sexta-feira, setembro 07, 2012

Sobre a tradução


- O que há de poético na obra de Cervantes – observei, como se estivesse a fazer uma conferência – é quase intransmissível noutra língua. Trata-se, de resto, de um fenómeno literário que abrange qualquer género de grande poesia e de determinado tipo de prosa. Não quer dizer que devemos ignorar Kafka por não saber checo, mas há autores que constroem o clima com a própria língua e existe uma grande desvalorização na passagem para outro idioma. Ler James Joyce sem ser na língua original é perder trinta por cento nas entrelinhas. Ler Rimbaud é como perder qualquer coisa como cinquenta por cento.
Dennis McShade, “Requiem para D. Quixote”

sexta-feira, agosto 31, 2012

Ao escrever...


Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre.
Ruy Belo, “Breve Programa para Uma Iniciação ao Canto – Transporte no Tempo” (1973)

segunda-feira, agosto 27, 2012

Há 40 anos, Allende...


Estamos a assistir a um conflito frontal entre as grandes empresas transnacionais e os Estados. Estes últimos vêem-se parasitados nas suas decisões essenciais, políticas, militares, económicas, por organizações mundiais que não dependem de nenhum Estado e não respondem pelos seus actos perante nenhum Parlamento nem perante nenhuma instituição que seja garante do interesse colectivo. Numa palavra, é toda a estrutura política do mundo que está a ser minada.
Salvador Allende, no discurso que pronunciou na Assembleia Geral das Nações Unidas em 4 de Dezembro de 1972

quinta-feira, agosto 23, 2012

Como os livros chegam até nós...


De vez em quando, faço um pequeno exercício. Levanto-me do sofá, olho para as estantes da sala e tento lembrar-me do que me levou até um determinado livro, ou do que o trouxe até mim. Há romances enviados pelas editoras; volumes de poesia comprados em livraria independentes (algumas já falidas); literatura estrangeira que chegou um dia pelo correio, embrulhada no cartão da Amazon. Mas o que me levou concretamente a escolher aquela obra, aquele autor? Na maior parte dos casos, a resposta é óbvia. Escolhi-os porque sim. Porque um clássico é um clássico. Porque dos escritores preferidos queremos sempre a obra completa. Porque alguém nos diz à mesa do café: «Tens mesmo de ler isto.» Mas também há livros que não sei de onde vieram, por que raio acabaram cá em casa, no meio dos outros. Alguém mos emprestou? Não faço ideia. Quando dou por eles, têm o ar comprometido dos passageiros clandestinos.
José Mário Silva, “Ler – Livros e Leitores” n.º 114, Junho 2012

domingo, agosto 19, 2012

Mariposo


«Quando o mariposo lavrar quarenta pousadas e colher um carro de milho e três rasas de feijão, que é o comum para a matença de uma pessoa que tem os dentes todos, e der à tosquia dez ovelhas, que lhe dêem lã para uma capucha e dois pares de coturnos, que te venha buscar. Antes, nem num andor.»
Aquilino Ribeiro, “Volfrâmio”

sábado, agosto 11, 2012

Do camponês


Coimbra, 12 de Dezembro de 1949 – Encaixar o insucesso e retomar a rabiça com redobrada energia – eis a grande força e a grande lição do camponês. A vida para ele não é tanto colher, como semear. A lançar à terra energia viva, sonho sem joio, é que a sua humanidade se justifica. O resto é com os elementos, que ora cobrem a seara da bênção dum sol fecundante, ora a percorrem na estúpida fúria da destruição.
Miguel Torga, “Diário V”

sábado, julho 28, 2012

Jagudi


O jagudi é uma ave curiosa. A parecer feita de várias outras aves. Bico recurvado de papagaio. Olhos vivos de falcão. Cabeça de galo a que amputaram a crista. Pescoço enrugado de peru em véspera de Natal. Corpo avantajado de avestruz, de penas sem brilho e de cor indefinida. Pernilongo como um flamingo, mas com aceradas garras de águia imperial. Anda no chão como se fosse um marinheiro nunca vindo a terra. Em contrapartida, na Guiné é rei dos céus, onde paira, elegante, especialmente enquanto o sol não transforma a manhã amena no inferno do meio-dia. É o mais eficiente dos funcionários municipais. Ocupa-se da limpeza da via pública e não há ponta de lixo que não atraia a sua visão de excepção. Lixo por ele removido, diligentemente, e levado para o ninho, dando às ruas e jardins o ar asseado da manhã.
Magalhães Pinto, “Os Heróis e o Medo”

sábado, julho 14, 2012

O vinho dos deuses





Com um gesto lento, virou o copo e deitou as últimas gotas de vinho na terra seca, que as bebeu avidamente. Era o gesto antigo para aplacar os deuses, e que no o Douro ninguém ousava esquecer nas noites ameaçadoras, quando o céu obscurecia por cima dos vinhedos.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”

quinta-feira, julho 12, 2012

sábado, junho 30, 2012

Diz o antropólogo ao economista


Aquilo que o antropólogo recorda ao economista, caso ele venha a esquecê-lo, é que o homem não é pura e simplesmente incitado a produzir cada vez mais. Ele procura também, no trabalho, satisfazer aspirações que estão enraizadas na sua natureza profunda: realizar-se como indivíduo.
Claude Lévi-Strauss (1980-2009), “A Antropologia face aos Problemas do Mundo Moderno”

domingo, junho 17, 2012

Pena leve

O curioso – e peço-lhe que não veja no que vou dizer alusão à sua pessoa – é que não há ninguém que se não julgue habilitado a manejar a pena. Porquê? Tenho-me perguntado muitas vezes. Provavelmente devido ao pouco peso do objecto e ainda à passividade do papel em branco. Não será isso? Admito também que se escrevam cartas à prima, cartas que a deixem babadinha de todo, e que resulte daí, para quem as escreve, bem entendido, não parecer milagre nenhum compor a Arte de Amar, de Ovídio.
Aquilino Ribeiro, “Lápides Partidas”

quinta-feira, junho 07, 2012

Altar de Cabrões

Altar de Cabrões, 9 de Agosto de 1944 – Estou a mil e quinhentos e trinta e seis metros, perto do céu, a ver o Barroso, o Marão, a Peneda, a serra Amarela e o Lindoso. Estou sentado num marco que separa Portugal de Espanha, mas o sítio chama-se Altar de Cabrões e foi, como se vê, o olimpo de majestades cornudas, a ara de alguns daqueles sagrados deuses lusitanos, de que só restam nomes e cascos. Cada vez sei menos de rezas e de santos. Mas quando pressinto pegada de velho Endovélico, tenho logo vontade de me prosternar e benzer. O catolicismo, sem o Cristo querer, encheu este mundo de cruzes e água benta. Ora estes nossos patrícios deuses de chifres eram portadores de uma virilidade mágica, que não nega nem degrada a natureza. Nada de agonias lentas em madeiros de cedro. Água, frutos, sol, e uma divindade fundamentada na verdade feiticeira das coisas.
Miguel Torga, “Diário III”

sábado, junho 02, 2012

Tripeiros


Os naturais do Porto são conhecidos por “tripeiros”, designação que se deve ao sacrifício que fizeram para apoiar a preparação da armada para a conquista de Ceuta em 1415. Diz-se que ofereceram aos expedicionários toda a carne disponível ficando apenas com as tripas.
Suzanne Chantal, “Ervamoira”

sábado, maio 19, 2012

Libertar o oprimido e o opressor


Foi durante esses anos longos e solitários que a minha ânsia de liberdade para o meu povo se dilatou numa ânsia de liberdade para todos, brancos e negros. Estava ciente de que o opressor precisava tanto de ser liberto como o oprimido. Um homem que rouba a liberdade a outro homem é um prisioneiro do ódio, está trancado atrás das grades do preconceito e da estreiteza mental. Ninguém é totalmente livre quando rouba a liberdade de outrem, do mesmo modo que não é livre aquele a quem tiram a liberdade. (...) Quando saí da prisão, era essa a minha missão, a de libertar o oprimido e o opressor. Há quem diga que já foi conseguido. Mas sei que não é assim. Na verdade, ainda não somos realmente livres, apenas alcançamos a liberdade de sermos livres, o direito de não sofrer a opressão. Não demos o último passo do nosso percurso, apenas o primeiro de um caminho mais longo e ainda mais penoso. Porque ser livre não é apenas quebrar as correntes, mas viver uma vida que respeite e estimule a liberdade dos outros. O verdadeiro teste da nossa dedicação à liberdade ainda mal começou. Tenho vindo a trilhar esse longo caminho para a liberdade. Procurei não vacilar, embora ao longo do percurso tenha dado passos em falso. Mas descobri que depois de subirmos uma montanha percebemos que continua a haver muitas montanhas por transpor. Aproveito o momento para descansar, apreciar a vista esplendorosa que me rodeia, para olhar para trás, a contemplar o caminho já percorrido. Mas só posso descansar por um momento, pois a liberdade traz consigo responsabilidades e não me atrevo a parar, pois o meu longo caminho ainda não terminou.
Nelson Mandela, “Um Longo Caminho para a Liberdade”

domingo, abril 01, 2012

Ironias da história

Lembramo-nos da amargura irónica com que certo chefe mandinga, referindo-se a si mesmo, falava dos seus dez anos de estudos corânicos, do seu perfeito conhecimento da escrita árabe, da sua formação teológica islâmica e do facto de, apesar de tudo isso, ser oficialmente considerado analfabeto.
António de Spínola, “Portugal e o Futuro” (1974)

domingo, março 11, 2012

O mercado global

Árvores cor de canela, fruta dourada.
Mãos acaju embrulham as sementes brancas em grandes folhas verdes.
As sementes fermentam ao sol. Depois, uma vez desembrulhadas, ao ar livre, o sol seca-as e, lentamente, vai-lhes dando uma cor acobreada.
O cacau enceta então a sua viagem sobre o mar azul.
Para passar das mãos que o cultivam às bocas que o comem, o cacau é submetido a tratamento nas fábricas das Cadbury, Mars, Nestlé ou Hershey, e depois é posto à venda nos supermercados do mundo: por cada dólar que entra na caixa, chegam três centavos e meio às aldeias de onde vem o cacau.
Richard Swift, um jornalista de Toronto, deslocou-se ao Gana, a uma dessas aldeias.
Visitou as plantações.
Quando se sentou para descansar, tirou do bolso umas barras de chocolate e antes mesmo de poder dar uma trincadela, uma multidão de crianças curiosas rodeou-o.
Nunca tinham provado. Gostaram muito.
Eduardo Galeano, “Les Voix du temps”, Lux, Montreal, 2011 – tradução de Júlio Henriques [Le Monde Diplomatique – edição portuguesa n.º 62, Dezembro 2011]

sábado, março 03, 2012

A gente destas paragens é oriunda da Negrícia...

Aguentei-me à banca de escritor com insuperável teimosia. Maniacamente insatisfeito. Tão bem como um sorriso de mulher, um período a compor fazia-me perder dias inteiros. E para quê? Portugal é terra boa para vinho e cebola, sáfara para as letras. Não enchem o alforge de quem as cultiva. Depois, trabalhar no idioma português pouco mais é que escrever na areia. O escritor fica a apodrecer dentro dele como no ataúde. Para outros domínios não se rompe. Qualquer literato, francês ou alemão, de segunda e terceira plana, adquire com uma perna às costas fama mundial. A mercadoria intelectual portuguesa, ainda a de primeira qualidade, é inexportável. E, antes de mais nada, é sensato que se pergunte: existe?
Como uma língua bunda na generalidade, batida apenas na pregação e no verso; difusa e exuberante no concreto; falha de todo o abstracto; sem matizes nem finuras, feitas por mareantes e cavadores, absorvidos na pobre vida material, e alguns latinizantes, trabalhadores ao torno; com uma língua que é difícil pensar acertado e escrever com graça, retorcida por frades, moços-fidalgos e gente de libré; com uma língua que foge da pena como a greda das mãos experimentadas, abastardada pela francesia – não é lícito perguntar se existe? O facto é que a literatura portuguesa não se exibe, por virtude intrínseca, nos escaparates internacionais e é por fineza que ocupa tal e tal estante nas bibliotecas e sinédrios estrangeiros. Quem atribui a Camões ou Eça voga cosmopolita é cafre ou julga que está a falar para cafres puros.
Em Portugal nunca houve o ofício das letras. A dignidade que confere o trabalho útil e lucrativo, este prestígio, sorte de heráldica, que vinca os mesteres de utilidade pública, desconhecem-nos as letras pátrias. Encontram-se amadores a dar com um pau, profissionais genuínos poucos. A razão é que nunca existiu entre nós necessidade de literatura. Sentiu-se a necessidade de chitas e improvisaram-se teares; de cimento e já se fabrica; de assobios para chamar o guarda e de palitos para palitar os dentes, e os utilíssimos artigos contam no país muitas e poderosas manufacturas. Logicamente, a literatura bruxeleia, a cargo de meia dúzia de curiosos, como a indústria dos tapetes de Arraiolos e das rendas de Peniche. Escrever para quê? O escritor nacional carece até do incentivo da dificuldade e do espírito de emulação. Não igualmente todos brilhantes, ilustres, gloriosos? Compreende-se a interestatuficação: «A gente destas paragens – escrevia um embaixador teutónico – é oriunda da Negrícia; por fora, boa maioria é mulata; por dentro, deve ser toda ébano retinto». Neste sector, estou repleto; nada mais tenho a desejar. Sou glória nacional desde Olhão a Valença.
Aquilino Ribeiro, “Maria Benigna”

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Artífices


O tempo em S. Cristóvão anda devagar. As terras são cascalho puro, de maneira que é preciso dar prazo às raízes para roerem o granito até fazerem de uma areia um grão de cevada ou de centeio. Um ano, ali, são trezentos e sessenta e cinco dias bem medidos. E as pessoas que lá moram, afeitas a horas longas, têm uma paciência de relojoeiro, cheia de mil cálculos e de mil ponderações. Exactamente como nas leiras, onde a gente vê semanas a fio o mesmo pé de milho parado, meditativo, enigmático, a aloirar encobertamente a sua espiga, assim nos homens mais pasmados, mais lentos e mais metidos consigo, anda às vezes uma resolução secreta a criar e a amadurecer. E saem obras tão perfeitas destas meditações, tão acabadas na concepção e na forma, que só o dedo da providência, porque aponta do céu, é capaz de lhe evidenciar os defeitos de fabrico. Mas mesmo assim são às vezes precisos anos para que Deus descubra a fenda do cântaro. Tal é a perfeição dos artífices de S. Cristovão!
Miguel Torga, conto “Teia de Aranha” in “Novos Contos da Montanha” (1944)

domingo, fevereiro 19, 2012

Dia do Comerciante

Os industriais e os comerciantes sempre foram muito bons a fazer reverter em seu benefício os nossos sentimentos. Habilmente, dirigem as suas campanhas para os momentos críticos do ano, a cuja mitificação ajudam com entusiasmo. Quem comemorava em Portugal, aqui há dez anos, o 14 de Fevereiro, dito Dia dos namorados ou de São Valentim? Era coisa tão nossa como o kilt dos escoceses ou o boomerang dos indígenas da Austrália. Então, alguém se lembrou que o natural desejo de obsequiar o namorado ou a namorada podia converter-se num negócio chorudo, e toca a convencer-nos de que São Valentim tinha nascido ali em Escalos de Baixo e era, pois, portuguesinho de gema. Entendem o que eu quero dizer, suponho.
Depois é o Dia da Mãe, o Dia do Pai, o dia de tudo e mais alguma coisa que possa ser convertido em notas de banco nas caixas registadoras. E nós, que vivemos alegremente nesta sociedade de consumo, vamos comemorando os diferentes dias, os quais perdem gradualmente o seu significado original para se tornarem apenas em dias de dar prendas. Isto é: o Dia do Pai, o Dia da Mãe, o Dia dos Namorados e tutti quanti transformaram-se em Dias do Comerciante todos eles. E nós a ver! E nós a colaborar!» 
A. M. Pires Cabral “Na Província Neva (Crónicas de Natal)”, 1997

domingo, fevereiro 12, 2012

Sê atrevido!


Sê atrevido — e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!
Alexandre O'Neill, “Já cá não está quem falou” (Assírio & Alvim, 2008)

domingo, fevereiro 05, 2012

Namoro a preto-e-branco

Vai, Meu Amor
(...)
Eu comprei um chapéu branco
Para namorar de dia,
E o chapéu branco rompeu-se,
E eu namorar não sabia.

Eu comprei um chapéu preto
Para namorar de noite,
O chapéu preto rompeu-se,
E o namorar acabou-se.
Salvador Parente “Cancioneiro Transmontano | I – Cantigas de Roda”, Cadernos Culturais, 2.ª Série, n.º 6, Vila Real, 1989

domingo, janeiro 29, 2012

Basta!


Os portugueses estão no topo da depressão – mas não têm a eficiência do suicídio ao ritmo nórdico. Nem é com mais meia hora de trabalho por dia que o povo fica com o design finlandês: desenganem-se, escuteirinhos da Alemanha. Portugal é demasiado velho para se tornar um puto neoliberal carregado do pestilento acne do individualismo triunfante. Já nem na América se usa este ambiente de bordel sem luxúria.
Inês Pedrosa, “Ler – Livros & Leitores” n.º 108 Dezembro 2011

domingo, janeiro 22, 2012

Bicho-homem

Decerto o bicho-homem é da omnímoda criação o ser que menos interesse reveste quando colhido em abandono, isto é, esquecido de si e dos outros. O lobo que vai no seu caminho denota uma exuberância de força e elasticidade que fariam a glória de um atleta olímpico; o asno que chouta livremente pelo caminho fora, indolente e devaneador, detendo-se aqui a colher uma febra de erva, suspendendo-se além na vaga consideração de qualquer coisa que lhe luziu a meio do campo, indeciso se deve ir ver ou não, assestando os auto-falantes para o besoiro que atravessou o seu horizonte a zumbir ou roçou por ele na sua passagem de bólide, não são números de alta curiosidade? E que dizer da vaca extraviada do pasto, levada ao acaso, patética e transida do espanto de se ver só, mugindo ao fim do mundo? E a singeleza mofina do carneiro, desgarrado, que dá seis passos e solta o mais lamentoso mé, pára ao buraco duma parede, como se por aquele buraco viesse ter com ele um curral, uma porta, um leito de palhas para se deitar, e subitamente, como se acordasse, dispara o seu mé, mete a galopar, balindo sempre se lhe aparece o zagal ou o cão salvador, a cada mutação lançando por perrice infantil ou necessidade de se ouvir desesperados e insistentes més-més? O cavalo tirado a trote ou à rédea solta, soberbo de porte, correndo desconfiado, nitrindo em par de despique ao vento que lhe enfuna a crina, que de humano lhe leva como símbolo de altivez? Visto em jardim zoológico, o homem é o vivente menos garboso, menos digno, porque tudo nele é estudo e artifício, mais reles de carácter e estupidamente emproado. A menos que seja o estafeta batendo a palmilha do pé; o carregador que vai no seu calvário; o caçador de monte ou caçador de fêmea – é feio, gebo, sem sentido, absurdo dentro das pantalonas, amarrado pela gravata que não tem explicação, erguido no chapéu, e ultra-ridículo debaixo do halo jactancioso de racional.
Aquilino Ribeiro, “Mónica” 

domingo, janeiro 15, 2012

Doiro de água...

Figueira da Foz, 20 de Agosto de 1939 – Não, eu não posso viver à beira-mar. Porque, das duas uma: ou me fico pasmado, parvo, de boca aberta diante deste Doiro de água, ou enlouqueço a sentir bater a minha pulsação angustiosa desta massa imensa. No primeiro caso, sinto-me morrer de imbecilidade; no segundo, estou sempre de mão no pulso a ver quando o coração se cansa.
Miguel Torga, “Diário I”

domingo, janeiro 08, 2012

E assim irão...


Bem de lágrimas. A frase de há séculos recorda-me, por expressiva, o acontecimento de ontem, domingo, ocorrido numa praia para os lados do cabo de Sines. Quando tentava salvar das ondas um rapazinho, foi levada pelo mar uma rapariga de dezoito anos. Como a corrente trazia o cadáver para o Norte, a família, camponeses da região, veio-o seguindo vagarosamente toda a tarde e toda a noite pela costa acima. Chegou hoje aqui, ao meio-dia. Um grupo de mulheres e de homens vestidos de negro e silenciosos. Os olhos, atirados para a distância, ardiam-lhes nas faces cavadas pela dor. Longe, avistava-se o corpo, boiando na vaga. Depois, como a corrente virasse ao Sul, seguiram para baixo, ora parando, ora caminhando, sempre de cara voltada para a água. E assim irão, como bem de lágrimas, até que a morta venha dar à praia.
Manuel da Fonseca, “À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café”

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Para os estádios do mundo inteiro...

Mão-de-obra

Mohammed Ashraf não vai à escola.
Do romper do dia ao erguer da lua, talha, recorta, perfura, monta e cose as bolas de futebol que saem da aldeia paquistanesa de Umarkot e rolam para os estádios do mundo inteiro.
Mohammed tem onze anos. Executa este trabalho desde os cinco.
Se soubesse ler, e se soubesse ler inglês, compreenderia o que está escrito nas etiquetas que coloca em cada uma das suas obras: “Esta bola não foi fabricada por crianças”.
Eduardo Galeano, “Les Voix du temps”, Lux, Montreal, 2011 – tradução de Júlio Henriques [Le Monde Diplomatique – edição portuguesa n.º 62, Dezembro 2011]

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Inflação editorial...

verifica-se hoje uma verdadeira inflação editorial. Publica-se tudo. E as técnicas comerciais de aumento de produção e expansão de mercados assenhoram-se por completo do sector, inundando com publicidade os meios de comunicação, impondo o livro ao comprador como se artigo de consumo se tratasse, e saturando as almas com doses de literatura em quantidade que supera a capacidade de leitura do público dos nossos dias. Natural, portanto, que as respostas ao direito de informação, em obediência a imperativos de natureza cívica ou doutrinárias, sejam sorvidas na torrente de publicações adquiridas num momento de menos ocupação e logo colocadas em prateleira de estante à espera de uma oportunidade de reflexão; ou então sejam lidas apressadamente sem o esforço de análise crítica que merecem, suscitando, por isso, quantas vezes, perigosas ou inconvenientes desvirtuações do pensamento ou da mensagem que contêm.
Parece então haver razões para se admitir que esse excesso de produção literária, dirigida a um público a quem se torna cada vez mais difícil definir critérios selectivos e sobrecarregando um escol para quem os dias são progressivamente mais curtos, esteja a retirar ao livro o seu carácter de instrumento por excelência de consciencialização humana, desse modo se acelerando o processo de massificação das sociedades. E quando se assiste no mundo inteiro à violação das consciências reduzidas à fixação de slogans, se observa a crescente alienação dos seres humanos perante os manipuladores de massas e se verifica a flagrante dualidade de verdades equívocas servindo causas opostas, então é lícito duvidar-se do interesse no debate de ideias, tornado inconsequente pela falta de eco em sociedades cada vez mais vazias e menos capazes de fruir os direitos em nome dos quais se deixaram mobilizar por interesses de minorias que lhes condicionam os padrões de atitude.
Perante essa limitação do sentido crítico, hoje extremamente facilitada pelo controlo da informação, as razões para que se publique um livro terão de ser suficientemente ponderosas em ordem a vencer a natural relutância decorrente de tantas interrogações.
António de Spínola, “Portugal e o Futuro” (1974)

domingo, dezembro 25, 2011

De um grupo de funcionários que ninguém elegeu...


vista de fora, a Zona Euro parece um daqueles países em vias de desenvolvimento, a quem o FMI impôs um dos seus rígidos programas de estabilização que o tornaram tão famoso: baixa inflação, rectidão fiscal, desregulamentação, privatização; tudo comandado por um grupo de funcionários que ninguém elegeu.
Andrea Boltho, «What’s Wrong with Europe», New Left Review, Julho-Agosto, 2003, p. 20

domingo, novembro 27, 2011

O tio da América


E aqui te declaro: boa, boa fortuna são os braços rijos e a alma escorreita. A outra, de fazendas e capitais, também conta, não digo que não. Mas para a gente apreciar quanto vale, saber saboreá-la como limão espremido na água quando se tem sede, saber defendê-la dos baldões da sorte, forçoso é que a tenhamos amassado por nossas mãos. Essas que desabam das nuvens, vêm por um tio da América, a lotaria ou a vermelhinha, arrenego delas. O azar as deu, o azar as leva. Sou tão ignorante como tu, mas capacito-me que trazem consigo mandinga, qualquer princípio inflamável e, às duas por três, ardem nas mãos, nos cofres, no que estejam empregadas, para não quedar mais do que cinzas e fumo no ar.
Aquilino Ribeiro, “A Batalha Sem Fim” (1930-1931)

domingo, novembro 20, 2011

Quer a razão queira, quer não...


S. Martinho de Anta, 24 de Setembro de 1940 – Vindima. Um cesto de uvas, ao todo! O míldio, a chuva e a geada reduziram oito pipas a meio almude. Meu Pai fala nisto, e fica branco. Mas estejam os elementos e os micróbios certos do seguinte: é que o velho se vai atirar à tesoura, à poda, à erguida, à cava, à redra, ao enxofre e ao sulfato como se as vinhas tivessem dado vinho para as bodas de Caná. Quando se é lavrador como o meu Pai é, o corpo acaba por cavar, quer a razão queira, quer não.
Miguel Torga, “Diário I”

sexta-feira, novembro 18, 2011

Chás e endireitas

Endireita dos ossos era o ZÉ PINTO, da mesma família do capador. Casou para a Vila da Ponte e ganhava mais segadores para o centeio como endireita dos ossos, que os cunhados todos a ganhar a geira. Como não cobrava dinheiro pelo seu artesanato, tudo fazia de graça e a rir, os clientes gemiam e riam ao mesmo tempo, porque ele contava-lhes umas histórias da imaginação que os pacientes tinham vontade de rir. Só dizia à mulher: Ó Maria traz cá uma trança de linho e uma clara de um ovo... e enquanto localizava a quebradura dos ossos distraía o doente de tal maneira que nem dava pela cura, só dizia um AI.
E de CHÁS sabia ele, que tinha um velho alfarrábio com todas as doenças das mais variadas maleitas e os remédios de CHÁ para todas elas.
Padre Manuel Alves, “Parafita – Foral concedido pelo Rei de Portugal D. Afonso III (31 – Maio – 1298) – Análise Histórica –“

domingo, novembro 13, 2011

Europa vs. América

Considere-se uma chávena de café americano. Em qualquer lado se encontra. Qualquer um pode prepará-la. É barata – e as segundas doses são gratuitas. Dado que, em grande parte, não tem sabor, pode diluir-se à vontade. O que lhe falta em sedução é compensado pelo tamanho. É o método mais democrático já inventado para introduzir cafeína em seres humanos. Agora vejamos uma chávena de espresso italiano. Requer equipamento caro. A relação preço-qualidade é escandalosa, dando a entender indiferença pelo consumidor e ignorância do mercado. A satisfação estética da bebida supera de longe o seu efeito metabólico. Não é uma bebida, é um artefacto.
Tony Judt, “O Século XX Esquecido – lugares e memórias”

domingo, outubro 30, 2011

Dũa austera, apagada e vil tristeza


Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza.
Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas” – canto X, 145

sexta-feira, outubro 21, 2011

Dolorosas infâmias...


As revoluções não são factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evoluções do Sol. São factos fatais. Têm de vir. De cada vez que vêm é sinal de que o homem vai alcançar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade.
Decerto que os horrores da revolução são medonhos, decerto que tudo o que é vital nas sociedades, a família, o trabalho, a educação, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as misérias que se sofrem com as opressões, com os maus regimes, com as tiranias, são maiores ainda. (...)
As desgraças das revoluções são dolorosas fatalidades, as desgraças dos maus governos são dolorosas infâmias»
Eça de Queirós, in “Distrito de Évora”, 1867

segunda-feira, outubro 17, 2011

Arte Sacra

O clero português, mesmo aquele que sai dos seminários todo cheio de tomismo e liturgia, em arte é de uma ignorância imensurável. Vá o meu querido doutor por essas igrejas fora. As imagens do Sagrado Coração de Jesus e do Coração de Maria, de Nossa Senhora de Lurdes, do Santo Condestável e da Nossa Senhora de la Salette, duma pulcritude reles, desbancaram as velhas imagens cheias de séculos, góticas tantas vezes. Por outra, como estas parecem feias, sem beleza celestial, entregam-nos ao imaginário, que as desbasta, alinda, ou simplesmente avilta sob a encarnação acatitada. Os templos românicos, que abundam por esta província, foram demolidos para dar lugar à igreja alta, sem graça nem estilo, género telheiro de fábrica. Os padres queimam os velhos paramentos, brocados do Renascimento, chamalotes que são maravilhas de tecelagem, porque estão velhos! Por modos autoriza-os o ritual.
Aquilino Ribeiro, “O Homem Que Matou o Diabo”

segunda-feira, outubro 10, 2011

Filosofei...

Coimbra, 15 de Abril de 1943 – Era preciso dizer-lhe que o fumo lhe fazia mal, lhe aumentava a tosse e o pigarro. Nos livros, pelo menos, vinha assim. Mas filosofei:
- Olhe, a vida, sem uma pitada de risco, não presta. Eu cá sou por um diabo que se esconda no bolso do colete, enrolado numa mortalha, e nos atente para que lhe cheguemos um fósforo ao rabo de vez em quando. Intoxica, mas é um regalo vê-lo depois desfeito em cinza, vencido à custa de um segundo da nossa vida.
Miguel Torga, “Diário II”

quinta-feira, outubro 06, 2011

...e disto nunca se viu castigo!

Senhor, os reis são vassalos de Deus; e se os reis não castigam os seus vassalos, castiga Deus os seus. A causa principal de não se perpetuarem as coroas nas mesmas nações e famílias é a injustiça, ou são as injustiças, como diz a Escritura Sagrada; e entre todas as injustiças, nenhumas clamam tanto ao céu, como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres, e as que não pagam o suor aos que trabalham: e estes são e foram sempre os dois pecados deste Estado, que ainda têm tantos defensores.
A perda do Senhor Rei D. Sebastião em África, e o cativeiro de sessenta anos que se seguiu a todo o reino, notaram os autores daquele tempo que foi castigo dos cativeiros que na costa da mesma África começaram a fazer os nossos primeiros conquistadores, com tão pouca justiça como a que se lê nas mesmas histórias.
As injustiças e tiranias que se têm executado nos naturais desta terra excedem muito às que se fizeram na África. Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram, por esta costa e sertões, mais de dois milhões de índios, e mais de quinhentas povoações como grandes cidades; e disto nunca se viu castigo.
Padre António Vieira, “Carta ao Rei D. Afonso VI” (1655)

sexta-feira, setembro 30, 2011

Censurado...




A cada cinco segundos, uma criança morre de fome. Não há dinheiro porque este é usado para salvar bancos.
Jean Ziegler, antigo relator especial do Concelho de Direitos Humanos na ONU para o direito à alimentação [Convidado a proferir um discurso durante a inauguração do Festival de Salzburgo, foi dispensado à última hora. Veio a publicar o seu discurso numa brochura.]

terça-feira, setembro 27, 2011

Hábitos


Era outro hábito: quando estava doente, mergulhava num romance de Alexandre Dumas pai: possuía as obras completas deste, numa velha edição popular de páginas amarelecidas e gravuras românticas, e bastava o cheiro que emanava desses livros para se recordar de todas as pequenas doenças da sua vida.
Georges Simenon, “Maigret e o Seu Morto”

sexta-feira, setembro 23, 2011

O kriol guineense

O crioulo da Guiné teve origem na língua portuguesa falada entre os séculos XV e XVII. Tornado idioma veicular das diversas populações da Guiné-Bissau, nele se misturam e confundem a vida e a memória de uma infinidade de locutores-transmissores, num espaço onde todos põem tudo e onde a escrita, por enquanto, não tem lugar.
Uma língua em gestação persegue a economia. Mas uma língua em liberdade não tem pressa e deixa que o excesso se espraie em todas as direcções, já que a eficácia da comunicação é assegurada por instâncias não linguísticas. Ao lado e antes das palavras, está a plena proximidade que não permite equívocos nem produz ruídos: o calor, a mímica, o contacto físico fazem soçobrar as regras já erigidas noutros lugares. (...)

O conto crioulo é um milagre sempre recomeçado. Miragem dos grandes e dos pequenos, realidade para todos e apesar de tudo, ele transforma o verbo em júbilo pela magia de uma língua mutante, feita de raízes africanas e europeias e de palavras mestiças.
Filho da mistura, o conto crioulo faz viver a palavra e vive da palavra que anima personagens familiares. Sejam eles Caçador, Feiticeiro, Combossa, Pauteiro, Bajuda submissa ou rebelde, estes arquétipos articulam-se segundo esquemas dinâmicos.
Teresa Montenegro e Carlos de Morais, “Uori – stórias de lama e philosophia”, Ku Si Mon editora

sábado, setembro 17, 2011

Génesis do vinho



Segundo o Génesis, Cap. IX, foi Noé o primeiro a plantar a vinha e a embriagar-se com o vinho.
Hernâni Cidade, notas a “Os Lusíadas” de Luís de Camões, 75,6 Canto VII

domingo, setembro 11, 2011

Dos artistas

Buarcos, 13 de Junho de 1943 – Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome orgânica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do espírito. Tisnados de saúde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doença, olho-os também. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes dá razão. Mas de mesma maneira que eles, sem que ninguém lhes peça sardinha, se metem às ondas, também eu, sem que ninguém me peça poesia, me lanço a este mar da criação. Há uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: é a sua consciência de que são tão fundamentais à vida como o pão. Podem acusá-los de servirem esta ou aquela classe. Pura calúnia. É o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo não pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e não as podem ver, a traição não é dela, mas dos olhos, ou de quem os mantém cegos e incultos.
Miguel Torga, “Diário III”

terça-feira, setembro 06, 2011

De Lamego


- Com grande consolo, depois de ver uns países tão raivosos de progressos, vim topar Lamego não só não eivado da noção do tempo mas refractário de todo à febre moderna. Cheguei ao correio, e os funcionários ressonavam, com os carimbos ao lado, sobre os maços da correspondência, trazida a toda a pressa nos comboios rápidos e transatlânticos. Palavra! só depois do meu regresso pude gozar este espectáculo singular de ver à luz do dia a vida a viver!
Aquilino Ribeiro, “A Via Sinuosa”

quarta-feira, agosto 31, 2011

Sobre um país de brandos costumes...




Os pretos em África têm de ser dirigidos e enquadrados por europeus mas são indispensáveis como auxiliares destes
Marcelo Caetano, “Os Nativos na Economia Africana” (1954)

domingo, agosto 21, 2011

Um café!

Certo dia, explodiu numa grande danação contra o neto, que à viva força teimava que ela havia de beber café. «Posso lá com tal bebida!», gritou-lhe o Costa Cardoso. «Uma planta que só nasce em zonas doentias da África e do Brasil, onde se morre de febres medonhas! E o grão? Quantos trabalhos para trazê-lo, ao lombo, sob o fogo do Sol, até à Costa? Quantos trabalhos para embarcá-lo, atravessar as tempestades do oceano, desembarcá-lo, torrá-lo, moê-lo. Pois, após tantas canseiras, tantas, mal mergulham o pó na cafeteira, zás, deitam-no fora! E essa mixórdia deixa a água tão suja e amarga que só com açúcar conseguem bebê-lo! Não! Nunca hei-de tocar-lhe sequer!»
Manuel da Fonseca, “À Lareira, nos Fundos da Casa onde o Retorta Tem o Café”

quarta-feira, agosto 17, 2011

Anagogia!


Instruir é juntar, de fora, alguma coisa ao que já foi dado, como quem reboca parede depois de ser construída e, num refinamento, de estética ou de protecção, passa ainda sobre o reboco seu estuque e sua tinta. Na instrução, considera-se que o menino, ou grande, é parede mal aparelhada e se lhe vai juntando, conforme os recursos, o que for necessário para que se torne mais útil na sua função de parede. Na instrução sou trolha: sei o que quero, de que argamassa disponho ou qual a cal que me convém: estou tranquilo em meu andaime e marco a cada dia a obra feita.
Com a educação, tudo se passa ao contrário: se no instruir sou trolha, no educar, e bem o sabemos já desde o tempo do velho Sócrates, sou eu parteiro. Tenho de ter ciência naturalmente; mas o que tem de esplender cá fora já se encontra lá dentro, e as minhas qualidades principais têm de ser a paciência e o usar de todos os meios que possam fazer dá-lo à luz sem traumatismos nem mutilações. Para o educador, a criança já está interiormente pronta, tal como será o adulto ideal, mas trata-se de a ir colocando em todas as circunstâncias propícias para que se desenvolva, o que significa, como se sabe, que se desembrulhe, se desembarace do que a impede de ser o que é. Quem instrui ataca; quem educa espera. Quem instrui pode fazer o que quer, como um escultor martela estátua; vai o educador pelos caminhos do criador do bicho-da-seda: dá-lhes as folhas certas na altura certa, depois os raminhos secos de encasular, depois os panos da postura, mas a comparação por aqui pára: não mata nunca o bicho no casulo; o que lhe interessa é borboleta voando livre, em sua ruflante brancura; quem instrui apenas mais interessa a seda que o organismo vivo.
Com muita razão se compendiou a ciência do instruir na palavra pedagogia, que significa, na ua etimologia grega, o empurrar de meninos; empurramo-los para o ler, o escrever e o contar, mesmo que o não queiram, já que é a escola obrigatória, até mais obrigatória que a vida, pois até com fome, frio e mau trato se tem de lhe ir à frequência; mais tarde o empurramos para o liceu, se é de boa classe, para os cursos técnicos, se destinado a servir, portanto ao fim de um está a Universidade, ao fim dos outros a oficina, que se nem pensem em juntar, alternando os períodos, por ser ideia, ao que parece, subversiva. Empurra-se o menino, empurra-se o adolescente, empurra-se o adulto: somos todos uns excelentes pedagogos: empurramos.
Mas vai agora surgindo outra atitude, marcada por outra palavra, a de anagogia, ou acto de levar para cima ou de fazer subir; aqui ninguém empurra ninguém: se a perna se mostrou firme e ágil, e só os anormais não a têm assim, vai-se pondo degrau após degrau, até que atinja a maior altura possível, segundo a vocação e as forças que haja em cada um, com um primeiro degrau ao alcance de todos e não apenas dos privilegiados, e sempre um último degrau, pois pouco sabemos dos limites humanos e das fronteiras do mundo. O que temos tido até agora, sob o nome de pedagogia, é de facto, e geralmente violenta, até com o professor batendo e castigando, uma catagogia ou condução para baixo, para muito baixo do que permitiria e sofreria nossa natureza humana; somos instruídos para não crermos em nós, para nos submetermos, para obedecer, não para criar, que foi ao que viemos; venha, pois, a anagogia, o caminho para cima, o mais depressa possível.
Instruir sem educar pode ser a mais perigosa das empresas em que se empenha um homem ou um país, pois que vai pôr instrumentos de vida ou morte nas mãos de quem, se não ignaro por nascimento, ignaro se tornou porque não houve a tal anagogia; toda a vida se transforma em automóvel guiado por inconsciente, coisa que, ao que parece, se multiplica. E aqui temos que nos lançar com todo o nosso esforço: se é fácil abrir escolas ou pode ser fácil mandar à escola, de nada servirá fazê-lo se, ao mesmo tempo, se não fizer educação: a qual, como é simples concluir do que se disse atrás, são condições essenciais a liberdade económica, abrindo o campo, a oficina e a cooperativa, escola em si própria, antes de abrir a sala de aula, a liberdade de informação e de expressão, abolindo tudo o que a possa limitar, mesmo no que mais pareça necessário, já que os prejuízos que vêm da fala franca são sempre menores que os que resultam do silêncio forçado; a liberdade de pensamento, no domínio político, no domínio metafísico, no domínio religiosos, que continuo a ver como o mais importante, mas possível e desejável fora das religiões institucionais tanto como dentro delas; aqui, na liberdade de pensamento, temos a condição fundamental de ser homem: e tão raramente, tão fugazmente, a temos tido na história da Humanidade, que bem conviria ser esse o campo em que, resolvidos os problemas materiais de todos, concentrássemos o nosso sonhar, o nosso querer, o nosso agir.
Agostinho da Silva, «Composição do Brasil», Vida Mundial, n.º 1711, 24 de Março de 1972

segunda-feira, agosto 08, 2011

Dos suíços...


Pensando na calma, na fleuma, no civismo dos Suíços, que por vezes toca as raias da mania, lembro-me agora duma frase da marquesa de Quintanar, que acabava de passar seis meses na Suíça, no sanatório, com a filha doente. De regresso a Madrid, ao descer do avião, explodiu:
- Caramba! Já se pode cuspir no chão!
E tirando da algibeira uns poucos papéis de rebuçados amarrotados, espalhou-os aos quatro ventos, num gesto vingativo que muito a aliviou.
Fernanda de Castro, “Ao Fim da Memória II 1939 – 1987”

sexta-feira, agosto 05, 2011

Velocidades


Coimbra, 26 de Junho de 1944 – Aflitiva a impaciência que começo a sentir nos comboios. Cada paragem, cada abrandamento de velocidade dão-me cabo dos nervos. Desespero-me por levar sete horas de Coimbra a Lisboa, quando eu sei que já foram precisos dias para percorrer tal trajecto. Mas não há História que me console. Ponho-me a pensar assim: nesse tempo a coisa era com cavalos, e uma solidariedade de suor, um limite muscular que a nossa própria animalidade media, ajudavam a respeitar o ritmo fisiológico do movimento. Rebentar montadas era um recurso extremo, que não se fazia sem dor. A espora que feria a ilharga tingia-se de sangue, mesmo que fosse de oiro. De maneira que o cilício que picava a besta picava o homem. Mas já que o progresso se riu da mula chocalheira e da diligência, então quero a mecânica a mil à hora, a velocidade levada até onde a corda der. Entregou-se o caminho não a cascos caseiros e familiares, mas a eixos de aço. Haja, por conseguinte, um chicote de lume a fazer voar as rodas.
E não será um sentimento idêntico ao meu que gera este delírio da velocidade, esta corrida cada vez mais desesperada do nosso tempo? Quebrou-se a amarra do navio; e os tripulantes, agora, o que querem é um vendaval que os leve o mais depressa possível a qualquer porto ou à morte.
Miguel Torga, “Diário III”

terça-feira, agosto 02, 2011

Douro, vulgo d'oiro


o Douro é a paisagem vinhateira mais bela do mundo acima de Bordeus ou de Champagne. a sua grandiosidade é obra do homem de rosto descoberto que removeu xistos e ergueu socalcos a braços. o Douro é essa escadaria monumental de vinhedos plantados em xisto.
José A. Salvador, “Projecto Património” n.º 2 Julho 1995