu cá sou por um diabo que se esconda no bolso do colete, enrolado numa mortalha, e nos atente para que lhe cheguemos um fósforo ao rabo de vez em quando. Intoxica, mas é um regalo vê-lo depois desfeito em cinza, vencido à custa de um segundo da nossa vida.
Miguel Torga, “Diário II”
quinta-feira, outubro 06, 2011
...e disto nunca se viu castigo!
Senhor, os reis são vassalos de Deus; e se os reis não castigam os seus vassalos, castiga Deus os seus. A causa principal de não se perpetuarem as coroas nas mesmas nações e famílias é a injustiça, ou são as injustiças, como diz a Escritura Sagrada; e entre todas as injustiças, nenhumas clamam tanto ao céu, como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres, e as que não pagam o suor aos que trabalham: e estes são e foram sempre os dois pecados deste Estado, que ainda têm tantos defensores.
A perda do Senhor Rei D. Sebastião em África, e o cativeiro de sessenta anos que se seguiu a todo o reino, notaram os autores daquele tempo que foi castigo dos cativeiros que na costa da mesma África começaram a fazer os nossos primeiros conquistadores, com tão pouca justiça como a que se lê nas mesmas histórias.
As injustiças e tiranias que se têm executado nos naturais desta terra excedem muito às que se fizeram na África. Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram, por esta costa e sertões, mais de dois milhões de índios, e mais de quinhentas povoações como grandes cidades; e disto nunca se viu castigo.
Padre António Vieira, “Carta ao Rei D. Afonso VI” (1655)
sexta-feira, setembro 30, 2011
Censurado...
A cada cinco segundos, uma criança morre de fome. Não há dinheiro porque este é usado para salvar bancos.
Jean Ziegler, antigo relator especial do Concelho de Direitos Humanos na ONU para o direito à alimentação [Convidado a proferir um discurso durante a inauguração do Festival de Salzburgo, foi dispensado à última hora. Veio a publicar o seu discurso numa brochura.]
terça-feira, setembro 27, 2011
Hábitos
Era outro hábito: quando estava doente, mergulhava num romance de Alexandre Dumas pai: possuía as obras completas deste, numa velha edição popular de páginas amarelecidas e gravuras românticas, e bastava o cheiro que emanava desses livros para se recordar de todas as pequenas doenças da sua vida.
Georges Simenon, “Maigret e o Seu Morto”
sexta-feira, setembro 23, 2011
O kriol guineense
O crioulo da Guiné teve origem na língua portuguesa falada entre os séculos XV e XVII. Tornado idioma veicular das diversas populações da Guiné-Bissau, nele se misturam e confundem a vida e a memória de uma infinidade de locutores-transmissores, num espaço onde todos põem tudo e onde a escrita, por enquanto, não tem lugar.
Uma língua em gestação persegue a economia. Mas uma língua em liberdade não tem pressa e deixa que o excesso se espraie em todas as direcções, já que a eficácia da comunicação é assegurada por instâncias não linguísticas. Ao lado e antes das palavras, está a plena proximidade que não permite equívocos nem produz ruídos: o calor, a mímica, o contacto físico fazem soçobrar as regras já erigidas noutros lugares. (...)
O conto crioulo é um milagre sempre recomeçado. Miragem dos grandes e dos pequenos, realidade para todos e apesar de tudo, ele transforma o verbo em júbilo pela magia de uma língua mutante, feita de raízes africanas e europeias e de palavras mestiças.
Filho da mistura, o conto crioulo faz viver a palavra e vive da palavra que anima personagens familiares. Sejam eles Caçador, Feiticeiro, Combossa, Pauteiro, Bajuda submissa ou rebelde, estes arquétipos articulam-se segundo esquemas dinâmicos.
Teresa Montenegro e Carlos de Morais, “Uori – stórias de lama e philosophia”, Ku Si Mon editora
sábado, setembro 17, 2011
Génesis do vinho
Segundo o Génesis, Cap. IX, foi Noé o primeiro a plantar a vinha e a embriagar-se com o vinho.
Hernâni Cidade, notas a “Os Lusíadas” de Luís de Camões, 75,6 Canto VII
domingo, setembro 11, 2011
Dos artistas
Buarcos, 13 de Junho de 1943 – Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome orgânica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do espírito. Tisnados de saúde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doença, olho-os também. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes dá razão. Mas de mesma maneira que eles, sem que ninguém lhes peça sardinha, se metem às ondas, também eu, sem que ninguém me peça poesia, me lanço a este mar da criação. Há uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: é a sua consciência de que são tão fundamentais à vida como o pão. Podem acusá-los de servirem esta ou aquela classe. Pura calúnia. É o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo não pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e não as podem ver, a traição não é dela, mas dos olhos, ou de quem os mantém cegos e incultos.
Miguel Torga, “Diário III”
Miguel Torga, “Diário III”
terça-feira, setembro 06, 2011
De Lamego
- Com grande consolo, depois de ver uns países tão raivosos de progressos, vim topar Lamego não só não eivado da noção do tempo mas refractário de todo à febre moderna. Cheguei ao correio, e os funcionários ressonavam, com os carimbos ao lado, sobre os maços da correspondência, trazida a toda a pressa nos comboios rápidos e transatlânticos. Palavra! só depois do meu regresso pude gozar este espectáculo singular de ver à luz do dia a vida a viver!
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”
quarta-feira, agosto 31, 2011
Sobre um país de brandos costumes...
Os pretos em África têm de ser dirigidos e enquadrados por europeus mas são indispensáveis como auxiliares destes
Marcelo Caetano, “Os Nativos na Economia Africana” (1954)
domingo, agosto 21, 2011
Um café!
Certo dia, explodiu numa grande danação contra o neto, que à viva força teimava que ela havia de beber café. «Posso lá com tal bebida!», gritou-lhe o Costa Cardoso. «Uma planta que só nasce em zonas doentias da África e do Brasil, onde se morre de febres medonhas! E o grão? Quantos trabalhos para trazê-lo, ao lombo, sob o fogo do Sol, até à Costa? Quantos trabalhos para embarcá-lo, atravessar as tempestades do oceano, desembarcá-lo, torrá-lo, moê-lo. Pois, após tantas canseiras, tantas, mal mergulham o pó na cafeteira, zás, deitam-no fora! E essa mixórdia deixa a água tão suja e amarga que só com açúcar conseguem bebê-lo! Não! Nunca hei-de tocar-lhe sequer!»
Manuel da Fonseca, “À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café”
Manuel da Fonseca, “À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café”
quarta-feira, agosto 17, 2011
Anagogia!
Instruir é juntar, de fora, alguma coisa ao que já foi dado, como quem reboca parede depois de ser construída e, num refinamento, de estética ou de protecção, passa ainda sobre o reboco seu estuque e sua tinta. Na instrução, considera-se que o menino, ou grande, é parede mal aparelhada e se lhe vai juntando, conforme os recursos, o que for necessário para que se torne mais útil na sua função de parede. Na instrução sou trolha: sei o que quero, de que argamassa disponho ou qual a cal que me convém: estou tranquilo em meu andaime e marco a cada dia a obra feita.
Com a educação, tudo se passa ao contrário: se no instruir sou trolha, no educar, e bem o sabemos já desde o tempo do velho Sócrates, sou eu parteiro. Tenho de ter ciência naturalmente; mas o que tem de esplender cá fora já se encontra lá dentro, e as minhas qualidades principais têm de ser a paciência e o usar de todos os meios que possam fazer dá-lo à luz sem traumatismos nem mutilações. Para o educador, a criança já está interiormente pronta, tal como será o adulto ideal, mas trata-se de a ir colocando em todas as circunstâncias propícias para que se desenvolva, o que significa, como se sabe, que se desembrulhe, se desembarace do que a impede de ser o que é. Quem instrui ataca; quem educa espera. Quem instrui pode fazer o que quer, como um escultor martela estátua; vai o educador pelos caminhos do criador do bicho-da-seda: dá-lhes as folhas certas na altura certa, depois os raminhos secos de encasular, depois os panos da postura, mas a comparação por aqui pára: não mata nunca o bicho no casulo; o que lhe interessa é borboleta voando livre, em sua ruflante brancura; quem instrui apenas mais interessa a seda que o organismo vivo.
Com muita razão se compendiou a ciência do instruir na palavra pedagogia, que significa, na ua etimologia grega, o empurrar de meninos; empurramo-los para o ler, o escrever e o contar, mesmo que o não queiram, já que é a escola obrigatória, até mais obrigatória que a vida, pois até com fome, frio e mau trato se tem de lhe ir à frequência; mais tarde o empurramos para o liceu, se é de boa classe, para os cursos técnicos, se destinado a servir, portanto ao fim de um está a Universidade, ao fim dos outros a oficina, que se nem pensem em juntar, alternando os períodos, por ser ideia, ao que parece, subversiva. Empurra-se o menino, empurra-se o adolescente, empurra-se o adulto: somos todos uns excelentes pedagogos: empurramos.
Mas vai agora surgindo outra atitude, marcada por outra palavra, a de anagogia, ou acto de levar para cima ou de fazer subir; aqui ninguém empurra ninguém: se a perna se mostrou firme e ágil, e só os anormais não a têm assim, vai-se pondo degrau após degrau, até que atinja a maior altura possível, segundo a vocação e as forças que haja em cada um, com um primeiro degrau ao alcance de todos e não apenas dos privilegiados, e sempre um último degrau, pois pouco sabemos dos limites humanos e das fronteiras do mundo. O que temos tido até agora, sob o nome de pedagogia, é de facto, e geralmente violenta, até com o professor batendo e castigando, uma catagogia ou condução para baixo, para muito baixo do que permitiria e sofreria nossa natureza humana; somos instruídos para não crermos em nós, para nos submetermos, para obedecer, não para criar, que foi ao que viemos; venha, pois, a anagogia, o caminho para cima, o mais depressa possível.
Instruir sem educar pode ser a mais perigosa das empresas em que se empenha um homem ou um país, pois que vai pôr instrumentos de vida ou morte nas mãos de quem, se não ignaro por nascimento, ignaro se tornou porque não houve a tal anagogia; toda a vida se transforma em automóvel guiado por inconsciente, coisa que, ao que parece, se multiplica. E aqui temos que nos lançar com todo o nosso esforço: se é fácil abrir escolas ou pode ser fácil mandar à escola, de nada servirá fazê-lo se, ao mesmo tempo, se não fizer educação: a qual, como é simples concluir do que se disse atrás, são condições essenciais a liberdade económica, abrindo o campo, a oficina e a cooperativa, escola em si própria, antes de abrir a sala de aula, a liberdade de informação e de expressão, abolindo tudo o que a possa limitar, mesmo no que mais pareça necessário, já que os prejuízos que vêm da fala franca são sempre menores que os que resultam do silêncio forçado; a liberdade de pensamento, no domínio político, no domínio metafísico, no domínio religiosos, que continuo a ver como o mais importante, mas possível e desejável fora das religiões institucionais tanto como dentro delas; aqui, na liberdade de pensamento, temos a condição fundamental de ser homem: e tão raramente, tão fugazmente, a temos tido na história da Humanidade, que bem conviria ser esse o campo em que, resolvidos os problemas materiais de todos, concentrássemos o nosso sonhar, o nosso querer, o nosso agir.
Agostinho da Silva, «Composição do Brasil», Vida Mundial, n.º 1711, 24 de Março de 1972
segunda-feira, agosto 08, 2011
Dos suíços...
Pensando na calma, na fleuma, no civismo dos Suíços, que por vezes toca as raias da mania, lembro-me agora duma frase da marquesa de Quintanar, que acabava de passar seis meses na Suíça, no sanatório, com a filha doente. De regresso a Madrid, ao descer do avião, explodiu:
- Caramba! Já se pode cuspir no chão!
E tirando da algibeira uns poucos papéis de rebuçados amarrotados, espalhou-os aos quatro ventos, num gesto vingativo que muito a aliviou.
Fernanda de Castro, “Ao Fim da Memória II 1939 – sexta-feira, agosto 05, 2011
Velocidades
Coimbra, 26 de Junho de 1944 – Aflitiva a impaciência que começo a sentir nos comboios. Cada paragem, cada abrandamento de velocidade dão-me cabo dos nervos. Desespero-me por levar sete horas de Coimbra a Lisboa, quando eu sei que já foram precisos dias para percorrer tal trajecto. Mas não há História que me console. Ponho-me a pensar assim: nesse tempo a coisa era com cavalos, e uma solidariedade de suor, um limite muscular que a nossa própria animalidade media, ajudavam a respeitar o ritmo fisiológico do movimento. Rebentar montadas era um recurso extremo, que não se fazia sem dor. A espora que feria a ilharga tingia-se de sangue, mesmo que fosse de oiro. De maneira que o cilício que picava a besta picava o homem. Mas já que o progresso se riu da mula chocalheira e da diligência, então quero a mecânica a mil à hora, a velocidade levada até onde a corda der. Entregou-se o caminho não a cascos caseiros e familiares, mas a eixos de aço. Haja, por conseguinte, um chicote de lume a fazer voar as rodas.
E não será um sentimento idêntico ao meu que gera este delírio da velocidade, esta corrida cada vez mais desesperada do nosso tempo? Quebrou-se a amarra do navio; e os tripulantes, agora, o que querem é um vendaval que os leve o mais depressa possível a qualquer porto ou à morte.Miguel Torga, “Diário III”
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